Biografia de Jards Macalé o coloca no lugar certo na história da música

O cantor e compositor dialogou com as artes e com o seu tempo de forma autêntica, provocativa e necessária

Foto: Leo Aversa/Divulgação

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Cultura

É provável que se Jards Macalé tivesse feito concessões durante a carreira profissional, não haveria um livro sobre ele tão extenso. E talvez não fosse registrado à posteridade como um artista inovador e ousado. Não há motivo para dedicar tanto tempo para quem costuma cair no lugar comum ou perto dele.

Mas a vida de Macau (seu apelido mais íntimo) é digna de receber um ensaio biográfico de 500 páginas. E foi o que o escritor e pesquisador Fred Coelho fez em Jards Macalé – Eu Só Faço o que Quero (Numa Editora). A vida do biografado é indissociável do momento em que a música brasileira ganha maturidade e ar moderno.

 

 

Outro dia aconteceu um festival virtual mostrando a relação do cantor e compositor com o cinema, fazendo a trilha ou atuando com ator em projetos consistentes. Dos 11 trabalhos, há dois sobre ele mesmo. São obras de gente de peso da história da cinematografia, como Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade – para este, fez trilha para Macunaíma.

Macalé, no entanto, ocupou espaço também na direção de shows e discos antológicos de artistas que escreveram parte importante da história da MPB, como Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso (foi à Inglaterra dirigir o clássico álbum Transa) e Gilberto Gil.

Jards Anet da Silva, seu nome de batismo, foi um estudioso músico na juventude. Isso lhe deu base para interferir em trabalhos fundamentais naquele período conturbado de fim dos anos 1960 ao começo de 1970. Seu talento e pluralidade no violão, capazes de fazê-lo acompanhar qualquer um, do erudito ao popular, e conhecimento da estrutura orquestral foram imperiosos para dialogar com a sua geração em rápida ascensão. Macalé poderia ter circunscrito sua carreira nessa honrosa tarefa. Mas resolveu pegar seu caminho. E fez certo. Havia talento de sobra à transcendência.

Solo

A partida para a carreira solo fez que Jards começasse a ter as suas dissensões com o sistema, carregando isso de alguma forma até hoje. O mérito do livro de Fred Coelho está aí. Ele contextualiza a todo momento o que se passava no cenário musical em meio aos conflitos de Macalé com o modus operandi de sua área de atuação. Aliás, a obra é referência para entender os descaminhos da indústria musical.

O biografado é a antítese do neoliberalismo que assolou a música dos anos 1970 para cá. Com um trabalho denso e inovador, mas reflexivo e abstrato, foi sempre preterido num mercado cada vez mais ansioso por fazedores de sucesso (e dinheiro) da noite para o dia.

A apresentação performática de Gotham City, uma parceria com Capinan, no IV Festival Internacional da Canção (1969), foi o início do rastilho de pólvora que o perseguiu por longo tempo por não se subordinar tão docilmente ao estado das coisas. O projeto Banquete dos Mendigos, desenvolvido com o amigo e poeta Xico Chaves na Ditadura Militar, trouxe mais celeumas.

Essas considerações criaram vácuos de projetos solos de Jards Macalé que quase o mataram. Só depois de mais cascudo, já com meio século de vida, é que vai conseguindo impôr as suas reflexões e o absoluto domínio da arte musical sem tantos conflitos.

As composições de Macau foram gravadas desde sempre, com invejável quadro de parceiros, como o saudoso Waly Salomão (de Vapor Barato, entre outras).

Imbricou-se nos últimos tempos com uma nova geração de músicos nada afeitos a rótulos musicais, como o criativo Kiko Dinucci. Desses últimos encontros, nasceu o álbum que sintetiza de certa maneira sua obra: Besta Fera (2019). O trabalho saiu depois dele passar dez dias em coma por causa de uma broncopneumonia.

Voz próxima de boêmios e malandros ativada por letras sarcásticas e mensagens subliminares tornaram-se sua marca. No palco, Jards Macalé e seu violão, uma extensão de seu corpo, evidencia ecletismo, carisma, autonomia e originalidade. A obra de Fred Coelho põe de pé em definitivo a relevância de Macau à musica.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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