Ciclos menstruais fora da heteronormatividade

Cuidado com a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais geralmente não abarca um olhar para sua integralidade

Foto: bennymarty/Istock

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Saúde LGBT+

Quantas de nós, mulheres lésbicas ou bissexuais, já não tiveram um período de irregularidade menstrual e, ao procurar um ginecologista, a primeira coisa que ouviram foi: “Já fez um teste de gravidez?”.

 

 

A falta de adequação de profissionais para as nossas necessidades e a supremacia da heteronormatividade, que permeia e infiltra até a formação médica, nos expõe e impõe este tipo de questionamento: o olhar para a saúde da mulher sempre vai passar pela ideia de que ela, potencialmente, possa estar gestando?

Como se seu papel social e funcional, fosse este. Questiona-se sua individualidade, sua orientação sexual e, por vezes, sua identidade.

Infelizmente, na prática, o cuidado com a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais pouco faz em olhar para ela no todo, na integralidade dos seus dias, sua vida e seus hábitos. E é disso que queremos tratar.

Na maior parte das vezes, a mulher, ao informar que se relaciona com outras mulheres, vai sair do consultório sem nenhum acolhimento ou empatia, receberá uma lista enorme de exames para investigação hormonal (não que eles não sejam importantes de serem dosados em alguns casos muito específicos, mas veja, alguns casos) que são solicitados de forma indiscriminada e, por muitas vezes, carregados de preconceito.

Ela se mantém sem saber o que de fato está acontecendo, imaginando os piores problemas.

 

Conhecer sua fisiologia 

Atualmente esta vem sendo uma das maiores demandas que recebo em consultório. A necessidade de se conhecer, como mulher, que cicla, que se modifica, que por ora está mais “pra dentro”, outras mais disposta e “pra fora”. Se mulheres cisheterossexuais pouco são informadas sobre sua fisiologia, imagina mulheres lésbicas e bissexuais? O objetivo deste artigo é falar sobre isso.

O corpo feminino é dotado de singularidades que requerem muita observação. Permitir-se analisar e perceber que sua disposição com a vida e com as relações está maior nas primeiras semanas após a menstruação, é algo maravilhoso.

Nesse período, é comum que a gente se sinta mais bonita, a pele fique melhor e o cabelo com mais brilho. Nossas secreções estão mais claras e fluidas, com cheiro mais suave. E essa sensação maravilhosa dura até a metade do ciclo, quando ovulamos. Note aí um aumento da libido e mudança da secreção vaginal que se tornará viscosa e transparente, como marco do processo de ovulação.

Por fim, toda aquela disposição vai subjetivamente diminuindo e comumente, na segunda fase do ciclo, que costuma durar duas semanas, nos sentimos mais introspectivas, por vezes menos dispostas – a secreção vaginal se modifica de cor, cheiro, gosto e consistência, até culminar na menstruação.

É importante criar o hábito de se observar, ao longo dos ciclos, até perceber o seu padrão de normalidade. Veja, seu padrão de normalidade não significa se encaixar em padrões já estipulados. Nem sempre vamos todas ter ciclos de 28-30 dias, e isso não é um problema. Vão existir mulheres com ciclos mais curtos ou mais longos, mas que seguem o seu padrão e não apresentam qualquer sinal de descompensação com isso. Portanto, está aí o primeiro tabu que precisamos quebrar: ciclo regular não significa menstruar todo mês na mesma data; significa seguir o padrão do seu corpo e não apresentar nenhum problema relacionado a ele.

Observar outras características vai te ajudar a perceber esse padrão e identificar que não há problemas. Anote! Crie um cronograma com questões sobre o seu próprio corpo a serem respondidas todos os dias (existem plataformas, lunários, maravilhosas para isso). E mais, observe todas essas mudanças na sua parceira! Tenha consciência da ferramenta sensacional de conexão que é isso.

Toda essa dinâmica é orquestrada por hormônios, que variam sua presença e sua produção ao longo de todo o ciclo, nos desenhando e moldando durante esse tempo. E nossa qualidade de vida é capaz de tornar esse processo melhor ou mais doloroso. Passar por situações de estresse intenso, se alimentar extremamente mal e se manter sedentária são exemplos de escolhas que podem alterar nossa forma de ciclar e, portanto, nossa regularidade menstrual, produção hormonal e sua ação em nosso corpo.

Passar por um período sem menstruar nem sempre significa alteração hormonal direta. Mas, sim, será necessária investigação quando esse período ultrapassar 3 meses.

Síndrome do ovário policístico, obesidade ou desnutrição, estresse, alterações na tireoide e uso de medicamentos, como alguns corticosteroides, antidepressivos e quimioterápicos podem ser causas dessa irregularidade e que passam longe da justificativa corriqueira de gestação.

Portanto, após se perceber, avalie se existe regularidade ou não nos seus períodos, note as sensações que os acompanham, observe se a sua alimentação, seus hábitos de exercício físico e cuidados com a mente estão em dia. Aí pode estar a primeira resposta para qualquer irregularidade. No entanto, se esse período se estender por mais que 3 meses, procure ajuda.

A diferença entre saúde e doença, num primeiro momento, vai sempre partir da nossa própria percepção e, por consequência, do nosso autocuidado.

Se olhe, se conheça e aproprie-se dos seus detalhes. Busque hábitos de vida saudáveis, não os idealizados, mas aqueles que fazem bem a você e te dêem prazer. Respeite seus momentos do ciclo, vá “para fora” quando sente que quer, mas não se force a interagir quando chegar à fase de recolhimento. Há um motivo fisiológico disso acontecer. Para além disso, acolha sua parceira quando ela estiver nesse mesmo momento e a estimule a se conhecer. A mulher que se entende se expõe menos a invasões, questionamentos e investigações  desnecessárias.

 

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Médica Ginecologista e Obstetra, formada pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, Coordenadora médica do Coletivo Nascer (Grupo transdisciplinar de assistência humanizada à gestação, parto e puerpério em São Paulo-SP)

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