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Velia Vidal: ‘Exercer nosso direito de ler é reivindicar nossa existência’

CartaCapital entrevista a escritora e ativista colombiana, que vem ao Brasil para lançar a edição brasileira do livro ‘Águas de Estuário’

'Águas de Estuário' reúne cartas de Velia Vidal para um amigo (Foto: Divulgação)
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Velia Vidal combina o ofício de escritora com o ativismo político-cultural. Fundadora do projeto Motete, que promove a alfabetização e o gosto pela leitura no departamento colombiano do Chocó, ela virá ao Brasil para participar da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, no dia 17 de agosto. 

Águas de Estuário (Jandaíra), reúne cartas da autora para um amigo. Nelas, somos apresentados à cidade natal de Velia Vidal, Bahía Solano, localizada no litoral do Pacífico, e podemos acompanhar sua dedicação à promoção da leitura junto à comunidade local. Entre o sal e o doce, entre a realidade e a ficção, a obra mistura traços da subjetividade de Vidal com suas percepções sociais, conduzindo-nos a uma jornada de retorno às raízes e de descobertas sobre o prazer e a necessidade de exercer o direito de imaginar. 

Confira a seguir.

CartaCapital: Para o público brasileiro que ainda não te conhece, quem é Velia Vidal?

Velia Vidal: Bem, eu sou uma mulher afro-colombiana, muito interessada na cultura, em todos os processos de reivindicação das lutas do povo afro na América Latina, que sofreu e continua sofrendo muito racismo.

Sou uma mulher interessada na promoção da leitura, no exercício do direito à cultura, que, historicamente, tem sido negado às minorias afro-indígenas em toda a nossa região.

O lugar onde nasci – o Chocó, uma região geográfica muito importante e especial da Colômbia – me define e define meu compromisso, diria, praticamente missionário, com o exercício do direito à cultura, à leitura – que, para mim, nada mais é do que o direito de imaginar. Se não imaginamos, não podemos mudar nossas condições. Essa sou eu. 

A arte é o caminho mais curto para o desenvolvimento do pensamento crítico

CC: Em um mundo onde tudo parece ter uma função muito bem definida, o que a arte pode ser? 

VV: A arte, para mim, tem uma função política, porque tem uma função que está ancorada na alma, no olhar, na perspectiva de cada cidadão. A arte nos permite ampliar o olhar, nos permite ver mais além, nos permite fazer-nos perguntas. Para mim, a essência da arte é o pensamento crítico, que te questiona, que te traz perguntas, que te traz inquietações.

Quando a arte te coloca perguntas, quando te leva a expressar suas inquietações, está te aproximando de um exercício político de cidadania ativa. Então, é fundamental. Não há exercício cidadão, não há participação política, sem questionamento. Temos que questionar, temos que ter pensamento crítico. E a arte é o caminho mais curto para o desenvolvimento do pensamento crítico. 

CC: Qual a importância, para as mulheres, e, mais especificamente, para as mulheres negras, da presença de Velia Vidal entre as 100 mulheres mais inspiradoras do mundo em 2022, segundo a BBC

VV: Isso, a princípio, para mim, foi como uma grande novidade. Mas, depois de pensar muito, entendi, aceitei e recebi, com muito amor e muita gratidão, a ideia de que é relevante, é importante. Porque a maior influência, no meu trabalho, não é uma influência, digamos, burocrática. 

A influência do meu trabalho é relevante porque põe em debate questões que não foram debatidas por quase dois séculos; questões que interessam às mulheres negras. Historicamente, não são questões que interessam à humanidade em geral, ao centro do país, no caso, da Colômbia. Então, minha influência é relevante, é potente; de um lado, pelas famílias com quem trabalhamos diretamente, e por outro, porque está colocando à sociedade colombiana questões que durante séculos foram ignoradas. 

Portanto, sinto que o que esse reconhecimento da BBC diz a nós, mulheres negras da América Latina, é: esse é o caminho. O caminho de incidir, o caminho de trabalhar com nossas comunidades. E, consequentemente, isso sem dúvida acaba sendo uma inspiração, eu acho, para outros e outras que queiram fazer. Felizmente, é uma inspiração não só para as mulheres negras, não só para a população racializada. 

CC: Águas de Estuário chega ao Brasil por meio da editora Jandaíra e conta com texto de apresentação da filósofa Djamila Ribeiro. Qual a importância dessa parceria?

VV: Quando li Lugar de Fala, foi como se Djamila estivesse falando diretamente a mim. Foi como uma conversa íntima. Sinto que é um livro que deve ser lido por todas as mulheres negras. quando nos conhecemos, em Cartagena, a conexão também foi absoluta, porque encontramos muitos elementos em comum. Na ocasião, presenteei Djamila com Águas de Estuário, e ela, imediatamente, me disse que achava que o livro deveria ser difundido e publicado no Brasil. Isso, para mim, foi extraordinário. Não esperava.  

Sinto que as mulheres negras no Brasil e as mulheres negras na Colômbia têm uma história em comum. Brasil e Colômbia têm uma história comum, não só do povo afro, mas, também, do povo mestiço. Muitas coisas que acontecem no Brasil deveriam servir de lição para a Colômbia, e vice-versa. 

Nossas sociedades foram estruturadas por meio do racismo. Temos em nossas sociedades o racismo estrutural. As formas colonialistas fragmentaram a América Latina. Não deveríamos ser tão fragmentados. Mas as relações comerciais, as relações coloniais, nos fragmentaram. Então, para mim, tem a ver com uma reconexão daquilo que naturalmente tem um fluxo que nunca deveria ter sido cortado.

O que não está escrito, não existe. Então, se o povo afro estava reduzido ao oral, não existia. Percebe o jogo perverso?

CC: Como foi o processo de escrita e de publicação de Águas de Estuário? São cartas, que parecem transitar na fronteira entre ficção e não-ficção. 

VV: Isso, para mim, é encantador. Não importa se é real. Claro, sei que são reais e as conto sem nenhum problema, mas amo a possibilidade de que sejam recriadas pelos leitores; que decidam se estou falando com eles ou se estou falando com outra pessoa; se se sentem navegando por correspondências alheias ou endereçadas a cada um. 

Eu tinha essas cartas, trocadas com uma pessoa, e numa conversa com alguns editores, me disseram que dali poderia surgir um livro, por tudo o que conta: pela minha relação com a escrita, pela minha relação comigo mesma, pelo exercício de voltar à minha terra, Quibdó (capital do departamento do Chocó), pelo exercício de desnudar-me. 

Depois, veio o processo de transformá-lo em livro, porque ter uma soma de cartas não é ter um livro. Por um lado, tínhamos de selecionar as cartas que realmente correspondiam ao que queríamos contar, mas, também, tínhamos que completar as informações, as ideias. 

Quando se escreve na intimidade, não necessariamente se diz tudo, porque há coisas que estão no terreno do não dito; há coisas que são tácitas, e que o correspondente entende sem que seja necessário explicar. Mas, para um livro, é preciso que os leitores entendam todas as informações. Então, por isso, era fundamental completar o que estivesse faltando. A escrita foi baseada nisso. 

CC: No Brasil, como na Colômbia, sofremos com o analfabetismo. O trabalho que você desenvolve incide exatamente sobre essa questão. Qual a importância desse tipo de iniciativa?

VV: O racismo, historicamente, nos excluiu do processo de alfabetização, nos afastou da intelectualidade. O paradigma do homem letrado é o paradigma do homem branco. Portanto, era estratégico que os escravizados não tivessem acesso à escola.

Nossas comunidades apresentam os maiores índices de analfabetismo e os maiores índices de falta de acesso ao letramento e à literatura. São as últimas a ter bibliotecas públicas, quando as tem. nossas famílias, em sua maioria carentes, não têm recursos para comprar livros. A gente fica com a herança de todo esse processo de exclusão, reduzidos ao oral.

O oral tem muito valor, não quero que percamos isso, mas também temos o direito de exercer o direito à escrita e à leitura. E o que eles nos ensinaram é isso: o que não está escrito, não existe. Então, se o povo afro estava reduzido ao oral, e não ao escrito, não existia. Percebe o jogo perverso?

Por isso, os processos de incentivo à leitura são fundamentais em lugares como a América Latina, como o Brasil, como a Colômbia e, em particular, nas comunidades que têm esse histórico de exclusão. Exercer nosso direito de ler, exercer nosso direito de ser alfabetizado, de fazer literatura, é reivindicar nossa existência. Poder escrever para nós mesmos, poder nos afirmar, a partir da escrita, é fundamental. 

CC: O projeto continua a todo vapor?

VV – Continua! E cada vez maior! Neste momento, trabalhamos com aproximadamente duas mil famílias. Desde 2018, crescemos muito. Agora estamos nas escolas, continuamos trabalhando com os professores. Nosso festival de leitura e escrita no Chocó já está em sua 6ª edição, com uma força muito grande no país e com o reconhecimento, inclusive, internacional. Continuamos crescendo, estendendo-nos a outros territórios marginalizados. Na Colômbia, o objetivo agora é aprofundar nossas raízes nos locais onde já atuamos. Com minha ida ao Brasil, esperamos trocar experiências, interagir com projetos como o de Bel Santos Mayer, em Parelheiros, bairro de São Paulo, entre outros. Que essa interação com outros projetos no Brasil também seja muito valiosa para nós.

CC: Qual a expectativa em relação à Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto?

VV: O Brasil sempre me desperta curiosidade. E sempre dizemos – mais como uma piada – que tudo no Brasil “é o maior do mundo” (risos). E eu penso: “será que a Feira de Ribeirão Preto é a maior feira literária do mundo?” (risos), e penso que, talvez, vá me sentir pequena. Mas, enfim, falo dessa piada para dizer que tenho uma grande expectativa. 

Me dói um pouco que, quando fui ao Brasil, durante as Olimpíadas do Rio, em muitos lugares, a maioria não era afro. Isso dói porque às vezes não estamos nesses espaços. Mas quero me conectar com as mulheres afro do Brasil. O que o colonialismo fez foi negar-nos o exercício dos direitos. Então, reivindicar essa América afro-latino-americana, essa América Latina afro, é ter compromisso com essa questão, para que possamos ser o que somos, ligados às nossas raízes, com nossa cultura, e entendendo isso não a partir de estereótipos. 

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