A atualidade e a urgência de Lélia Gonzalez em 2020

Homenageada essa semana no Google, Lélia González é uma das mais importantes pensadoras brasileira de todos os tempos

A atualidade e a urgência de Lélia Gonzalez em 2020

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No dia 1º de fevereiro, a Google homenageou com um Doodle em sua página inicial o 85º aniversário de Lélia Gonzalez, antropóloga e ativista negra brasileira. A Casa da ONU no Brasil leva o nome de Lélia Gonzalez desde 2015. Por que ela é tão importante a ponto de ser reconhecida internacionalmente? Pretendo neste texto trazer um breve panorama sobre a produção acadêmica e a militância de Lélia, marcadas pela experiência de ser mulher negra, oriunda da classe baixa. Sua vida é retratada na biografia escrita por Alex Ratts e Flavia Rios[1], fonte principal dos dados biográficos a seguir. Os textos de Lélia Gonzalez foram consultados no livro publicado pela União dos Coletivos Pan-Africanistas[2], um primoroso trabalho de pesquisa.

Nascida Lélia de Almeida em 1935 em Belo Horizonte/MG, penúltima filha de uma família com 18 filhos, de pai negro e ferroviário e mãe indígena e empregada doméstica. Em 1942 a família mudou-se para o Rio de Janeiro, pois o irmão Jaime de Almeida começou a jogar futebol no Flamengo. Em razão da ascensão social e acadêmica, de um lado, Lélia Gonzalez desafiou o “lugar de negro” – o lugar social estabelecido com base na hierarquização por sexo e raça –, o que lhe reservou experiências como ser confundida com a empregada doméstica em sua própria casa, quando lhe perguntavam: “a patroa está?”. De outro lado, levou-a também à experiência do “embranquecimento”, inclusive com um casamento inter-racial, que lhe marcou profundamente com preconceito e discriminação por parte da família do esposo, que se suicidou pouco tempo depois. Lélia manteve o sobrenome Gonzalez em homenagem ao marido e esta experiência a “enegreceu” e a impeliu a entrar na luta política contra o racismo.

Intelectual Lélia Gonzalez, um dos principais nomes do movimento negro brasileiro. (Foto: Reprodução)

Para superar a dor da perda, Lélia Gonzalez se valeu da psicanálise e do candomblé, cujos elementos aparecem em seus textos. Foi fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN) e do Colégio Freudiano no Rio de Janeiro, enquanto graduou-se em comunicação no nível de mestrado e iniciou o doutorado em antropologia. A produção acadêmica de Lélia Gonzalez iniciou-se na década de 1970 com a análise da formação do capitalismo brasileiro com recorte racial, com influência marxista.

Lélia Gonzalez participou ativamente do movimento negro, sendo fundadora, por exemplo, do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978. Lá dentro, Lélia Gonzalez registrou as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras a partir de sua própria história pessoal, em tom intimista e informal de escrita que a caracterizou em grande parte de seus trabalhos (o “pretuguês”). Segundo ela, homens negros não entendiam a necessidade de discutir nem reconheciam a dominação masculina sobre as mulheres, acusando as feministas de divisionistas.

No interior do movimento feminista hegemônico, Lélia Gonzalez percebeu que não se problematizava que a emancipação econômica e social das mulheres brancas foi à custa da exploração das mulheres negras no trabalho doméstico, mal pago e sem direitos trabalhistas ou previdenciários nem se correlacionava a condição social de exploração do trabalho doméstico e a exploração sexual da mulher negra. Ao falar sobre isso, Lélia Gonzalez foi acusada pelas feministas brancas de revanchismo e de ter um discurso emocional.

As experiências em ambos movimentos contribuíram para que ela participasse da criação do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga, pois “ser mulher e negra (ou negra e mulher?) implica em ser objeto de um duplo efeito de desigualdade muito bem articulado e manipulado pelo sistema que aí está”.

Para Lélia Gonzalez, no Brasil vigorava o racismo por denegação, ou seja, o racismo cuja existência é negada, embora seja uma realidade. Além disso, o mito da democracia racial era um dos mais eficazes mitos de dominação, porque impedia a consciência objetiva do racismo e o reconhecimento de suas práticas cruéis, já que a crença historicamente construída sobre a miscigenação voluntária criou o mito da inexistência do racismo em nosso país.

 

 

Lélia Gonzalez teve papel importante na academia brasileira e talvez tenha sido a militante negra que mais participou de seminários e congressos fora do Brasil até a metade dos anos 1980. Esta vivência lhe permitiu conhecer a diáspora africana na perspectiva de vários países, resultando na categoria amefricanidade elaborada para refutar a latinidade das Américas (a suposta cultura “latina” nas Américas).

Ela percebeu que as experiências comuns dos negros nas Américas – uma história de sofrimento, humilhação, exploração, etnocídio – formaram identidades culturais e étnicas com raízes africanas, porém, historicamente transformadas com a própria diáspora africana e a colonização. Não somos latinos, pois a latinidade estaria contida, sobretudo, na longa e violenta dominação dos colonizadores, que ainda tenta encobrir a influência dos elementos ameríndios e amefricanos. Somos amefricanos, pois a amefricanidade está presente na cultura brasileira expressada cotidianamente nas falas, nos gestos, nas maneiras de ser, na culinária, na musicalidade. Enquanto a amefricanidade é uma forma de resistência física, psíquica e cultural, o racismo por denegação é o sintoma  da “neurose cultural” da classe dominante da Améfrica Ladina (e não América Latina), que tenta apagar a memória.

No plano institucional, ela integrou ainda o Conselho Nacional de Direitos da Mulher (CNDM) de 1985 a 1989, atuando nas áreas: trabalho, comunicação, educação, sexualidade, mulher negra e violência. Embora não tenha conseguido se eleger deputada federal, Lélia Gonzalez participou ativamente como expositora na Constituinte, de acordo com seu compromisso com um projeto de transformação social.

“Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo, trazemos conosco a marca da libertação de todos e todas. Portanto, nosso lema deve ser: organização já”, Lélia Gonzalez.

Aos 59 anos de idade, vítima de infarto do miocárdio, Lélia Gonzalez faleceu em 10 de julho de 1994, dois meses depois de ter sido eleita chefe do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, um cargo inédito para uma mulher negra. Os textos de Lélia Gonzalez devem ser lidos e discutidos, pois eles trazem as questões de raça, gênero e classe de maneira ainda muito atual, possibilitando um interessante diálogo, por exemplo, com a interseccionalidade – expressão cunhada pela jurista negra estadunidense Kimberlé Crenshaw no início da década de 1990 – e com os estudos decoloniais desenvolvidos por acadêmicos latino-americanos.

Não é à toa que o Congresso LASA 2020 (Latin American Studies Association), a se realizar em Guadalajara no próximo mês de maio, traz como tema “AMÉFRICA LADINA: vinculando mundos e saberes, tecendo esperanças”, reconhecendo a importância da produção intelectual de desta grande intérprete do Brasil.


[1] RATTS, Alex; RIOS, Flavia. Lélia Gonzalez. São Paulo: Selo Negro Edições, 2010.

[2] GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa… Diáspora Africana: Ed. Filhos da África, 2018.

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Juíza do trabalho no TRT da 15ª Região (Campinas/SP). Mestra e doutora em Direito do Trabalho na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Ex-bolsista do Programme des futurs leaders dans les Amériques (PFLA), da Université du Québec à Montréal (UQAM). Integrante do Grupo de Pesquisas Capital e Trabalho – GPTC/USP. Ex-Auditora Fiscal do Trabalho no Ministério do Trabalho e Emprego (1999-2009). Autora do livro “A Era dos Zero Direitos”, publicado pela editora LTr. É membra da Associação Juízes para a Democracia – AJD.

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