Tudo sobre a chuca: cuidados com a lavagem antes do sexo anal

Ao contrário do que se pensa, o procedimento nem sempre é necessário antes da prática do sexo anal, sendo isso uma escolha individual

Foto: Needpix

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A lavagem retal antes do sexo anal é uma prática bastante comum. Conhecida popularmente como “chuca”, tal prática traz consigo diversas dúvidas e receios, principalmente em quem está pensando em tentar o sexo anal receptivo ou passivo pela primeira vez. Um estudo brasileiro publicado em 2017, que estudou homens cis e mulheres transexuais que praticaram sexo anal nos últimos três meses, revelou que 53,4% deles realizou a lavagem retal em algum momento. 

Nesse mesmo estudo, as principais razões para a realização da lavagem retal antes do sexo anal foram: limpeza/higiene (42,6%), maior prazer durante a relação anal (17,2%), preferência do parceiro (3,0%) e constipação (0,5%). Porém, nesse mesmo estudo, os que não realizaram tal lavagem antes do sexo acreditam ser desnecessária (35%), por não gostarem (26,9%), tiveram um encontro inesperado (23,4%) ou não tiveram tempo (21,8%).

Afinal, a lavagem retal antes do sexo é realmente necessária? E ao fazê-la, quais são os riscos envolvidos?

Para responder essas perguntas, vamos entender melhor a anatomia do ânus e reto durante o sexo anal. A imensa maioria das relações anais ocorre ao longo do canal anal (2-3 cm) e do reto (15 cm), visto que a média de tamanho do pênis ereto entre os brasileiros é de 15,7 cm. Quando as fezes chegam para serem armazenadas no reto, que é o final do seu intestino grosso, normalmente sentimos vontade de evacuar. Após a evacuação, o reto normalmente se esvazia completamente de fezes. É por esse motivo que muitos conseguem realizar o sexo anal sem sujar o pênis do parceiro, o tão temido “passar cheque”, mesmo sem realizar a lavagem retal. Entretanto, não é qualquer um que consegue ter essa percepção e por isso se sentem mais seguros realizando a lavagem retal pré-coito.

Bom, primeiramente precisamos desfazer aquela ilusão de que você irá limpar todo seu intestino grosso (em torno de 2 metros) com uma simples lavagem retal. Se utilizar água em excesso pode trazer as fezes que estariam quietinhas lá atrás no intestino grosso, podendo ser uma surpresa inesperada e desagradável durante o sexo.

Mas se você se sente mais seguro com a lavagem, qual seria o jeito mais adequado de fazer a chuca? Com uma quantidade suficiente de líquido (água, glicerina, soluções vendidas em farmácia para enema) para lavar o seu reto, o que dá em torno de 200-300 mL.

Existem diversas formas de se realizar a lavagem retal. A maioria utiliza água encanada, porém é possível também o uso de produtos vendidos em farmácia para enema, com soluções com fosfato, glicerina e sorbitol. Outros também utilizam reservatórios descartáveis de água, que armazenam apenas a quantidade necessária para a realização de uma lavagem retal adequada. 

O uso de água encanada em excesso, tanto pela quantidade como pela frequência em que se realiza a lavagem, traz alguns riscos, principalmente se forem utilizadas duchas compartilhadas que não passaram pela higienização correta após o uso.  Dentre eles podemos citar micro lesões da mucosa do reto e do intestino, que podem ser porta de entrada para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), modificações na flora intestinal de microrganismos benéficos e até mesmo contágio de infecções pelas duchas compartilhadas.

Um estudo publicado em 2019 revelou que a prevalência de HIV e outras ISTs em homens que fazem sexo com homens e realizam a lavagem retal pode ser de 2 a 3 vezes maior do que em quem não realiza, mesmo após retirar fatores confundidores como o número de parceiros e o não uso de preservativos. A principal explicação apontada é justamente a presença dessas pequenas lesões no reto como porta de entrada causadas pelas lavagens retais em excesso.

Portanto, a chuca nem sempre é necessária antes da prática do sexo anal, sendo isso uma escolha individual. Para aqueles que optam por realizá-la, evite o excesso de água encanada (200-300 mL), evite as duchas compartilhadas e higienize-as corretamente após o uso. Utilize os reservatórios descartáveis quando estiver fora de casa ou opte pelos produtos vendidos em farmácia para tal fim, conhecidos como enemas.

E lembre-se: quem está penetrando um ânus sabe dos riscos que está correndo. Em caso de um acidente com fezes na hora do sexo, leve na boa, troque o preservativo, higienize-se e tente voltar no clima. Uma boa conversa com seu parceiro pode minimizar os constrangimentos de um cheque inesperado.

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Cirurgião do aparelho digestivo formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atua também como coloproctologista no Ambulatório de Doenças Infecciosas Anorretais do HCFMUSP.

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