Quantas questões – sexuais, afetivas e morais – cabem numa camisinha?

No início da epidemia de aids, esse método preventivo se tornou um símbolo da afirmação identitária e sexual gay

Quantas questões – sexuais, afetivas e morais – cabem numa camisinha?

Blogs,Diversidade,Saúde LGBT+

Embora a camisinha tenha uma presença antiga na história da humanidade, o modo como lidamos com ela hoje é recente. Foi a partir da epidemia de aids que ela se tornou tão popular e tão recomendada, graças a sua relevância na prevenção da infecção pelo HIV. Se antes estava predominantemente associada a cenários sexuais marginalizados, a partir de sua incorporação na política pública de saúde do Brasil e de outros países, ela se tornou um dos elementos centrais do que hoje consideramos uma sexualidade saudável.

Seu desenvolvimento tecnológico também fez parte dessa mudança. No início da epidemia, ainda se ouvia falar em camisinhas feitas de membranas de vísceras animais, apesar de também já serem produzidas de borracha e látex. Os estudos de eficácia e os investimentos no controle de qualidade ajudaram a garantir a confiabilidade nesse método preventivo. No final da década de 1990, a criação da camisinha feminina ampliou as possibilidades de uso. As tentativas de aprimoramento seguem proporcionando avanços, tais como as camisinhas de poliuretano, poliisopreno e outras opções mais sofisticadas.

As pesquisas sobre as taxas de uso da camisinha divergem consideravelmente, inclusive em razão da falta de regularidade de estudos abrangentes e da pouca padronização dos indicadores investigados. Ainda assim, alguns indicativos podem ser apontados, como o fato de o uso ser mais frequentemente relatado no sexo entre homens do que no sexo homem-mulher.

 

Os estudos também destacam índices altos de conhecimento a respeito da camisinha e de sua importância, o que mostra a grande incorporação desse método no nosso imaginário contemporâneo. Quando o assunto é prevenção de HIV ou de outras infecções sexualmente transmissíveis, a recomendação da camisinha tornou-se um lugar comum. A propósito, rebatizá-la como preservativo – um nome que não diz muito, mas parece dizer o essencial – faz jus ao patamar mais generalizado e normativo que atingiu.

Passamos a tratá-la como algo óbvio, uma recomendação que praticamente todo mundo conhece ou deveria conhecer. Isso dá a falsa impressão de que há pouco a ser discutido a respeito de seu uso, dos sentidos que ele adquire em diferentes contextos, assim como das dificuldades e desafios envolvidos. Se olharmos com atenção, muitas questões a respeito do exercício das sexualidades, das relações afetivo-sexuais e da moral podem estar guardadas na camisinha.

O papel da camisinha na afirmação do prazer e das sexualidades LGBTs

A proposta de usar camisinha na prevenção do HIV marcou um momento histórico de articulação de ativistas LGBTs e de discussão pública a respeito especialmente da homossexualidade masculina. Desde as publicações que inauguraram o tema da doença que viria a ser chamada de aids, em 1981, nos Estados Unidos, um estilo de vida homossexual foi colocado em questão, como a origem desse problema de saúde. Nesses termos, as autoridades de Saúde Pública passaram a recomendar maior controle ou mesmo a interrupção das práticas sexuais gays.

Ativistas LGBTs de cidades como Nova York e São Francisco, para confrontarem esse discurso e suas consequências estigmatizantes, tiveram que se dedicar ao desenvolvimento de outros modos de explicar e de tentar conter a epidemia. No intenso debate que foi desencadeado, apesar de parecer que a aids significava o fim da busca por liberdade sexual, que se fortalecia desde a década de 1960, outro posicionamento ganhou voz. Tratava-se do argumento de que a afirmação da expressão sexual dos LGBTs deveria ser a chave para o enfrentamento da doença e da opressão que os membros dessas comunidades sofriam.

Na busca por meios de conter a disseminação da infecção sem condenar o exercício das sexualidades, esses ativistas convocaram a solidariedade e um sentimento de cuidado comunitário e defenderam o prazer como possível aliado da prevenção. Produziram matérias e panfletos afirmando, por exemplo, que o afeto seria a melhor proteção, mesmo que se tratasse de sexo casual, de apenas uma noite. Nessa direção, ao discutirem as práticas sexuais e o risco que cada uma poderia implicar, passaram a indicar o uso da camisinha para as práticas com penetração.

 

Lá e aqui, esse método preventivo se tornou um símbolo da afirmação identitária e sexual gay. Foi com esse sentido que o Grupo Gay da Bahia estampou em uma edição de seu boletim a imagem de pessoas com bandeiras no formato de camisinha ao lado de outras que levantam o braço como quem vibra ou faz um gesto de luta política. Por trás das pessoas, se destaca uma grande inscrição: camisinha – o seu grito de liberdade.

No início da epidemia no Brasil, devido à recente reabertura política, o movimento homossexual iniciava suas articulações em torno de pautas como identidade, discriminação e violência contra LGBTs. Os ativistas brasileiros que se dedicaram à causa da aids foram de extrema importância na construção da resposta brasileira à epidemia. Contribuíram especialmente com a incorporação daquilo que fez a política brasileira de aids ser reconhecida globalmente: uma perspectiva de respeito aos direitos humanos e de combate à discriminação, além da universalização do acesso à prevenção e ao tratamento.

Em 2002, essa perspectiva levou o Ministério da Saúde a produzir campanhas inéditas de prevenção de HIV com mensagens claras de respeito à diversidade sexual. Uma delas foi veiculada na televisão aberta, em horário nobre. No vídeo, um rapaz gay sofre com o término de seu relacionamento afetivo-sexual e é consolado pela família. O pai lhe oferece suporte e media a comunicação com o parceiro. A mãe diz: “Filho, você vai encontrar um rapaz que te mereça”.

Essa foi a primeira vez que a homossexualidade foi tratada de forma aberta e afirmativa num discurso governamental. E foi no âmbito da prevenção de HIV que isso foi possível. No fim do vídeo, uma mensagem explica a articulação dessas duas frentes: “Usar camisinha é tão importante quanto respeitar as diferenças”. Outra campanha da mesma época, divulgada em revistas de grande circulação, investiu na mesma ponte: “Use camisinha com seu namorado – também é uma conversa de pai para filho”.

Tempo de resgatar alguns propósitos

Nos últimos tempos, a articulação entre prevenção de HIV e combate à homofobia se enfraqueceu na política pública brasileira, ao passo que os índices da epidemia pioraram, especialmente em algumas regiões do País e entre alguns grupos, como os gays/bis e pessoas transgêneras. Atualmente, a própria estrutura da política de prevenção de HIV parece estar sob ameaça, com as recentes mudanças nas prioridades do Ministério da Saúde.

Também parecem mais frágeis a articulação política e o sentimento de cuidado coletivo entre LGBTs. De um lado, as ONGs que trabalham com diversidade sexual e/ou com aids têm enfrentado problemas graves de financiamento. De outro, o cuidado nas relações sexuais assumiu um caráter cada vez mais individualista. É bem possível que tenhamos nos estimulado mais a suspeitar e culpar o outro do que investido em laços de solidariedade, ética e diálogo. Sobretudo depois que alguns estudos e o trabalho com prevenção identificaram que as pessoas tendem a não usar ou usar menos camisinha quando se envolvem afetivamente e/ou confiam na parceria.

Hoje, como a política de prevenção combinada ao HIV, que propõe que os métodos preventivos disponíveis sejam utilizados de forma complementar, a obviedade a respeito da camisinha passou a ser tensionada. É interessante notar como isso, de alguma forma, reacende a defesa da camisinha. Ao mesmo tempo, a resistência aos novos métodos parecem repetir medos e dúvidas já vividos em relação à camisinha. Ainda mais importante, esse novo cenário possibilita abrirmos a discussão sobre prevenção e sobre as relações afetivo-sexuais.

Que não percamos a oportunidade de refletir e debater essas questões. Que o cuidado coletivo, a promoção da liberdade sexual e do respeito à diversidade, presentes na história da camisinha, possam ser resgatados e ampliados!

 

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Psicólogo clínico e social formado pela UFRN. Faz pós-doutorado em Saúde Coletiva na USP. É pesquisador do NEPAIDS (Núcleo de Estudos para a Prevenção da aids) da USP e do NUDHES (Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT) da Santa Casa de São Paulo. É voluntário da Casa 1.

Compartilhar postagem