A genética do incômodo causada pela homossexualidade

Por que fazer um estudo científico sobre genética e comportamento sexual homossexual se não é uma doença?

Tânia Rêgo/Arquivo Agência Brasil

Tânia Rêgo/Arquivo Agência Brasil

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Há mais ou menos um mês, um artigo polêmico foi publicado na revista científica americana Science, uma das mais prestigiadas do mundo, e gerou grande discussão tanto na comunidade científica como na comunidade LGBT. Através da análise do material genético dos indivíduos e de questionários sobre sua vida sexual – em que a pergunta “você já fez sexo com uma pessoa do mesmo sexo, mesmo que apenas uma vez?” definia o comportamento sexual homossexual -, o artigo investiga o papel da genética em relação a esse tipo de prática, procurando identificar gene ou genes que pudessem ser relacionados ao comportamento sexual homossexual.

A pesquisa envolveu quase 500 mil participantes da Grã-Bretanha e dos EUA e chegou à conclusão que Freud já havia chegado aproximadamente um século antes: a sexualidade humana é muito mais que uma simples determinação do biológico. Foram encontrados alguns genes que se repetiram e que aparentemente estariam envolvidos na prática sexual homossexual, mas a conclusão é de que eles seriam responsáveis por aproximadamente 32% da influência de alguém fazer sexo com outra pessoa do mesmo sexo. Os outros 68% seriam atribuídos a fatores ambientais e sociais (não me pergunte como eles determinam essas porcentagens, isso me intriga também).

A primeira pergunta que me veio à cabeça ao saber dessa pesquisa foi: “Por que fazer um estudo científico sobre genética e comportamento sexual homossexual?”. Nas produções científicas envolvendo genética, comumente são pesquisadas causas para doenças ou genes que influenciam em características físicas/biológicas. Quando são estudados comportamentos, estes trazem prejuízo ou sofrimento ao indivíduo. A homossexualidade não se encaixa em nenhumas dessas categorias.

Desde a década de 70, a homossexualidade já não é considerada mais um transtorno mental pelos manuais diagnósticos psiquiátricos (a OMS demorou um pouco mais e a retirou da lista de doenças apenas em 1990). Além disso, não podemos considerar que a homossexualidade ou mesmo o comportamento sexual homossexual per se traga problemas à pessoa. Quando há sofrimento e/ou algum prejuízo ao indivíduo, isso se dá como consequência de preconceito, estigma e violência vindo da sociedade, e não da sexualidade em si.

Para além dessa minha pergunta inicial, cabem outros questionamentos acerca do estudo. Os próprios autores da pesquisa se preocuparam com sua realização e publicação, visto que consideravam que esse artigo e seus resultados poderiam ser usados por pessoas mal-intencionadas para aumentar o preconceito e a discriminação contra os homossexuais.

Uma dessas preocupações seria: uma vez que alguma base genética fosse identificada no comportamento sexual homossexual, mesmo que parcialmente, será que não haveria pessoas interessadas em fazer manipulação genética em embriões, para que eles não “virassem” gays? Pessoas preconceituosas o bastante a ponto de a qualquer custo tentar impedir que um filho seu tivesse um comportamental sexual homossexual? Não é tão difícil de imaginar esse cenário, especialmente com a onda de conservadorismo retrógrado que assola o mundo nos últimos anos, inclusive no Brasil.

Além disso, outra preocupação em relação a essa pesquisa seria o uso de seus resultados para apoiar terapias de reorientação sexual, a famosa “cura gay”. É um receio legítimo, ainda mais pensando que, na última eleição para o comando do Conselho Federal de Psicologia (CFP), a chapa que defendia a liberação desse tipo de prática recebeu 5458 votos. Foi a chapa menos votada entre as candidatas, mas é assustador pensar que há mais de 5 mil psicólogos em todo o Brasil que votaram por essa ideia.

Afinal, se o comportamento sexual homossexual não é determinado apenas pela genética, então o sujeito poderia escolher e por isso essas terapias seriam justificadas? A resposta é: não. Primeiro, porque, como dito lá atrás, a homossexualidade não é uma doença e tratá-la como tal, assumir que ela deva ter uma “cura”, é antiético e, mais que isso, é ignorar o real problema e a causa de sofrimento do sujeito, que é o preconceito e estigma da sociedade.

Segundo porque, além da genética, há uma gama de fatores que vão influenciar a sexualidade de um sujeito, consciente e inconscientemente, e que vão contribuir para suas escolhas de objeto de desejo e amor: o ambiente em que vive, suas experiências na infância, suas relações familiares, suas relações com o mundo, etc. E como esses fatores vão influenciar o sujeito é algo que é particular de cada indivíduo, sendo falha qualquer tentativa no sentido de “prever o resultado”. Não é porque uma criança vê dois homens se beijando que ela necessariamente vai virar gay, como acreditam alguns dos nossos políticos. A sexualidade humana é muito mais complexa que isso e todo esforço em enquadrá-la, explicá-la e normatizá-la feito por essas “pessoas de bem” é mais uma mostra do desconforto e da inquietação que ela causa.

Um último ponto que sempre me incomoda nessa discussão é: não é uma simples escolha consciente (ser homossexual), mas e se fosse? E se de repente, não mais que de repente, alguém pudesse optar por ser homossexual e escolhesse conscientemente por isso? É uma questão que me intriga. Vira e mexe ouvimos a justificativa: “poxa, mas ele nasceu assim”. Por que para alguns a homossexualidade seria aceitável no caso de ser algo “genético”, “de nascença”, mas não no caso de uma escolha pensada e consciente? Qual seria o grande problema em se respeitar uma escolha alheia, que não influencia em nada sua vida?

O artigo publicado mostra muito mais que apenas resultados de uma base genética. Mostra que a sexualidade humana é sim muito complexa e que é improvável que cheguemos a entendê-la completamente. Mostra que o incômodo gerado justamente por isso nos leva a tentar explicá-la e decifrá-la incessantemente, como se esse desconforto fosse possível de se acalmar uma vez que essa explicação fosse dada. À população não-heterossexual, talvez mais interessante que a descoberta de uma sequência genética que explicasse o comportamento sexual homossexual, seria a identificação dos genes responsáveis pelo preconceito e estigma. Mas, também nesse caso, desconfio que a razão seja muito mais complexa que uma simples questão genética.

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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