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É seguro ter relação sexual com uma pessoa que vive com HIV?

O tratamento, além de proporcionar uma melhor qualidade de vida, faz com que a pessoa que vive com HIV não transmita o vírus

Foto: Queer Easter
Foto: Queer Easter

Uma das primeiras questões que chegam ao consultório de um infectologista numa consulta de alguém que vive com HIV é: como será minha vida sexual a partir de agora? Na maioria das vezes, a dúvida em relação ao sexo vem de dois grandes medos: a rejeição e a transmissão da doença.

O estigma associado ao HIV e a aids fez e faz com que muitas pessoas ocultem seu diagnóstico por medo de terem vínculos rompidos, de serem taxadas de promíscuas ou ainda de doentes. O preconceito e falta de informação ainda apontam pessoas vivendo com HIV dessa forma. Não é incomum ouvir de parceiros questionamentos como “você está limpo?”, embutindo uma questão de higiene na questão da infecção. Sabe-se que o tratamento do HIV faz com que a pessoa apenas viva com o vírus alojado em santuários, sem apresentar-se doente ou incapaz.

O tratamento, quanto antes iniciado, reduz sobremaneira a chance de adoecimento por aids. Tal evidência é tão importante que, antigamente, o Ministério da Saúde recomendava tratamento com antirretrovirais apenas para pessoas com linfócitos TCD4 (principais células atacadas pelo HIV) menores que 500 células por mL de sangue. Atualmente, oferece-se o tratamento para qualquer pessoa diagnosticada com HIV, independentemente do nível de linfócitos dela.

E em relação à transmissão do HIV?

No início da epidemia e até em um passado recente, o foco de muitas campanhas de prevenção de HIV teve como objetivo informar a população sobre o risco de transmissão em uma relação sexual com alguém vivendo com HIV. De fato, inicialmente não existia antirretrovirais eficazes e, mesmo após o surgimento da terapia antirretroviral combinada, não havia estudos sobre transmissibilidade nesse cenário. Todavia, o tom de tais campanhas muitas vezes era carregado de estigma e preconceito, levando as pessoas com HIV a terem cada vez mais dificuldade em ter relações, especialmente em contextos de sorodiferença (um parceiro com HIV e outro sem).

 

Com o tempo, algumas pesquisas começaram a ser realizadas e desde 2016 estamos colhendo os frutos de descobertas científicas. Cinco grandes estudos sobre transmissão de HIV em casais sorodiferentes foram realizados com resultados extremamente positivos. Tratam-se do HPTN 052, Partner1, Opposites Attract, Partner2 e Estudo STARP.

Desses estudos, três merecem maior destaque: Partner1, Opposites Attract e Partner2. O Partner1 foi um estudo realizado em 14 países europeus durante 2010 e 2014. Nele, participaram 548 casais heterossexuais e 340 casais homossexuais masculinos. Todos os casais eram sorodiferentes e a parceria com HIV estava em tratamento regular. O estudo mostra um número médio de 22 mil relações sexuais entre os casais homossexuais e 36 mil entre os heterossexuais. Não houve, nessas relações, nenhum caso de transmissão do vírus.

O Opposites Attract foi um estudo que incluiu 343 casais homossexuais sorodiferentes com uma média de 16.889 relações e também não encontrou nenhum caso de transmissão do HIV. Por fim, o Partner2 realizou, conjuntamente com o Partner1, entre 2010 e 2017, dois estudos totalizando 782 casais homossexuais sorodiferentes em 14 países europeus. No estudo final, houve apenas 14 casos de soroconversão: em todos esses casos, a análise genética do vírus foi realizada e foi demonstrado em todos os casos que o vírus adquirido era diferente do vírus da parceria. Logo, a transmissão se deve a outro contato sexual.

Se calcularmos o número médio de relações sexuais que envolveram esses três estudos, nós temos 126 mil relações e nenhum caso de transmissão do HIV. Todas essas evidências impulsionaram a criação do conceito I = I, ou seja, indetectável é igual a intransmissível.

Nós sabemos que um paciente é indetectável através da dosagem de vírus que circula no sangue. Os estudos utilizaram, na sua maioria, um corte de 200 cópias de vírus por mL de sangue para analisarem a chance de transmitir. Ou seja, pessoas com carga viral menor que 200 cópias eram consideradas indetectáveis. No Brasil, a carga viral só é considerada indetectável quando menor que 50 células/mL.

 

Muitas campanhas têm sido feitas em âmbito mundial, não só pela Organização Mundial de Saúde, mas por ONGs e movimentos sociais que lutam pelos direitos humanos de pessoas vivendo com HIV/aids. A ideia é, além de quebrar o estigma da doença e da condição de transmissor, estimular pessoas que diagnosticaram HIV a se tratarem. Além de o tratamento proporcionar uma melhor qualidade de vida, faz com que a pessoa que vive com HIV não transmita o vírus. Isso abre uma possibilidade maior de uma vida sexual saudável, sem medos e tabus.

No Brasil, o conceito tratamento como prevenção foi adotado e está na mandala da prevenção combinada. É de extrema importância que os profissionais de saúde se apropriem desse conhecimento. Os médicos devem estimular o uso da terapia antirretroviral evidenciando seus benefícios. O conceito de intransmissibilidade deve ser passado por qualquer profissional de saúde de maneira clara e sem preconceitos. O momento é de informar, não de julgar e taxar. Isso não pode estar numa consulta que envolva o HIV e sua prevenção.

É papel da mídia, num contexto de dívida histórica com a perpetuação do estigma através de matérias preconceituosas, divulgar as bases científicas da prevenção do HIV. Informar com responsabilidade e sem despertar o desespero e o medo. Cada vez mais percebemos que a informação é aliada apenas quando vinda de maneira precisa, sem opiniões ou julgamentos a respeito de qualquer fator que paire sobre o que é ter HIV ou conviver com alguém que viva com esse vírus.

O HIV já não está mais nos fluidos de quem vive com ele. Ele está no imaginário universal. E é apenas com ciência e ética que acabaremos com essa epidemia também simbólica do HIV.

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