Cultura

Gênova, um destino não-óbvio para o verão europeu

A elegante alegria desta comuna é um convite para muita história, paisagens, gastronomia e cultura

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Os turistas tendem a desprezar a capital da região da Ligúria em favor de Turim, Milão ou Bolonha quando se trata de férias em cidades no norte da Península, apenas usando seu aeroporto para seguir para a Riviera italiana. Mas o lugar natal de Cristóvão Colombo, da Cruz de São Jorge, da focaccia, do blue jeans (o tecido foi inventado aqui, segundo alguns relatos: jeans viria de Gênes, o nome de Gênova em francês) e capas de discos do Joy Division (explico esta mais adiante) é uma alegria por direito próprio.

A forma alongada e estreita de Gênova é ditada por sua localização entre o Mediterrâneo e os montes Apeninos lígures. Raramente com mais de alguns quilômetros de largura, a cidade estende-se por quase 40 quilômetros de litoral – do bairro de Voltri, no oeste, a Nervi, aldeia de pescadores transformada em balneário, no leste –, com loteamentos penetrando pela terra em alguns vales.

Logo a leste do Porto Antico fica a cidade velha, a maior cidade medieval da Europa, um labirinto de caruggi (ruas estreitas) que lembram o Bairro Gótico em Barcelona ou o centro de Nápoles.

A moderna área de negócios e compras de Gênova fica na borda da cidade antiga, começando na Piazza De Ferrari, no centro.

Atravesse o centro histórico nas trilhas dos caruggi

Circular pela cidade é ao mesmo tempo simples e diferente. A cidade antiga pode ser percorrida a pé em dez minutos (se você não se perder – prédios altos e ruas estreitas não são amigas do Google Maps) e ônibus, trens ou táxis são o modo de chegar aos bairros ao longo da costa. Mas esta é uma cidade de alturas: dez elevadores e três funiculares ligam a Gênova do nível zero às áreas superiores – sendo a mais famosa o mirante da Spianata di Castelletto –, e as passagens para eles são integradas às de ônibus e trens.

O assunto da queda da Ponte Morandi no último verão, um acontecimento traumático para o país, surge inevitavelmente de vez em quando. Mas ninguém que eu conheci quis se alongar sobre ele, apesar da raiva óbvia e da dor que causou.

Comida e bebida

Saí de Gênova temendo que tivesse de comprar mais um assento no avião de volta – é um lugar que confirma alegremente todos os estereótipos alimentares da Itália. Minha primeira noite passei no Slow Fish, um enorme festival ao ar livre, realizado a cada dois anos, em Porto Antico, que promove a pesca sustentável, um tema cada vez mais quente numa cidade em que peixes e frutos do mar estão por toda parte. Na Osteria di Vico Palla, em uma rua lateral próxima, comi uma deliciosa sopa de frutos do mar (8 euros) e cappon magro (13 euros) – uma elaborada pirâmide de frutos do mar com legumes coroada por um lagostim inteiro.

Adentrando a cidade antiga, o informal Sa Pesta serve porções de suas saborosas torte di verdura (tortas abertas de legumes, assadas em enormes bandejas redondas). Meu prato de degustação misto (10 euros) tinha ripieni di verdura (legumes recheados), torta di riso (torta de arroz e queijo), polpettone alla genovese (assado de vagens e batatas), torta pasqualina (de beterraba e ovos) e minha favorita, a crocante farinata (panqueca de grão-de-bico).

Mais elegante (mas ainda acessível) é o I Cuochi, perto da rua principal da cidade antiga, Via Luccoli. Ele faz um excelente almoço fixo com um prato de massa da estação ou peixe, por 10 a 15 euros.

A genuína focaccia, invento local, vale por um almoço completo

O Rosmarino, próximo à Piazza de Ferrari, oferece um suculento tartare de carne com prescinsêua, um queijo macio local (9 euros) e espetinhos de lula que derretem na boca (15 euros). Eu apreciei o serviço excepcionalmente amistoso e o bacalhau cozido à perfeição, com molho de nozes (15 euros) no Le Rune, na parte mais nova da cidade. Uma ótima e barata opção de almoço é pegar uma focaccia (simples ou coberta de cebola).

Há um gelato de primeira na Profumo e, virando a esquina na imponente Via Garibaldi, na Gelatina. A última também tem um sentido elogiável de responsabilidade social: a proprietária, Martina Francesconi, faz questão de empregar imigrantes que buscam asilo e pessoas com deficiência, e obtém todos os seus ingredientes de maneira ética e local. Seu mais novo sabor de gelato é manjericão, desenvolvido para ajudar os agricultores de um vale próximo à Ponte Morandi, que foram muito prejudicados pelo desastre.

Música e vida noturna

Uma cidade portuária com mais de mil anos, Gênova não tem poucos bares excelentes. Fui à cidade com o estilista de moda italiano Jacopo Pennone, que divide seu tempo entre Gênova e Xangai. La Lepre, na cidade velha, é um lugar despretensioso e acolhedor, com um amplo terraço, vinhos e cervejas excelentes e uma boa frequência de cães levados por donos envaidecidos.

A maioria dos vinhos da Ligúria é branca (as uvas vermelhas não se dão muito bem nas encostas rochosas da região). As variedades mais comuns são as aparentadas vermentino e pigato (a última ligeiramente mais aromática). Não provei nenhum mau exemplo dos dois durante toda a semana.

Bem perto dali a Cantine Matteotti é um ótimo bar de vinhos com uma atitude agradavelmente flexível sobre o horário de fechamento. “Eu posso lhes dar dez minutos”, disse o dono, sorrindo, quando chegamos às 23h30; e então disse a mesma frase a outro grupo que chegou meia hora depois.

Ali perto, Les Rouges é um lugar muito apreciado para apericena (o popular formato de jantar aperitivo-com-bufê). Eu comi salada de lula com batatas e azeitonas e grandes nacos de focaccia com anchovas, acompanhados pelo aperitivo da casa. O ambiente grandioso do Les Rouges dentro de um dos muitos palácios Rolli protegidos pela Unesco na cidade enfatiza que os visitantes podem desfrutar de interiores barrocos magníficos nos bares e cafés de Gênova com tanta facilidade quanto em suas muitas igrejas espetaculares.

No décor barroco do Les Rouges, o prazer é contemporâneo

Virando a esquina do meu B&B, Casa Ramé, o Spazio Lomellini é um local aconchegante de música e artes, com decoração encantadora, que abriga até 90 pessoas e se tornou um ponto preferido de músicos e pequenas bandas internacionais, assim como de artistas locais. O lugar também funciona como ateliê de escultura do dono, Ruben Esposito, e ele o dirige na base da afiliação; mas qualquer um pode se tornar sócio na entrada, por 10 euros.

Gênova não é conhecida como cidade de clubes noturnos, mas a área à beira-mar de Corso Italia tem vários lugares, e se o karaokê não o assusta tanto quanto a mim, o amado My Way, na Piazza Tommaseo (não tem site na web), é o lugar ideal.

Arte e cultura

Os museus e galerias municipais de Gênova vão dos palácios do século XVI Strada Nova, na Via Garibaldi, passando por pintura e escultura do Renascimento na Galleria Nazionale di Palazzo Spinola à GAM – Galleria d’Arte Moderna. Mas a galeria contemporânea independente Pinksummer, dentro do Palazzo Ducale, é uma atração vital do cenário genovês há bem mais de uma década. Sua atual exposição, Invernomuto, é uma instalação atmosférica em que cabeças de cerâmica mourisca com olhos de laser vermelho projetam desenhos geométricos no escuro, enquanto música ambiente enche a sala.

Banhe-se em artes no Palazzo Doria Tursi – Musei di Strada Nova

O Museo d’Arte Orientale Edoardo Chiossone, no Parque Villetta di Negro, abriga uma coleção mundialmente renomada de figurinhas, vasos, máscaras, ferramentas, armas e outros objetos japoneses da era Meiji.

No bairro de Nervi, no litoral leste (o melhor acesso é por trem, partindo da estação Brignole), o Festival Internacional Nervi (2 a 20 de julho) será o segundo em um trio de festivais de verão anuais, combinando balé com concertos clássicos e shows populares nos jardins de uma villa com vista para o mar: reserve online ou no Teatro Nazionale em Gênova. O Porto Antico é o ambiente do multicultural festival Suq, até 24 de junho, com teatro, música, dança, workshops, comida e shows ao ar livre durante todo o verão.

Compras

Algumas das lojas mais notáveis de Gênova também são visitas históricas imperdíveis. Via Garibaldi 12 é uma loja de decoração que, como explicou seu gerente, Lorenzo Bagnara, é deliberadamente montada para manter o clima e a personalidade de sua encarnação anterior como uma grande residência barroca. Bagnara é um dos 103 “embaixadores de Gênova” oficialmente reconhecidos e uma fonte de paixão e curiosidades sobre a cidade.

Ele me contou que o lugar manteve muito de seu coração medieval porque a burguesia do século XIX preferia morar nos prédios novos das áreas de Castelletto e Foce, deixando a cidade antiga relativamente tranquila.

Subindo por outro elevador há a Antica Farmacia S. Anna, uma farmácia ligada a um mosteiro que funciona desde 1650. Não é um lugar para se procurar uma caixa de aspirina. O frade Ezio, que dirige a farmácia e o mosteiro, concentra-se no tipo de remédios que os monges preparam há séculos. Antigos armários de ervas e poções forram as paredes, e acima do balcão um querubim segura uma placa que diz, em latim: “Podemos lhe dar remédio, mas só Deus pode lhe dar saúde”.

Na Antica Farmacia S. Anna, poções que curam desde 1650

Outro maravilhoso recuo no tempo o aguarda na Romeo Viganotti, cujos chocolates refinados – pralinês crocantes e trufas aveludadas – ainda são feitos em máquinas movidas por correias instaladas nos anos 1860.

Em meu último dia, conheci a escritora e jornalista Rosa Matteucci para visitar alguns de seus lugares preferidos. Primeiro pegamos um ônibus na direção do interior, para Staglieno e seu extenso cemitério, um testamento do empreendedorismo do século XIX, e que abriga não uma, mas duas tumbas mostradas em capas de discos do Joy Division. “Este lugar é como uma obra de arte que vai do barroco ao futurista”, disse Rosa quando caminhamos na direção do anjo choroso sempre associado a Love Will Tear Us Apart. Depois de tirar fotos (há uma escada para ajudar os visitantes a captar o ângulo certo), passeamos entre centenas de monumentos aos mortos, igualmente impressionantes.

Também estava em nossa lista um passeio no elevador mais interessante da cidade, o Ascensore Castello d’Albertis-Montegalletto. Único na Europa, esse equipamento incrível começa como um trem e termina como elevador, tudo no mesmo trajeto. Conforme o pôr do sol se aproximava, ainda deu tempo de admirar, com certa surpresa, minha primeira escalada autônoma em Gênova: uma curta, mas vigorosa subida até Villetta di Negro, um parque sobre um morro ao lado da cidade velha com um túnel rodoviário por baixo. Minha recompensa foi o ponto de vista arborizado do parque, quase deserto, e uma última visão gloriosa dos caruggi da cidade velha com o mar reluzindo mais adiante e o borbulhar de uma pequena cachoeira sobre o rumor distante da cidade lá embaixo.

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