O Brasil é de Marielle, não de Bolsonaro

Mural em homenagem a Marielle Franco (Foto: ABr)

Mural em homenagem a Marielle Franco (Foto: ABr)

Justiça,Opinião,Sororidade em Pauta

O discurso de Jair Bolsonaro na tarde do dia 24 de abril pode ser examinado sob vários aspectos. O pronunciamento foi feito em razão de denúncias do ex-ministro Sérgio Moro, de que o Presidente tentou interferir em inquéritos que podem afetar membros de sua família, pretendeu ter ingerência direta sobre o diretor da Polícia Federal para “fazer política” e publicou um Decreto com sua assinatura sem que o tivesse assinado. 

Em seu pronunciamento oficial, o Presidente negou tenha tentado interferir nos inquéritos, mas nada disse sobre a tal assinatura supostamente falsificada ou sobre a pensão que Moro afirmou haver solicitado como moeda de troca para assumir o ministério. Em lugar disso, falou por cerca de 40 minutos sobre variados assuntos, referiu o dia em que conheceu pessoalmente Sérgio Moro, disse que mandou “desligar o aquecedor da piscina olímpica do Palácio do Planalto”, que possui “três cartões corporativos”, entre tantas outras afirmações absolutamente desconectadas do assunto que motivou o pronunciamento. 

Vários aspectos de sua fala podem ser, portanto, ressaltados. Desde a falta de aderência com o tema da coletiva, pela postura “coitadista” diante das graves denúncias de Sérgio Moro ou pelo silêncio sobre o que realmente interessava, até o desprezo pelo filho, chamado de “Zero 4” e cuja idade o Presidente não soube sequer precisar.

Evidentemente, o que resta de mais assustador é o comportamento distópico, que parece flutuar para além da realidade concreta e que aposta uma vez mais no desvio de discurso como modo de manter seu cambaleante governo em pé.

Queremos, porém, ressaltar um aspecto da fala presidencial que talvez não mereça a devida atenção, diante da circunstância objetiva da troca de acusações entre Sérgio Moro e Bolsonaro. 

O caráter absurdamente misógino do discurso, emblematicamente representado por sua preocupação em referir-se, mais de uma vez, a Marielle Franco. 

Jair Bolsonaro apresentou-se ao lado de seus ministros: todos homens brancos, com exceção apenas de duas mulheres: a ministra Tereza Cristina e a ministra Damares, para quem o número elevado de estupros de meninas na Ilha do Marajó é causado pela falta de calcinhas. A estética branca e masculina muito diz sobre a ética daquele que preside atualmente o nosso país.

Bolsonaro e equipe de governo após pronunciamento em resposta as falas do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro (Foto: Evarsito Sá/AFP).

Logo nos primeiros minutos do discurso, questiona o presidente: “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”. Palavras cautelosamente escolhidas, em evidente referência à pergunta feita por todos nós há mais de dois anos. Desde aquele 14 de março, em que a vereadora do PSOL Marielle Franco foi brutalmente assassinada no centro do Rio de Janeiro, por causas até hoje pouco esclarecidas.

Jair Bolsonaro conta como pediu, quase implorou, para que Moro apurasse quem foi o mandante da sua tentativa de assassinato, ressentindo-se que “a Polícia Federal de Sérgio Moro mais se preocupou com Marielle do que com o seu chefe supremo”. Na sua visão, a sua vida, a vida de um homem branco, tem maior valor do que a vida de uma mulher negra, lésbica e de periferia. E o chefe da Polícia Federal que não compartilhasse dessa visão – e assim dirigisse a atuação de toda uma instituição – não poderia permanecer no cargo. A falta de noção dos limites de ética e de probidade resume-se na frase: “Por que eu não posso trocar o diretor da Polícia Federal?”.

Pelos termos do pronunciamento, percebe-se que o caso Marielle assume importância apenas quando as linhas de investigação se aproximam de sua própria família. Conta como seu filho Eduardo foi na portaria do seu condomínio “filmar a secretária eletrônica” para infirmar as declarações do porteiro de que foi Jair Bolsonaro quem autorizou a entrada de Élcio de Queiroz, um dos investigados pela morte de Marielle e Anderson; ou como interpelou seu filho Renan sobre o possível namoro com a filha de Ronnie Lessa, o outro investigado e vizinho de Jair Bolsonaro.

 

A falta de interesse em entender o motivo do crime mostra que a vida de Marielle, para ele e o sistema que representa, é tão descartável quanto a de “mais da metade das mulheres do condomínio” com quem afirma que seu filho Renan saiu. A afirmação de que um homem pode “colecionar” mulheres, sem precisar sequer saber seus nomes, é repugnante. Revela uma cultura misógina que reduz o corpo feminino a espaço a ser conquistado e desfrutado pelos homens. Cultura essa aparentemente compartilhada entre as gerações da família, ao menos pelos filhos homens que não foram resultado de uma “fraquejada”.

É o machismo e o racismo que conectam elementos aparentemente sem qualquer relação em sua fala.

Da tribuna, o presidente garante que teria casado com Michele, mesmo sabendo do passado de sua avó – presa por tráfico de drogas – ou de sua mãe – condenada por falsidade ideológica por, nas palavras de Bolsonaro, “fazer uma cirurgia na sua certidão de nascimento, diminuindo dez anos a sua idade”, “em vez de fazer uma cirurgia plástica para ficar mais jovem, mais bonita”. Certamente sua sogra não teria a mesma benevolência nas justificativas se fosse negra. Certamente Michelle não teria a mesma “sorte” se fosse velha, feia ou gorda – como a mulher que Bolsonaro, no mesmo discurso, menciona ter assim adjetivado. 

Não surpreende que Bolsonaro diga abertamente na entrevista que a sua vida, como Presidente da República, vale mais do que a vida de Marielle. Se existe algo que une ele e a bancada de homens brancos que o apoiam é a dificuldade de entender quem foi Marielle. A vereadora carioca que, no mesmo corpo, carregava as vozes de mães solo, mulheres negras, pessoas de periferia, bissexuais. Vozes silenciadas por uma estrutura de poder pautada pela branquitude e pela masculinidade. Por pessoas que fazem uso das instituições para manter e perpetuar as desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira. E que tornam corpos como o de Marielle corpos fora do lugar quando adentram na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, ao contrário de seu colega Flávio Bolsonaro, cuja família ali permanece por gerações. 

Não conseguem entender sequer a gravidade de tais afirmações em um país que conta com números recordes de violência de gênero e em um momento no qual as denúncias de violência doméstica aumentaram 44,9% em razão do isolamento físico. Essa fala é um convite ao desrespeito. 

Até hoje não houve apuração sobre quem matou Marielle e Bolsonaro sabe disso. Invocar o nome dessa mulher negra, que tombou na luta contra a desigualdade e o milicianismo no Brasil, para exaltar a importância da própria vida, enquanto o país enfrenta uma pandemia que já atingiu, segundo números oficiais que não refletem integralmente a realidade, mais de 53.000 e vitimou mais de 3.700 pessoas, é desumano, além de machista e racista. Prova, aliás, como o machismo e o racismo tornam o exercício de alteridade impossível, ao não enxergar o outro como um ser humano.

A vida do Presidente não vale mais do que as vidas das pessoas mortas em razão de uma gestão pública de descaso para com uma doença da gravidade da COVID-19, sobre o qual, aliás, o discurso de hoje não dedicou sequer uma palavra. Certamente, sua vida também não vale mais do que a vida de Marielle Franco, assassinada covardemente no dia 14 de março de 2018.

Já sabíamos que Bolsonaro é machista. Ele já disse a deputada Maria do Rosário que ela “não merecia” ser estuprada, a empurrou e a chamou de vagabunda, dentro do salão verde da Câmara dos Deputados. Na sessão que decidiu sobre o impedimento da Presidenta Dilma, Bolsonaro também invocou a lembrança de Ustra, que qualificou como “o pavor de Dilma Roussef”, atingindo-a, portanto, não em sua condição de Presidenta, mas de mulher. Uma mulher que foi presa e torturada quando tinha pouco mais de vinte anos de idade.

Créditos: Gibran Mendes/Fotos Públicas

Créditos: Gibran Mendes/Fotos Públicas

Já sabíamos também que Bolsonaro é racista. Como esquecer do discurso na Hebraica do Rio de Janeiro, onde se referiu a quilombolas por arrobas, animalizando-os, e, ainda, dizendo que nada faziam e os associando ao atraso, síntese do pensamento colonial de extermínio? Como esquecer que ele afirmou que não concederia um centímetro sequer de reconhecimento de terras dos povos indígenas?

Podíamos seguir aqui enunciando todas as manifestações misóginas e racistas do Presidente, mas queremos mesmo ressaltar que são opressões estruturais e estruturantes de nossas relações sociais a ponto de o Presidente da República, em meio a maior crise política que já enfrentou em seu governo, preocupar-se em rechear sua fala com violência verbal contra as mulheres.

O ódio que revela em relação à Marielle, cuja vida já foi sacrificada, faz de Bolsonaro não é apenas um presidente incompetente, irresponsável e antidemocrático, mas também um presidente machista e racista, que representa tudo aquilo contra o que os movimentos feministas vêm lutando. 

Para desespero dos homens brancos e de seus/suas apoiadore/as, contudo, lembramos que Marielle Franco permanece viva. Marielle é maior que Bolsonaro. Segue viva e pulsando, dentro de cada um e cada uma de nós, que acredita em um outro mundo, mais justo e igualitário, livre de opressões, no qual as decisões políticas sejam tomadas reconhecendo valor na vida de cada um dos seres humanos!

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Juíza do Trabalho da 4ª Região. Apaixonada por livros, música e poesia, acredita realmente que pequenas iniciativas podem tornar o mundo um lugar melhor. Integra a comissão de Direitos Humanos da ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho). É diretora de assuntos de cidadania da AMATRA 4 (Associação dos Magistrados da 4ª Região) e integra a AJD (Associação Juízes para a Democracia). Escreve na coluna Sororidade em Pauta.

É Presidenta da AJD - Associação Juízes para a Democracia. Diretora e Professora da FEMARGS – Fundação Escola da Magistratura do Trabalho do RS; Doutora em Direito do Trabalho pela USP/SP e Juíza do Trabalho.

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