Opressão da sociedade potencializa impactos na saúde mental de LGBTs

Ignorar o fato de a pessoa ser ou não LGBT é apenas mais uma forma de manter esse ciclo perverso em que essas pessoas são mais oprimidas

Opressão da sociedade potencializa impactos na saúde mental de LGBTs

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Há duas semanas estava conversando com um amigo e pondo em dia as novidades quando mencionei essa coluna e o foco em saúde LGBT. Ele ficou entusiasmado, mas depois me fez a seguinte pergunta: “Mas que diferença faz, em termos de saúde mental, ser LGBT?”. Tentei dar uma resposta, continuamos a conversa, mas me peguei pensando na pergunta um tempo depois de me despedir dele.

Não é fácil ser LGBT no Brasil (talvez em nenhum lugar do mundo, mas me atenho ao contexto em que a gente vive). É inegável que houve progresso ao longo das últimas décadas, mas falta muito ainda para que o preconceito, o estigma e a violência contra a população LGBT estejam num grau minimamente aceitável. Apesar dos avanços, ainda é algo que causa muito sofrimento nesse grupo de pessoas.

Como psicanalista, acho que é o habitual pensar no sofrimento por uma ótica do individual, dando enfoque no que é singular a cada sujeito e como cada experiência vai afetá-lo especificamente. Mas também não se pode esquecer dos dados de realidade, de que as pessoas estão inseridas num contexto social, atravessadas pela cultura, e que, ao fazer parte de uma minoria oprimida, isso inevitavelmente expõe o indivíduo a essa realidade de violência, preconceito e exclusão, o que não acontece sem que isso deixe marcas nesse sujeito.

Acho que é disso que falamos quando usamos o termo “estresse de minorias”, uma expressão que está em voga no dias de hoje quando discutimos saúde mental e população LGBT. O “estresse de minorias” seria o resultado no sujeito pertencente a minorias de uma vida convivendo com esses sofrimentos diários decorrentes de ser oprimido. E seria uma explicação possível para o maior sofrimento psíquico relatado por essa população, traduzido numa maior prevalência de diagnósticos de transtornos psiquiátricos, como depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de uso de substâncias, etc.

E a situação se complica quando pensamos que não só esse grupo de pessoas tem maior risco de desenvolver um transtorno mental, como também tem menos acesso a dispositivos de saúde que poderiam ajudá-lo com esse sofrimento. A falta de preparo dos profissionais de saúde, o medo da pessoa LGBT em ser discriminada ou de não ser compreendida, as oportunidades restritas (principalmente em relação às pessoas trans), tudo acaba por contribuir com esse ciclo sem fim que agrava ainda mais a saúde mental dessa população.

E se falamos de “estresse de minorias” como um fator importante de agravamento da saúde mental de um sujeito, é também fundamental que determinemos que a população LGBT não é homogênea e que, portanto, seus subgrupos vão sofrer diferentes tipos e níveis de opressão, a depender não só de sexualidade e gênero, mas também de sua cor e classe social. 

É claro que todos os indivíduos LGBT são oprimidos pela sociedade, mas uma mulher trans negra que mora na periferia tende a sofrer muito mais preconceito e violência que um homem branco gay que mora no centro da cidade. A população trans, de uma forma geral, têm muito mais restrições e sofre muito mais violências que o restante da população LGBT e isso precisa ser pontuado até como forma de dar visibilidade a esse sofrimento, para pensarmos em estratégias e ações possíveis para melhora da qualidade de vida dessa população. 

E falando em estratégias, não dá pra continuar com o pensamento de que “todos são iguais e por isso têm que ser tratados da mesma forma”, dispensando a necessidade de treinamentos ou preparações específicas para atendimento de determinados grupos de pessoas. Isso é muito bonito na teoria, mas na prática não funciona. Muitas pessoas LGBT não se sentem confortáveis em falar sobre sua vida sexual, seus relacionamentos ou suas questões de gênero ao profissional de saúde, devido a experiências prévias ruins na sociedade ou mesmo em outros atendimentos. 

É papel então do profissional de saúde estar sempre atento a incluir essas questões em seus atendimentos, criando um ambiente de aceitação e segurança para que o paciente se sinta confortável em falar sobre isso. Perguntar e não apenas supor que o indivíduo é cis e heterossexual. E muitas vezes isso não é algo simples de se fazer devido à falta de informação e preconceitos, velados ou não, por partes desse profissionais. Por isso, a importância de programas de treinamento e discussão sobre as questões LGBTs dentro das instituições de saúde, com inclusive dados científicos mostrando que esse tipo de ação resulta em melhores atendimentos.

Então, apesar de todos os avanços que a comunidade LGBT conseguiu ao longo do tempo, faz sim toda a diferença para a saúde mental do indivíduo se ele é LGBT ou não. Ignorar esse fato é apenas mais uma forma de manter esse ciclo perverso em que essas pessoas são mais oprimidas, fazendo com que tenham sofrimento psíquico aumentado, e, ao mesmo tempo, estão mais distantes do atendimento profissional que poderia ajudá-las a viver melhor. 

 

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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