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As raízes pretas

Três documentários revisitam o início do movimento black e os bailes realizados nas periferias na década de 1970

Poder. Dom Filó é um dos personagens de Black Rio!! Black Power!!, de Emílio Domingos, retrato histórico dos bailes tornados célebres na zona sul do Rio – Imagem: Arquivo/Agência O Globo
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Em meados da década de 1960, Tim Maia procurou ­Eduardo Araújo, ídolo da Jovem Guarda, para mostrar algo que ele tinha conhecido nos Estados Unidos – uma tal de soul ­music. Do encontro e das trocas dele decorrentes nasceu o disco A Onda É ­Boogaloo (1969), que tem produção de Tim e é um dos marcos do gênero no Brasil.

Se comparado aos sucessos dançantes de Eduardo Araújo, como O Bom e Golpe do Baú, o álbum vendeu pouco. Ele foi, porém, o ponto de partida para um movimento que ganha, neste momento, uma revisita histórica: a música preta brasileira. A soul music, no Brasil, foi assimilada, deglutida e integrada a ponto de existir não apenas um soul/funk brasileiro como o funk carioca, o rap e o trap – todas variações das sementes plantadas nos anos 1970.

Histórias a respeito do gênero não faltam. E algumas delas estão contadas em três documentários lançados este ano: Black Rio!! Black Power!!, de Emílio Domingos, Chic Show, de Domingos e Felipe Giuntini, e Gerson King Combo – O Filme, de David Obadia.

Exceção feita a Black Rio!!, que ainda percorre o circuito de festivais e deve dar um rasante nas salas de cinema em 2024, os filmes estão disponíveis no streaming. Chic Show está no catálogo do Globoplay e Gerson King Combo – O Filme pode ser acessado na Music Box Play e na Itaú Cultural Play, gratuito.

Os bailes geravam a ira dos agentes da repressão e o gênero era criticado pelos sambistas apegados a uma certa ideia de nacionalismo

Os três filmes são complementares e retratam a tomada de consciência racial, política e social de jovens das periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo por meio dos bailes black. Mas a música em si é também, obviamente, um elemento central desses retratos. Até porque, no Brasil, a matriz estadunidense ganhou, na virada dos anos 1960 para os anos 1970, um andamento mais acelerado e frenético, que daria origem ao funk.

As letras incorporaram, porém, as lutas pelos direitos civis dos americanos e passaram a exaltar a beleza afro-americana. James Brown, o pai do funk, trocou o I Feel Good (Eu Me Sinto Bem) pelo Say It Loud, I’m Black and I’m Proud (Diga Bem Alto, Sou Negro e me Orgulho Disso). Os bailes do Rio e de São Paulo assimilaram esses discursos e também o cabelo black power, as coreografias e a roupa estilosa.

Embora tenham, em sua essência, a música negra, o Black Rio e a Chic Show atuaram em áreas diferentes. O primeiro foi gestado nos Bailes da Pesada, eventos que os lendários DJs Big Boy e Ademir Lemos promoviam na Zona Sul do Rio, onde combinavam canções de rock e soul music. Como o amálgama gerava confusão entre os fãs dos dois estilos, os apreciadores da black music criaram um baile com seu gênero predileto, num clube da periferia da cidade.

O Chic Show, por sua vez, nasceu como uma festa no centro paulistano que, depois, migrou para o salão da Sociedade Esportiva Palmeiras, clube da Zona Oeste de São Paulo frequentado pela classe média. No documentário, Luizão, criador da Chic Show, não esconde a emoção de ter ocupado um território restrito aos brancos.

A unir os bailes da Soul Grand Prix – origem do Movimento Black Rio – e da Chic Show está o fato de ambos terem alimentado uma cultura jovem marcada pelo gosto musical, mas também pelo desejo de criar uma marca própria, fosse através do figurino, com os sapatos plataforma e os penteados black power, fosse pela destreza nas pistas. “A gente passava um mês pensando no que ia vestir para ir aos bailes da Chic Show”, diz o rapper Mano Brown.

“Retratos. Chic Show, de Domingos e Felipe Giuntini, e Gerson King Combo – O Filme, de David Obadia, já estão disponíveis no streaming
– Imagem: David Obadia e Jorge Garcia”

Em ambos havia ainda os momentos da dança lenta, quando, encostados à parede, os jovens ficavam à espera de um convite para o bailado lento, agarradinho. Havia até gente que levava duas camisas: uma para se esbaldar aos sons de James Brown & Cia, outra embebida com água de colônia para agradar às mulheres.

Tudo isso não tardou, porém, a despertar a sanha dos órgãos da repressão da ditadura, que não viam com bons olhos a reunião de jovens negros. E é fato que Soul Grand Prix e Chic Show foram fundamentais para que os jovens afro-brasileiros passassem a tomar consciência de sua beleza e sonhar sonhos maiores que os subempregos aos quais a maioria parecia destinada.

Durante os bailes, os jovens, várias vezes, foram ameaçados, fichados e até agredidos. Dom Filó, criador da Soul Grand Prix, diz que era comum ver agentes da repressão infiltrados no meio do público. “Eles eram diferentes do resto das pessoas que iam curtir a música”, comenta.

Foram também os bailes da periferia do Rio de Janeiro que formaram o personagem do terceiro documentário, Gerson King Combo. Gerson Rodrigues Côrtes (1943-2020) era irmão de Getúlio Côrtes, autor de sucessos de Roberto Carlos – entre eles, a clássica Negro Gato. Gerson chegou, inclusive, a dançar no programa Jovem Guarda, mas foram suas coreografias dos Bailes da Pesada, de Big Boy e Ademir Lemos, que lhe renderam o epíteto de James Brown Brasileiro e chamaram atenção da indústria fonográfica.

O cantor foi contratado pela Philips para suprir a ausência de Tim Maia, que tinha migrado para outra companhia. Mas ele fez muito mais que isso. Gerson deu cara e personalidade ao movimento black, com vestimentas que se assemelhavam às de um soberano africano e/ou um astro do funk americano, gírias próprias da época e canções que exaltavam o estilo de som propagado nas festas.

A canção Mandamentos Black, de seu primeiro disco, traz uma mensagem que, ainda que direcionada aos agentes da repressão, até hoje soa forte: Brother!/ Assuma sua mente, brother!/ E chegue a uma poderosa conclusão/ De que os blacks não querem ofender a ninguém, brother!/ O que nós queremos é dançar!

E os ataques aos bailes black não vinham apenas do regime ditatorial. Havia uma corrente cultural, ligada a um certo ideal nacionalista, que via naqueles artistas e no ritmo uma importação de modismo americano. Black Rio!! recupera uma reportagem do Fantástico, na qual o sambista Candeia faz críticas aos bailes e um artigo de jornal que apregoa que os jovens dos bailes ignoravam brasileirices como feijoada e cachaça.

Martinho da Vila chegou a cantar, em Oi compadre: Quilombe e quilombo/ Meu compadre, / Mete o dedo na viola/ Já tem mente alienada.

Filó lembra, no entanto, que vários sambistas – Arlindo Cruz entre eles – eram frequentadores dos bailes cariocas. Em São Paulo, onde a patrulha não foi tão intensiva, os jovens que iam às festas do gênero foram os artífices do samba local, que carrega em si uma expressão do soul.

No Brasil, a soul music ganhou um ritmo mais acelerado, que originou o funk

A chegada da disco music, no fim dos anos 1970, é apontada por Filó como um marco importante do escasseamento dos bailes. A partir daí o funk foi também passando por um banho de loja, sendo assimilado pela plateia branca e de maior poder aquisitivo.

A Black Rio saiu de cena naquele período. A Chic Show manteve-se na ativa, mas muito por conta dos shows internacionais. A equipe trouxe para o Brasil não só James Brown, mas astros emergentes do rap como Koe Moe Dee e o grupo Whodini. Posteriormente, se tornaria um selo de discos. Gerson amargou o ostracismo e sua carreira se restringiu a aparições em bailes e homenagens de nomes emergentes do soul e do funk.

Black Rio!! Black Power!!, Chic Show e Gerson King Combo – O Filme são mais que o retrato de um período importante da música. São, como o disco de Eduardo Araújo produzido por Tim Maia, o ponto de partida para projetos ainda maiores.

Os próximos projetos de Domingos são documentários sobre a equipe de som Furacão 2000 e do soulman ­Hyldon, que formou a Santíssima Trindade do soul com Tim Maia e Cassiano. No último dia 30, data em que Gerson King Combo completaria 80 anos, foi lançado, nas plataformas de streaming, o single póstumo Tenho Fome, com participação dos rappers BNegão e Gog. Como o próprio Gerson diria, “eu te amo brother!” •

Publicado na edição n° 1289 de CartaCapital, em 13 de dezembro de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As raízes pretas’

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