Lutar por #LulaLivre é fundamental para a democracia do país

Lula continua e continuará sendo a maior liderança popular que o Brasil conseguiu gestar até o momento

Foto: Ricardo Stuckert

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O dia 07 de abril de 2018 ficou registrado em nossa história por marcar a prisão de Lula. Pela segunda vez em sua biografia, o torneiro mecânico enfrentava o arbítrio do encarceramento. Segue até hoje privado de liberdade em Curitiba com o consentimento do Supremo Tribunal Federal, mesmo diante do escandaloso vazamento de mensagens da Lava Jato conduzido pelo The Intercept BR e sob olhares distantes de uma esquerda gourmet que, como muitos setores da direita, apostam no fim do PT como tábua salvação da nação.

A turma do “temos que superar o Lula”, “o PT tem que esquecer o Lula Livre”, “a culpa do Bolsonaro estar eleito é do PT!” e demais variações fartamente disponíveis em podcasts, blogues e canais progressistas da moda desconhecem ou ignoram uma pequena grande coisa chamada luta de classes. 

Diferente do que querem estes setores descolados, no chão da fábrica, em baixo da lona preta e nas veredas de um país que volta ao mapa da fome, a toada é outra.

É desse ponto que parte meu argumento em defesa do Lula Livre como vetor da resistência progressista nessa conjuntura tão desafiadora. Essa visão não é produto de uma crença messiânica no homem Luís Inácio ou da ausência da autocrítica petista. Pelo contrário, sou daquelas que concorda que nossos erros facilitaram imensamente o trabalho das elites em engendrar o Golpe de 16, sabotar as eleições de 18 e levar a cabo o projeto econômico de seu interesse em 19.

Contudo, a centralidade da defesa da liberdade do ex-presidente é crucial para determinar que rumos tomaremos nos próximos períodos. Entender isto é elementar. Como o barbudo alemão falava, não escolhemos as condições em que lutamos contra o Capital, temos a disposição os instrumentos que a muito suor foram forjados pela classe trabalhadora, que não são, nem serão, perfeitos. Fenômeno que o filósofo francês Daniel Bensaid, no livro Marx, Manual de Instruções, explica como sendo algo

“longe dos contos edificantes e das lendas moralizantes, a história terá, uma vez mais, passado pelo lado errado. […] Por isso, a história deve ser pensada politicamente, e a política, historicamente”.

Queiram ou não queiram os juízes, o Lula que tantos amam odiar continua sendo a liderança popular de maior envergadura de nosso país. É santo? Não. Muito menos demônio, como quer nos fazer pensar a disputa ideológica dicotômica-cristã que conseguiu cativar inclusive as mentes mais progressistas.

Longe de agradar a todos, a campanha pelo Lula Livre continua sendo a plataforma que unifica a ampla maioria dos setores combativos da esquerda nacional. Os Movimentos sociais, Centrais sindicais e os Partidos de esquerda de maior peso apostam nessa bandeira não por serem encantados pelas covinhas lindas do ex-presidente, mas por compreenderem que é sob essa liderança que conseguiremos defender a classe trabalhadora brasileira em nosso tempo.

Parece absolutamente ridículo falar isto em se tratando de um ex-presidente que, ainda do cárcere, continua a reivindicar que “os bancos nunca lucraram tanto quanto em meu governo”. Mas só parece mesmo.

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O sentimento do antipetismo, alimentado pelas mesmas mãos caridosas que afagaram os egos de Moro e aplaudiram o lavajatismo, tem como impulsionador a hegemonia de um Capitalismo financeiro que não tem fronteiras nem paralelo histórico.

O PT, os governos petistas e Lula são resultados de um processo político e histórico que se deu em meio a uma disputa que nos constitui como humanidade, qual seja, a luta dos de baixo contra os de cima. A reemergência das extremas-direitas e da necessidade de ressuscitar o “inimigo vermelho” em meio ao absolutismo Capitalista mostra que o buraco é bem mais embaixo.

Lula é o elefante que incomoda muita gente por vários motivos. Permanece assombrando os sonhos das elites por ser o elo aglutinador da resistência das classes trabalhadoras brasileiras ao mesmo tempo em que não é o líder revolucionário que parte da esquerda idealiza. Aborrece por ser grande, desajeitado. Não é o bichinho bonitinho, dócil que vem da PetShop tosado de acordo com o desejo de seus donos. 

Sem esse elemento, sem esse sujeito histórico – que gostaria eu, uma socialista inveterada, que partilhasse de minhas compreensões sobre o marxismo, feminismo, dos erros do PT e outras coisinhas a mais – nossa resistência como classe trabalhadora ficaria abaixo de zero. Lideranças como o filho de Dona Lindu não podem ser fabricadas da noite para o dia. São resultantes históricas. 

Lula continua e continuará sendo a maior liderança popular que o Brasil conseguiu gestar até o momento. A luta de classes permanecerá sendo marcada de contradições e imperfeições, e, como diz a sabedoria dos memes – temos que lidar com elas. 

A campanha do Lula Livre é fundamental na disputa pela democracia no Brasil. Ignorar isso ou colocar essa plataforma como mero detalhe é de uma miopia preocupante.

Pergunto-me sempre qual é a alternativa que essa esquerda gourmet apresenta. Quem é a liderança popular que conseguirá continuar a fazer frente ao que Bolsonaro constitui?

Ou já esqueceram essas senhoras e senhores que era Luís Inácio o líder nas pesquisas de intenção eleitoral, conferindo ao pernambucano um quase certo terceiro mandato?

O PT e os governos Lula-Dilma cometeram equívocos imperdoáveis em nome do que estes mesmos setores progressistas reivindicam mais e mais: republicanismo. Nem os teóricos liberais mais consagrados achavam que esta fórmula funcionaria. Pois ela não funciona. O que move a imprensa, poderes instituídos e até aquele Conselho tutelar de seu bairro, é a política. E quem movimenta a política é a luta de classes. Permanente e irresistível. 

Elefantes nunca foram os melhores métodos de transporte ou animais de batalha – persas e indianos que o digam –, mas continuam sendo fabulosos pela potência que carregam. Nosso chão não é limpinho, é abarrotado de sangue, de merda, de fome, de corpos. É impossível mudar essa barbárie sem sujar as mãos. 

O que não significa, obviamente, fechar os olhos para a corrupção como fenômeno do Capitalismo, para a catástrofe ambiental como efluente desse mesmo modo de produção e para o racismo e o patriarcado estruturais como elementos de corte de apropriação da força de trabalho. A prisão de Lula representa a anuência com todos estes elementos, e consolida a vitória da necropolítica que, como o jurista Sílvio Almeida (2018) explica, se realiza como um “espaço onde a norma jurídica não alcança, onde o direito estatal é incapaz de domesticar o direito de matar”. 

A política adotada por Bolsonaro e seu governo é orquestrada pela batuta da morte. Da total negligência com os que passam fome, da radicalização de uma política de drogas racista, da negação do feminicídio como característica nacional. O anteparo a esse projeto, passa necessariamente pela libertação do ex-presidente. 

Não é através de um governo, da democracia representativa burguesa que a revolução cairá mansa sobre nossos colos. Todavia, sem esses instrumentos, tampouco, acumularemos forças para derrotar nossos inimigos. Recorrendo uma vez mais ao pensamento de Bensaid (2013), é necessário reafirmar que: 

“Ao contrário do milagre religioso, surgido do nada, ou da pura vontade divina, as revoluções têm sua razão. Mas aparecem onde e quando menos se espera. Necessariamente intempestivas, jamais pontuais, administram o efeito surpresa, com o risco de apanhar desprevenidos seus próprios autores e dar-lhes um papel inadequado”.

A liberdade de Lula e a luta para sua obtenção mobilizou milhares de atos em todo o país, organizou as parcas forças populares que dispomos e continua sendo esse foco de unidade, tão difícil entre nós e extremamente fácil para nossos inimigos. Como diz o conjunto Calle 13, na canção Lationoamerica, somos um povo sem pernas, mas que caminha. E nessa caminhada dura, difícil e nada prazerosa, precisamos usar o que for necessário para sobreviver, sem ilusões nem desesperanças que um dia a revolução virá.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Advogada, professora do curso de Direito da UEG, doutoranda no programa de Direitos Humanos da UNB, coordenadora do Grupo de Estudos em Direitos humanos, marxismo e democracia (GEDEM) e militante do Partido dos Trabalhadores.

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