Quando a ansiedade é um problema e como isso afeta a população LGBT

Na população LGBT, os transtornos de ansiedade ocorrem com mais frequência em comparação com a população cis e heterossexual

Foto: Patricia Richter / Banco de Fotos Tem Que Ter

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Como profissional de saúde que trabalha especificamente com saúde mental, uma coisa que me chama muito atenção é o fato de que, com o aumento da prevalência dos diagnósticos psiquiátricos na população, eles também se tornaram uma forma de as pessoas se apresentarem ao mundo ou de elas manifestarem seus sentimentos ou seu estado de espírito. Então, é supercomum, no consultório ou fora dele, você ouvir alguém dizendo que “é deprimido” ou que “tem ansiedade”, como se isso fosse um definidor mesmo de quem a pessoa é.

Por um lado, o fato de as pessoas estarem familiarizadas com os transtornos psiquiátricos tem seu lado positivo, pois, fazendo os diagnósticos, os indivíduos podem receber tratamentos adequados e ter uma grande melhora de qualidade de vida, algo que o preconceito e o desconhecimento em relação aos transtornos mentais não possibilitavam até pouco tempo atrás. Por outro, muitas vezes, até por parte dos profissionais, sinto que há uma patologização de situações comuns a qualquer ser humano, o que leva a diagnósticos equivocados e muitas vezes tratamentos desnecessários.

Hoje falaremos de ansiedade. A ansiedade em si não se trata de um problema, muito pelo contrário. É uma emoção presente em todos os seres humanos e tem sua função, tanto de proteção como para melhora de performance (com aumento de atenção e interesse). Quando nos preocupamos em relação ao nosso futuro, podemos nos preparar melhor para ele, evitando problemas ou sustos. Quando vamos, por exemplo, fazer uma prova, o estado de ansiedade prévio a ela pode ajudar com que nos saiamos bem, pensando melhor e mais rápido. Então, quando alguém diz “doutor, tenho ansiedade”, eu normalmente respondo: “Ainda bem!”.

O problema, então, não é sentir ansiedade e sim quando a pessoa apresenta níveis de ansiedade tão elevados que isso acaba comprometendo a sua funcionalidade e seu bem-estar. Quando o sofrimento é tão intenso que o indivíduo se vê limitado no seu dia a dia por esses sintomas que não passam. Nesse caso, estamos diante de um transtorno de ansiedade. Preocupação excessiva, taquicardia, medos… São muito variados os sintomas que podem surgir.

Os transtornos de ansiedade podem causar muitos prejuízos físicos e sociais ao indivíduo e têm grande prevalência na população. Mais que isso, como dito no começo do texto, seus nomes já entraram no vocabulário popular e muitas vezes são usados como definidores do sujeito. Transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, fobia social, transtorno de estresse pós-traumático… Todo mundo conhece alguém com um desses diagnósticos, sejam eles dados por um psiquiatra ou não.

Na população LGBT, os transtornos de ansiedade ocorrem com mais frequência em comparação com a população cis e heterossexual. Vivendo em uma sociedade em que o preconceito e a violência contra a população LGBT são ainda uma realidade, faz sentido que esse grupo de pessoas tenha níveis de ansiedade mais altos. Nesse contexto, a todo momento são vividas situações que podem gerar preocupação e medo: “será que eu vou apanhar se eu andar de mão dada com meu namorado?” “Será que vão me aceitar no trabalho se eu falar que sou lésbica?” “Por que será que aquela pessoa me olha tanto, será que vai fazer algo contra mim?” Ao pensarmos na população trans, isso se torna ainda mais evidente.

A questão vai mais além, pois não só a população LGBT apresenta prevalência maior desses transtornos, como também procura menos ajuda psicológica e psiquiátrica. Contar ao profissional de saúde que é LGBT é mais uma situação que gera ansiedade nesse grupo de pessoas, porque muitos desses profissionais não sabem lidar com isso sem julgamentos e de forma adequada. Há pesquisas mostrando que muitas pessoas não falam sobre isso com os profissionais de saúde, pois já receberam reações ruins no passado.

É fundamental entender que há situações em nossa vida que, apesar de causarem sofrimento, são parte do processo normal de elaboração e de vivências de todo ser humano. Assim como também é crucial que a população LGBT possa reconhecer quando há um problema e tenha meios para um acesso à saúde adequado e sem preconceito. O treinamento de médicos, psicólogos, enfermeiros, entre outros, para lidar com a comunidade LGBT é algo que precisa ser feito para diminuir o abismo entre essa população e o acesso à saúde de forma adequada. Isso sim é algo que todos devemos estar ansiosos para que aconteça.

 

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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