Como manter a saúde mental em tempos de pandemia de coronavírus

Consumir o máximo de notícias ou ignorar os fatos sobre a doença? A palavra para lidar com o momento deve ser equilíbrio

Como manter a saúde mental em tempos de pandemia de coronavírus

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As últimas semanas têm sido monotemáticas: todo mundo só fala, pensa e age em função da epidemia de coronavírus, que começou na China e agora tem um aumento importante do número de casos aqui no Brasil. Enquanto muito se discute sobre tratamentos, vacinas e meios para diminuir a transmissão e a propagação do vírus, outro ponto de crucial importância é o impacto psicológico de toda essa situação na vida das pessoas.

“Será que eu ou alguém da minha família vai pegar?”; “se eu precisar, vai ter leito no hospital pra mim?”; “por quanto tempo será que isso vai durar?”; “posso abraçar meu namorado? E beijar?”. Nesses dias que se passaram, foram diversas as vezes em que conversei com amigos, familiares e pacientes sobre como estavam lidando com esse novo cenário ao qual estamos submetidos. A sensação geral é de medo e ansiedade.

E faz sentido que todos estejamos nos sentindo assim. É uma situação inédita em nossas vidas, que nos põe em contato com nossas fragilidades e muitas incertezas. Estranho seria se não estivéssemos preocupados ou negando a gravidade da situação, como infelizmente faz o nosso chefe de Estado, Jair Bolsonaro. São muitas as perdas que enfrentamos de uma vez só.

Não apenas nos preocupamos em perder a nossa saúde, mas também perdemos o contato com as pessoas amadas, os abraços e beijos de quem nos faz bem, assim como a nossa paz, ao lavarmos nossas mãos inúmeras vezes por um fantasma que ronda nossa cabeça a todo momento.

Não apenas nos preocupamos em perder o nosso dinheiro, mas também perdemos nossos trabalhos, nossas sonhadas férias programadas e nossos planos e projetos, com a expectativa de um ano em que ficaremos “parados”, torcendo por uma boa resolução do problema.

E mais do que isso, não apenas perdemos nossa rotina, mas também perdemos a tranquilidade de nos sentirmos seguros, de certa forma inatingíveis. Essa pandemia escancara nossa vulnerabilidade, em pouco tempo um vírus expôs nossa fragilidade e alterou um suposto equilíbrio que acreditávamos viver, tanto em termos do nosso sistema econômico como em termos da nossa própria condição de seres vivos, que estão sujeitos às doenças e à morte. E isso se mostra como algo muito assustador para muitas pessoas.

O isolamento social mostrou-se a principal ferramenta para reduzir o número de infectados e de mortos e é importante que ele seja seguido, mas isso também não vem sem um custo sobre a saúde mental. Uma revisão publicada na revista The Lancet, uma das mais antigas e prestigiadas revistas médicas do mundo, avaliou os impactos psicológicos da quarentena sobre as pessoas que viveram situações de epidemia (H1N1, SARS, Ebola, entre outras). A conclusão da revisão mostra que pessoas submetidas à quarentena tinham níveis maiores de estresse psicológico que às não submetidas, com sintomas diversos (ansiedade, insônia, irritabilidade, medo, entre outros). 

Como forma de lidar com isso, cada um está fazendo como pode. Uns optam por consumir o máximo de notícias e estudos sobre o coronavírus, numa tentativa de se sentir mais preparado e atualizado possível, talvez para tentar aliviar a angústia do não saber o que vem por aí. Outros organizam uma nova rotina, uma agenda com atividades diversas que não incluem o contato com notícias e fatos sobre a doença, como uma forma de se “proteger” do vírus e de manter algum controle sobre uma situação que se mostra incontrolável.

Não há certo ou errado quando pensamos em como um indivíduo pode ou deve lidar com uma situação de angústia, mas acredito que viver apenas em função do coronavírus ou ignorando o mesmo são dois extremos que parecem menos saudáveis. Uma alternativa seria uma rotina que leve em conta a epidemia e sua gravidade, mas que não seja baseada apenas nela. Parece-me que esse é o desafio para esses tempos difíceis. Que possamos encontrar uma forma de viver reconhecendo e lidando com a angústia, sem ignorá-la ou deixar que ela nos domine.

 

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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