Onde está a representatividade das pessoas com deficiência no meio LGBT+?

Capacitismo, quando associado a outras formas de preconceito, aumenta o abismo no qual essas pessoas são separadas do restante da sociedade

Onde está a representatividade das pessoas com deficiência no meio LGBT?. Foto: Pikist

Onde está a representatividade das pessoas com deficiência no meio LGBT?. Foto: Pikist

Saúde LGBT+

O mês de setembro possui significado especial para diversas causas: o setembro amarelo para a prevenção do suicídio e atenção às pessoas com depressão e o setembro verde, que promove campanhas para a prevenção do câncer de intestino e doação de órgãos e tecidos para transplante.

Mas hoje vamos destacar uma outra causa do setembro verde: as pessoas com deficiência (PcD) e a acessibilidade, enfatizando aquelas que convivem no meio LGBTQIA+.

Por isso, convidei duas pessoas que levantam essa bandeira diariamente nas redes sociais: Priscila Siqueira, uma das administradoras da página do Instagram @pcdvale e Victor di Marco (@victordimarco), influenciador digital e também militante da causa PcD LGBTQIA+.

Priscila, que é uma mulher cis bissexual e também PcD, destaca que 24% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. Além disso, qualquer pessoa está suscetível a apresentar um acometimento (acidentes ou doenças) que podem acarretar-lhe alguma deficiência. Segundo ela, as PcD apresentam dificuldades em se inserir em ambientes frequentados por LGBTQIA+, não só pela falta de acessibilidade arquitetônica em bares, boates e restaurantes, como também pela segregação capacitista (capacitismo = preconceito contra as pessoas com deficiência) proveniente da própria comunidade LGBTQIA+.

É importante lembrar que o capacitismo não é somente a violência física ou verbal contra as PcD, como também sentimentos de pena, de que a deficiência deve ser sempre algo a ser superado ou que aquelas que adquirem algum sucesso na carreira ou na vida pessoal devem ser exaltadas pela sua superação. Isso também é capacitismo. Uma outra forma de capacitismo é o devotee, que é fetichizar a deficiência, ou seja, pessoas que se sentem atraídas sexualmente pela deficiência e não pela pessoa. O devotee acaba retirando o traço humano da PcD, objetificando-a. 

Priscila também reforça que deve ser sempre respeitado o consentimento, principalmente quando a deficiência acarreta algum tipo de vulnerabilidade, quando for abordar ou se relacionar com uma PcD. Essas pessoas possuem sim desejos sexuais e afetivos, que muitas vezes são invisibilizados e negligenciados pela sua condição e pelo capacitismo. Muitas nem chegam a se assumir como LGBTQIA+, pois como ela mesmo diz: “para que sair do armário se não precisa esconder o invisível?”.

 

Meio gay 

 

Victor, que é um homem cis gay, revela uma dificuldade ainda maior em se inserir no meio gay, cuja exigência de corpos idealizados é predominante. Destacou que os aplicativos de relacionamento utilizados por homens gays são extremamente capacitistas, tanto por não serem equipados com facilidades na acessibilidade, quanto pelos próprios usuários.

Ele reforça um dilema enfrentado por muitas PcD nesses aplicativos: “quando você começa a falar com a pessoa e resolve encontrá-la, se sente na obrigação de falar que tem uma deficiência, mas ao mesmo tempo isso não deveria ocorrer, porque é algo natural, e muitos desistem do encontro ao descobrir que você é uma PcD”.

Ele reforça que a PcD muitas vezes não é vista como corpos sexuais ou corpos que possuem desejos e vontades como qualquer outra pessoa, sendo simplesmente taxado como deficiente.

Na medicina e na área da saúde isso também ocorre com frequência, ou seja, há uma patologização da deficiência, sendo a PcD vista como um diagnóstico, e a deficiência não é encarada como uma simples característica da pessoa. 

O capacitismo, quando associado a outras formas de preconceito, como a homofobia, a transfobia, o racismo e a marginalização social, aumenta ainda mais o abismo no qual essas pessoas são separadas do restante da sociedade.

Estamos em ano de eleição, e Victor afirma a importância das PcD participarem ativamente do processo político e não apenas serem lembrados como foco de assistencialismo ou caridade, ou seja, que seja feita a política “com nós e não para nós”.

Tanto Priscila quanto Victor querem que as PcD sejam lembradas e que possam participar ativamente da luta contra o capacitismo, pela melhoria da acessibilidade e pela maior aceitação, principalmente no meio LGBTQIA+, que deveria ser um meio muito mais inclusivo e acolhedor devido ao próprio preconceito que já sofre. E que isso não ocorra somente no mês do orgulho LGBTQIA+ ou no setembro verde.

 

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Cirurgião do aparelho digestivo formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atua também como coloproctologista no Ambulatório de Doenças Infecciosas Anorretais do HCFMUSP.

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