Dilemas sobre a volta às aulas na pandemia

Argumentos prós e contras a volta às aulas colidem em um momento decisivo do sistema educacional brasileiro

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

CartaCapital

Dentre as decisões neste início de ano, o retorno as aulas presenciais é uma delas. Um grupo defende a volta com argumentos que vão desde o prejuízo causado ao rendimento escolar, comprometimento nas relações entre estudantes e professores, saúde mental e o aumento das desigualdades.

É imperioso reconhecer que a pandemia mostrou que a morte pela doença tem cor, raça, gênero, etnia e classe social.  A vida precarizada e outras iniquidades existentes adubaram a terra para que o vírus encontrasse um solo fértil e a doença violentasse mais negros, mulheres, indígenas e pobres. Foi revelado ao mundo que os marcadores de gênero, classe e raça se apresentam enquanto condição vulnerabilizadora à exposição da COVID-19, conforme publicado em Ciência e Saúde Coletiva em maio de 2020.

Nesse sentido pessoas trabalhadoras entram em transportes públicos lotados e não conheceram o isolamento desde o princípio da doença, ou seja, estão expostas cotidianamente ao vírus. Além disso, destaca-se a falta de opções dentro de casa para seus filhos e filhas, alvos da ação do Estado em relação à precarização da oferta de ensino desses jovens. A volta à escola devolveria um pouco de equilíbrio e o seguimento da vida para muitas famílias.

Em contrapartida, há também os que argumentam que o retorno colocará em risco a saúde, a vida dos profissionais e da comunidade. Destacam que muitas unidades não possuem as condições necessárias de acordo com os protocolos exigidos, em decorrência das desigualdades.

O argumento é localizado em um país que ultrapassou as duas centenas de milhares de mortos e está sob a égide de um governo considerado como um dos piores do mundo no tratamento à pandemia. A volta às aulas poderá seguramente causar um aumento de casos.

 

 

 

Pelos protocolos de segurança, exige-se que haja distanciamento de um metro e meio, higienização, equipamentos de saúde, dinâmica cuja sua implementação não foi bem sucedida aos adultos, o que dirá então aos jovens e crianças. Essa situação se soma ao já sobrecarregado trabalho da pessoa profissional de sala de aula, tornando os debates em torno disso ilusórios, para dizer o mínimo.

Diante da profusão de argumentos prós e contras, o Movimento Escolas Abertas criou estratégias coletivas e entrou com ações na justiça. Entretanto, é necessário dizer que o movimento representa responsáveis por jovens encastelados em escolas com mensalidades muito acima do salário recebido pela maioria dos brasileiros.

Estamos diante de dilema causado por uma crise sem precedentes, que aprofundou as desigualdades já existentes e também da certeza, que mais cedo ou mais tarde, as pessoas adentrarão novamente os portões das escolas e universidades. Compartilharão o mesmo espaço corações e mentes devastadas pela pandemia e adoecidas emocionalmente, pois todos de alguma forma, foram afetados.

Se há um consenso entre as partes é que vivemos em um país de extrema desigualdade social. Afinal, esse foi o argumento utilizado tanto por defensores do retorno, quanto por opositores. Sendo assim, a ética exigirá que ambos se posicionem construindo pontes para a erradicação dessa situação, criando alianças ao redor de uma agenda comum, que inclua a proteção e reparação dos mais vulneráveis. O que se diz, precisa estar conectado com o que se faz. É sobre ética, estética e coerência que escrevo.

Não sabemos exatamente quando o retorno as aulas presenciais ocorrerão na totalidade contudo, existe de minha parte, a certeza que os educadores ouvirão muitas histórias de abandono, violência e tristeza. Esses relatos precisarão ser incorporados nas ações pedagógicas e também nas decisões que envolvem as implementações de políticas públicas deste país.

Espero que ambos os grupos se comprometam com a melhoria das condições de vida dos grupos mais vulneráveis. Não se trata apenas de quando vão reabrir os portões das escolas e sim, do que foi e do que será feito dentro e fora delas, diante do imenso abismo social no país.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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