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Lindbergh Farias: “Temos de abandonar o discurso de conciliação”

Quadrinsta

O líder estudantil e principal dirigente da juventude militante que foi às ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Melo, em 1992, quando comandava a União Nacional dos Estudantes (UNE), cresceu e hoje é senador da República, segundo cargo eletivo mais importante no espectro político brasileiro. Lindbergh Farias (PT-RJ) é nosso personagem na Quadrinstrevista deste mês.

Natural da paraibana João Pessoa, Farias leva a terra natal no sotaque carregado e na postura combativa com que atua no Senado Federal desde 2011. Um dos integrantes da tropa de choque da oposição na Casa, o petista exalta suas origens progressistas e faz questão de rechaçar a influência do discurso de marqueteiros em suas campanhas políticas, o que, segundo ele, o fez perder eleição: “Sou militante de esquerda, sou aquele cara que se emociona com a Internacional Comunista, e fiz uma campanha para governador no Rio onde eu não era nada, tentava jogar dos dois lados”.

Em longa entrevista, além das críticas ao processo golpista que se instalou no País a partir do impedimento de Dilma Rousseff, especialmente em relação às reformas, o senador reconhece que parte do cenário atual deve-se a falhas cometidas pelas gestões petistas. 

“Acho que erramos, tínhamos de fazer uma reforma política mais radical quando tivemos mais força nesse País. Podíamos ter acabado com financiamento empresarial de campanha, fazer alguma coisa com mais participação popular”, avalia.

Segundo o petista, a esquerda precisa deixar de lado as alianças com ideais conservadores e mirar os modelos de retórica adotados por partidos socialistas em países desenvolvidos. “Mélenchon, Corbyn e Bernie Sanders mostram  que a esquerda tem de assumir um discurso com vigor, com clareza, com nitidez programática, tem de abandonar o discurso de conciliação de classe e se afirmar, falando diretamente para a população”.

Quadrinsta Sua origem de lutas é no movimento estudantil do início dos anos 1990, no qual teve papel relevante entre os caras pintadas que pediam o impeachment de Fernando Collor. O que mudou da juventude militante que pedia Collor fora do Planalto ontem para aquela que hoje pede Lula fora da cadeia? 
Lindbergh Farias – Naquela época era mais fácil, estávamos em um momento de maior divisão de campos, não tínhamos chegado ao governo ainda, o País vinha da resistência à ditadura, depois do processo eleitoral de 1989. A realidade hoje é muito mais complexa para a juventude. Nos governos do PT, tivemos avanços, mas também limitações, podíamos ter feito muito mais. Não democratizamos a mídia, deixamos a Globo desse jeito, não enfrentamos os problemas do sistema tributário que privilegiava os mais ricos. 

Fizemos uma grande redistribuição de renda no país, mas dentro de uma linha, sem brigar com nenhum setor do grande capital. Em determinados momentos, a juventude defendia o governo, mas criticava em outras situações. Então veio o golpe, a criminalização dos movimentos sociais, a perseguição ao Lula. O governo Temer veio com um pacote de maldades tão grande contra a universidade, a educação, os trabalhadores, que, de certa forma, voltamos um pouco àquela situação de 1992, onde há uma facilidade maior de se fazer a defesa. 

QNas suas candidaturas à prefeitura de Nova Iguaçu, o senhor contou com o apoio de DEM (antigo PFL) e PSDB, em 2004, e, na reeleição, teve na coligação novamente o DEM. Houve um erro de digitação ou de avaliação da sua equipe de campanha? 
LF – Em Nova Iguaçu, existia uma hegemonia gigantesca do PMDB, eles mandavam em praticamente todos os municípios do estado. E lá havia uma figura chamada Rogério Lisboa, que era um vereador da cidade, um cara que tinha força política do qual me aproximei. Hoje confesso que não faria uma aliança ampla daquela, teria tentado convencer o Rogério a sair do DEM e ir para outro partido. Hoje vivemos um momento de polarização gigantesca da sociedade, por isso não dá para entender o que houve naquela época. A coligação se deu muito por conta do Rogério Lisboa. Atualmente, inclusive, ele é prefeito. 

Enfrentávamos a máfia do Nelson Bornier, que era muito barra pesada, e a coligação me deu um tempo de televisão grande. Aquela foi uma construção feita em cima de um predomínio completo do PMDB. Com o Rogério, trouxe um grupo de sete vereadores que estavam brigando com o prefeito da época, Mário Marques, e foi isso que viabilizou minha campanha. Eu era um candidato que vinha de fora, não nasci em Nova Iguaçu, tinha domicílio eleitoral no Rio de Janeiro e fiz uma transferência forçada para lá, para ser candidato. Cheguei na cidade com uns 30 militantes do PT e mais nada, e essa aliança viabilizou minha candidatura.Lindbergh Farias 1

QO senhor se arrepende de ter se filiado ao PSTU? 
LF – Não me arrependo. É preciso entender as coisas na época. Comecei muito novo, com 14 anos, e me dizia comunista, socialista, gostava da história do Che Guevara, depois da Rosa Luxemburgo, a revolução russa, e em 1985 entrei no PCdoB. Mas fui eleito deputado muito novo, com 23 anos, e quando iniciei no Parlamento, achei aquelas coisas muito sem sentido, comecei a perceber que nada mudava. Passei a ler muito sobre Trotski e o PSTU daquela época não era o partido de hoje. Fui para o PSTU em 1997 e tive muitos votos para deputado federal no ano seguinte, mas acabei não eleito. Depois para vereador, em 2000,  e também não fui eleito, mas aquele foi um período muito importante para a minha formação. Dedicava parte do meu tempo para estudar e ir à porta das fábricas lutar nas greves. Foi um período de muita formação teórica, no PSTU estudam muito, é algo que não existe mais nos partidos de hoje. Deixei grandes amigos, tenho ótima relação com muita gente de lá. 

Depois que voltei ao PT em 2001 fiz uma campanha horrível na eleição para governador aqui no Rio, me descaracterizei porque entrei naquela lógica de discurso de marqueteiro, fiz uma campanha para agradar a todos os lados. Acabei mudando um pouco minha atuação na derrota, ela também ensina. Eu sou militante de esquerda, sou aquele cara que se emociona com a Internacional Comunista, e fiz uma campanha para governador onde eu não era nada, tentava jogar dos dois lados. Fiz média com evangélico, tive um resultado pífio. Depois da eleição, entrei em um processo de reflexão e decidi ser eu, o que sou, e prometi nunca mais fazer uma campanha de marqueteiro que fica te dizendo “não fala isso porque a pesquisa não deixa”. Tudo era baseado na pesquisa qualitativa. A partir daí, decidi defender apenas o que acredito e isso foi muito importante na minha vida. 

Me levantei e me insurgi primeiro contra o ajuste fiscal da Dilma, que foi uma loucura completa. Eu disse: Levy vai nos matar porque vai aumentar o desemprego e perderemos a nossa base social. Vão vir para cima para nos derrotar. Acabamos crescendo na reflexão dentro do PT porque aquilo aglutinou mais gente. Hoje estou convencido que minha grande batalha dentro do partido é discutir a questão programática. Precisamos ter outro tipo de programa para ganharmos uma próxima eleição com o Lula, diferente de 2003, ano em que Lula assumiu seu primeiro mandato na Presidência da República. Temos de discutir pesado a questão dos meios de comunicação, do sistema tributário, da dívida pública. É um escândalo não termos mexido nisso, 35% do orçamento brasileiro é transferido para pagar rentistas, não há lógica termos essa taxa de juros. Mas a vida é um aprendizado, você vai aprendendo com seus erros. 

QO Senado Federal teve a recente prisão de Delcidio do Amaral e a iminente de Aécio Neves. O que falta ao Senado? Decência ou uma penitenciária Federal? 
LF – A figura do Aécio precisa ser estudada porque do jeito que ele falava de ética no Senado Federal… Depois que perdeu a eleição em 2014, fez um discurso chamando o PT de organização criminosa e vemos hoje tudo isso desmoralizado. Sempre volto o filme de um ano atrás. Acreditava que naquele processo de impeachment, a história mostraria que estávamos certos, mas confesso que pensei que demoraria uns 10 ou 15 anos. Em um ano esse impeachment está completamente desmoralizado. 

Os capitães eram Eduardo Cunha, que está preso, Aécio Neves, afastado em vias de ser preso, e o Temer nessa situação, mas o que me deixa mais revoltado são as elites, que Mino Carta, com razão, não chama de elites, mas de Casa-Grande. Essa turma sabia quem era o Temer, quem era Aécio. Os tucanos sumiram do Senado Federal, você não vê um tucano em debate, eles estão em um processo de depressão profunda, fora das discussões políticas. 

QO senhor acha que o Supremo Tribunal Federal adiou o julgamento de Aécio Neves para tentar conseguir um forno maior para assar a pizza do pedido de prisão do senador tucano? 
LF – Acho que sim, ainda não decidiram porque não vão prender. Há um componente partidário muito claro. Se fosse um petista, o Supremo prendia. Você pode até discutir a situação do crime em flagrante, mas se fosse um petista, estava preso. 

QQual é a reforma mais escandalosa do governo golpista: a reforma trabalhista, a reforma da Previdência, a reforma do quarto do Michelzinho no Alvorada ou a reforma da casa da filha de Temer com dinheiro de propina? 
LF – A trabalhista ganha até da reforma da casa da filha do presidente Temer. Todas essas reformas que você indicou são escandalosas, mas a trabalhista desnudou o caráter de classe do Estado, desse Parlamento, do golpe. É a volta de uma situação de semi-escravidão. Vou dar alguns exemplos: trabalho intermitente. O trabalhador fica esperando o patrão dizer no dia anterior “vou precisar de você hoje de 6h às 10h, amanhã quero você de 8h ao meio dia”, e só paga as horas, ou seja, a pessoa não consegue se planejar, você pode receber menos de um salário mínimo porque é remunerado por hora trabalhada. 

E tem um tão grave quanto esse que é o autônomo exclusivo, porque o autônomo atualmente todo mundo sabe o que é, pode trabalhar para várias empresas. O autônomo exclusivo trabalha para uma empresa só. Em virtude disso, ele vira pessoa jurídica, um empresário de papel. Você é um eletricista e vira pessoa jurídica, não ganha 13º, férias e FGTS. É absurdo. Tem um deputado do PSDB, Nilson Leitão, presidente da frente ruralista, que está fazendo agora uma reforma trabalhista para o campo. Um projeto todo constituído em que ele está propondo que o trabalhador rural possa ganhar salário não apenas em dinheiro, mas em comida e moradia. 

Isso é a volta do regime de servidão. E ele vai mais além, acaba com o descanso obrigatório no domingo, ou seja, é uma barbaridade. No momento, o Brasil tem um ajuste fiscal e um ajuste do mercado de trabalho. O ajuste fiscal foi a PEC dos gastos em cima de educação e saúde, e a reforma da Previdência que é em cima de aposentados que ganham um ou dois salários mínimos. Você vê ajustes fiscais no mundo onde os governos pedem um esforço de toda sociedade, aumentam carga de impostos de empresários, mas aqui tudo é feito só em cima dos mais pobres. 

QA derrota do governo na Comissão de Assuntos Sociais do Senado que analisava a reforma trabalhista é sinal de que a base aliada precisará de muita hora extra remunerada para aprovar o tema na Casa? 
LF – O governo vai precisar de muita hora extra, muita remuneração, vão tentar fazer de tudo para comprar votos de parlamentares. Eu acho que o governo Temer acabou. Vão tentar aprovar a reforma trabalhista e salvar a pele deles nas próximas votações, porque o procurador-geral da República Rodrigo Janot vai denunciar o Temer, e a Câmara terá de votar se o processa ou não. Será uma votação difícil porque o voto é aberto e estar ao lado do Temer hoje é difícil, o parlamentar perde muitos votos para a eleição do ano que vem. Do nosso lado, tem de haver muita mobilização social, a greve geral do próximo dia 30 precisa ser um sucesso, temos de demonstrar força nas ruas porque a votação será na primeira semana de julho.

Com a reforma trabalhista, tenho sentido uma coisa que não sentia há muito tempo aqui no Brasil, os trabalhadores estão se tocando. Sinto isso pelos profissionais que trabalham no Senado, os ascensoristas, os copeiros, eles pedem para nós não deixarmos a reforma trabalhista passar. Eles entenderam que é algo contra o trabalhador. 

QA agenda de reformas é mais sombria e obscura que a agenda de encontros do presidente Temer? 
LF – As duas são sombrias, mas agenda de reformas é brutal porque é um descompromisso completo com o povo trabalhador. A agenda do Temer é impressionante também, é uma quadrilha. Olha o time: Eduardo Cunha, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Michel Temer, Henrique Eduardo Alves e ainda tem o Romero Jucá, que é o maior enrolão da República. Há uma Medida Provisória, a 759, de regularização fundiária urbana e rural. A urbana é para ajudar a especulação imobiliária, você distorce todo conceito de uma cidade democrática. 

A rural tem um objetivo claro: reconcentrar terras nas mãos dos latifundiários. De que forma? Existe um período de tempo mínimo para o assentado conquistar sua terra. Eles estão tentando agilizar esse processo para que possam comprar as terras dos assentados, de quilombolas e de índios. Aliás, estão em um processo claro contra a demarcação de terras indígenas, fazendo uma ofensiva para reconcentração de terras. Conseguimos derrubar essa MP agora no Supremo Tribunal Federal porque o Jucá, quando digo que é um enrolão, fez seis modificações de mérito no projeto, mas ele dizia que eram de redação, porque se o mérito fosse alterado no Senado, teria de voltar para a Câmara. Não sei dizer qual é a mais sombria, só sei que essas reformas me preocupam muito, o estrago será grande.Lindbergh Farias 2

QEm um Congresso majoritariamente golpista, há esperanças, com honestidade, de se aprovar eleições diretas em caso de saída antecipada de Michel Temer da presidência? 
LF – Acho que há sim porque a crise é muito grande, os desdobramentos são imprevisíveis. Eles agora têm um roteiro. Pouca gente se atentou que o caminho do golpe dentro do golpe não é eleições diretas, nem indiretas. Se a Câmara aceitar a abertura do processo contra o Temer, o Rodrigo Maia assume por até seis meses. Só que não será fácil o povo aceitar isso, com todo o comprometimento das denúncias. Fui relator da PEC das eleições diretas no Senado e aprovamos na comissão porque fica difícil um parlamentar votar contra um projeto como esse. 

Atualmente, no Brasil, não sabemos o que virá. O Eduardo Cunha pode estar fazendo uma delação premiada, o Rodrigo Rocha Loures, que carregou a mala, pode “matar” o Temer. A crise pode tomar uma proporção tão grande que faça a hipótese de eleições diretas surgir com força. Não por acaso o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou semana passada sobre o tema em uma nota, porque vai ficando muito óbvio que em uma situação de crise como essa, só eleições diretas dariam legitimidade popular ao presidente para tirar o país da crise. O ideal seriam eleições gerais, mas isso é mais difícil passar no Congresso.

Eu tenho meu candidato que é o Lula, eles que lancem o deles. e se ganhar, também sairá com força das urnas. Qual é o problema deles? E isso é grave. Essa semana saiu uma matéria no jornal Valor Econômico de uma reunião do Instituto Milênio, que é um instituto liberal, profissionais da Globo participam, em que a economista chefe Zeina Latif, da XP Investimentos, dizia que as eleições de 2018 podem ser um problema para a economia e para as reformas. E fiquei pensando: esse pessoal não vai querer eleições nem em 2018? Eles sabem que têm um problema, essa agenda de reformas que querem impor goela abaixo no Brasil não ganha eleição. Ninguém consegue ganhar eleição dizendo para o trabalhador que ele não terá mais uma hora de almoço, só terá 30 minutos. 

QApesar de termos uma clara e recente divisão na sociedade entre o que chamam preconceituosamente de coxinhas e petralhas, a representatividade popular no cenário político é praticamente nula, não existe consciência política na maioria da população. O que fazer para aumentar a participação do povo na política brasileira? Realizar as eleições via Facebook, sessões do parlamento em grupos de WhatsApp?
LF – Esse modelo de representação do Brasil está superado. A coleta de assinaturas para o projeto da ficha limpa, por exemplo, teve de ser feito de forma manual, chegaram lá no Congresso vários carrinhos de supermercado com as assinaturas. Hoje você não pode fazer petição online, consultas. Há uma série de iniciativas com a intenção de abrir a política para uma democracia mais direta. O Senado é uma casa fechada.

Na época em que o José Sarney era presidente do Senado, discutimos justamente isso, a possibilidade de apresentarmos projetos de lei com assinaturas digitais e ele foi contra. O Parlamento precisa se abrir para um processo de representatividade mais direto. Quando a capital era aqui no Rio de Janeiro, os parlamentares vinham e só voltavam aos seus estados um ano depois, era mais difícil, hoje não. Estamos em comunicação direta instantânea, especialmente com as redes sociais. A verdadeira reforma política não é só voto em lista, ela passa por isso. 

QE sobre a reforma política propriamente dita, voto em lista fechada…
LF – É polêmica porque o voto em lista fechada, em tese, fortaleceria os partidos. É claro que se dá um poder grande à burocracia partidária, tem de haver mecanismos de controle, mas você podia constituir no país partidos mais fortes, a lógica seria essa. Ou o partido tem uma identidade política ou não. Você votaria no PSOL, no PT, em um partido de centro-direita, em tese facilitaria. Tiraríamos o voto na pessoa, que é mais despolitizado, mas o que se quer aprovar hoje é o pior dos mundos, o distritão. O sistema hoje é proporcional, você vota nos candidatos e tem uma lógica partidária. No distritão, você elege os candidatos mais votados, e seriam eleitas só as personalidades, você acaba com os partidos concretamente. 

QNo Parlamento, está cada dia mais evidente que as convicções mudam conforme os interesses políticos em detrimento da consciência democrática. O que falta para os parlamentares deixarem de lado os acordos políticos, na maioria das vezes espúrios, para atender aos verdadeiros anseios da população?
LF – Acho que o principal problema é do sistema capitalista. Os liberais sempre tentaram esconder o caráter de classe do Estado. O Estado sempre teve caráter de classe de acordo com determinado sistema social, o capitalismo é isso. Quando vemos a atuação da polícia aqui no Rio de Janeiro, é uma instituição que atua fortemente contra os pobres, O morador da favela sabe que essa história de Estado democrático de direito é da boca para fora. Você tem mandado de busca e apreensão coletiva na favela da Maré, com policial colocando o pé na porta. Alguém faz isso em Copacabana, Ipanema? Não, mas os liberais sempre tiveram intenção de esconder esse caráter de classe do Estado e das instituições. Atualmente, foi desnudado todo esse processo. O Parlamento, em sua grande maioria, é de representantes do capital, assumem isso abertamente, não têm medo. O problema maior na minha avaliação é isso. 

Mas erramos, tínhamos de fazer uma reforma política mais radical quando tivemos mais força nesse país. Podíamos ter acabado com financiamento empresarial de campanha, fazer alguma coisa com mais participação. Se Lula for eleito novamente, tem de chamar imediatamente um Processo Constituinte. Muita gente tem medo de mexer na Constituição de 1988, mas ela já foi destruída. A Emenda Constitucional 95, do teto dos gastos, por exemplo, destrói a Constituição. O bom de um Processo Constituinte é que você coloca todas as forças da sociedade em movimento, mobiliza todo mundo, o engenheiro, o enfermeiro… 

O sucesso de um novo governo de esquerda no Brasil dependerá da mobilização popular, porque se ficarmos negociando com aquele Congresso, acontecerá com o Lula o que o Eduardo Cunha fez com a Dilma. A chance é fazermos um processo diferente, mais democrático, com mobilização, porque isso pode nos fazer avançar com o povo nas ruas. Se não, vamos ficar presos a esse modelo político velho. 

QO que o senhor acha dessa política de “toma lá, dá cá” do Planalto com os parlamentares? O Senador Hélio José (PMDB-DF) já teve três “melancias” indicadas por ele a cargos no segundo escalão exoneradas depois de votar contra a reforma trabalhista.
LF – É uma vergonha tudo isso. Durante o governo da presidenta Dilma, nunca indiquei ninguém para nada. E agora, neste momento de fraqueza, Temer está usando não só os cargos, mas negociando interesses econômicos para aprovar as reformas, isso é o mais grave. Interesses envolvendo parlamentares e seus financiadores empresariais. Quais são as duas grandes negociações que ele está fazendo agora?

Primeira: anistia para os ruralistas de R$ 10 bilhões do Funrural, de dívidas com a Previdência. Olha a cara de pau deles: apertam o trabalhador, o aposentado que ganha um salário mínimo e estão dando anistia para os ruralistas. Outra: R$ 25 bilhões do mega Refis para diversos setores empresariais brasileiros em um momento desses, em especial para bancos e grandes empresas. É um escândalo completo. Agora, em momento de fragilidade, é que será um vale tudo. Lindbergh Farias 3

QO processo de impeachment da presidenta Dilma, além de gerar uma enorme insegurança jurídica, acabou potencializando a judicialização da política no Brasil. O Supremo tem se tornado um ator cada vez mais protagonista nas decisões. Nessa tragédia, o judiciário tem interesses políticos? Como desvincular a atuação política das decisões dos magistrados?
LF – Quando você fala sobre esse tema, eu relembro o dia em que a presidenta Dilma nomeou o Lula para o Ministério da Casa Civil. Havia uma gravação do Lula autorizada pela Justiça, que o juiz Sérgio Moro mandou interromper por volta de 11h. Uma hora da tarde, Dilma fala com Lula, ou seja, já estava fora do horário de interceptação do grampo judicial. Mesmo assim, uma conversa da presidenta da República teria de ser remetida ao Supremo Tribunal Federal. O que o juiz Moro fez? Às 18h, essa conversa estava na Rede Globo. Era um escândalo no país. Aqueles que iam para as ruas contra Dilma, encheram a avenida Paulista, cercaram o Palácio do Planalto. 

Depois o Gilmar Mendes recebe a história da nomeação do Lula [ao Ministério da Casa Civil] e monocraticamente impede, o que é ilegal, porque existe a Lei da Ficha Limpa do serviço público. Você tem de ser condenado em segunda instância, o Lula na época não havia sido sequer denunciado. Ali impediram o Lula de assumir, o que poderia ter mudado a história do país porque ele Ministro da Casa Civil, podia ter conseguido os votos para impedir o impeachment. Era como se começasse um novo governo, havia clima no Parlamento para isso. Na divulgação ilegal de vídeos da dona Marisa, agiram da mesma forma. Agora com essa caçada ao Lula, eles não escondem que o objetivo é impedir sua candidatura. 

Os articulistas da GloboNews falam na televisão “se o Moro sentenciar o Lula em julho, pode em dezembro o TRF condenar”. É uma clara perseguição com objetivo político de tirar o Lula do jogo. O Poder Judiciário no Brasil é uma vergonha, devíamos ter reformado o Estado brasileiro também, é uma casta de privilégios absurda. Quando eu falava da reforma trabalhista é que temos altos funcionários públicos que fazem lobby no Parlamento e vivem uma situação mais que privilegiada. No Poder Judiciário, há Juízes ganhando R$ 60 mil, R$ 70 mil, Desembargadores ganhando R$ 100 mil. 

São setores de classe média-alta que compram um discurso mais elitista, é um aparato que se descolou da realidade social do país. Por isso o Processo Constituinte é importante porque um dos pontos é a democratização verdadeira do Estado. Acho que nós, durante o governo do PT, fomos muito ingênuos. No fundo, tínhamos a visão de que o Estado era neutro no capitalismo, que vivíamos numa democracia plena. O morador da favela sabe muito bem que não é isso, mas nossa turma achava, quando esse Estado, na verdade, tem lado. Desprezamos muito a questão de classe, nos desarmamos. 

Porque não nomeamos para Ministro do Supremo um jurista de esquerda que tem convicção? Nos Estados Unidos acontece isso, quando um Republicano ganha, coloca lá na Corte Suprema um Republicano daqueles conservadores. Quando um Democrata é eleito, ele coloca um Democrata. São pessoas sempre com convicções. Tínhamos de ter colocado gente que sabemos que não muda de lado, não muda de posição, e tinha tanta gente boa, o Nilo Batista, o Marcelo Coelho, mas ficávamos fazendo média. É evidente que existe atuação política no Supremo e no Judiciário como um todo, em questões contra o povo mais pobre, trabalhador, é uma Justiça de classe. 

QApesar de ser uma figura ainda muito forte e respeitada no cenário político, é notório que o ex-presidente Lula deixará as disputas eleitorais em um futuro próximo, especialmente pela idade já avançada. Quais devem ser as características de um líder progressista que possa vir a substituir o presidente Lula? Ter barba e um dedo a menos?
LF – Mas olha que o presidente Lula está cheio de disposição e saúde, está fazendo 1h40 de ginástica por dia, corrida e musculação, tem muito fôlego. O Lula é nosso único grande nome a disputar uma eleição presidencial com chances de parar essas atrocidades todas. Até falei isso para ele. Tivemos momentos da História com lideranças não só de esquerda, mas em outros espectros políticos. De centro, tivemos Ulisses Guimarães, tinha Mário Covas, o Brizola na esquerda, inclusive convivi muito com ele. Havia gente para conversar, trocar ideias, e o Lula não tem ninguém. Estava dizendo a ele: se não for o senhor agora, o povo vai sofrer porque querem destruí-lo não por você, mas pelo povo mais pobre. 

Aqui há um acirramento de classes tão grande que fazem de tudo para aprovar as reformas, podem prender o Lula, o que seja. Mas acho que só temos o Lula, pensar em outra liderança é para muito à frente. Não podemos nem admitir a sua não candidatura. Temos de dizer que sem a candidatura do Lula, a eleição de 2018 é uma farsa, uma fraude, mas lá para frente temos de reorganizar. 

QE faz parte de suas pretensões políticas ocupar esse protagonismo?
LF – Não tenho interesse, temos outras figuras muito boas na esquerda. Gosto muito do [Guilherme] Bolos que é um cara dos movimentos sociais, das lutas de rua, mas isso é para um outro momento. Acho que as pessoas no PT ainda não perceberam o momento que estamos vivendo no mundo. Veja o que está acontecendo: a candidatura do Bernie Sanders, nos Estados Unidos, do Jeremy Corbyn, no Reino Unido, do [Jean-Luc] Mélenchon, na França.

O Jeremy Corbyn é um dissidente do Partido Trabalhista inglês, foi contra a guerra do Iraque. O Partido Trabalhista inglês é social-democrata que tem história, mas é um partido muito acomodado, o Tony Blair fez a guerra com o Bush. O Corbyn ganhou a eleição na base do partido. Nesse sentido, eu digo para a turma nossa lá da esquerda, do PT: no Partido Trabalhista inglês, que era tão adaptado, eles conseguiram ganhar. Ganhou e com a maioria dos parlamentares contra ele, tentaram destituí-lo. 

Daí veio outra eleição e Corbyn foi para a campanha com discurso forte, falou de temas importantes ligados a universidade pública, o ataque ao sistema financeiro, algumas bandeiras até anticapitalistas, foi um período em que o Partido Trabalhista mais cresceu. Deu um aperto na Theresa May, que ganhou a eleição por dois pontos. O Corbyn teve uma derrota eleitoral, mas foi uma vitória política gigantesca. 

Isso mostra que não existe espaço para o discurso de conciliação de esquerda no mundo porque, economicamente, há uma hegemonia brutal do capital financeiro. Os lucros das empresas estão diminuindo e elas são forçadas a ir para cima dos trabalhadores, não é um momento de folga. Quem viveu de 1945 até os anos 1980, que eram chamados de os 30 anos gloriosos, sabe que havia uma política de Estado de bem-estar social, políticas keynesianas, A partir de 1980, com Ronald Reagan, Margaret Thatcher, houve um aumento da desigualdade no mundo inteiro. Sou da tese que só há espaço para uma esquerda para valer ou então cresce uma direita à la Marine Le Pen. 

Mélenchon, Corbyn e Bernie Sanders mostram para nós que a esquerda tem de assumir um discurso com vigor, com clareza, com nitidez programática, tem de abandonar o discurso de conciliação de classe e se afirmar, falando diretamente para a população. Acho que essas são as lições, mas o Lula é nosso plano A, B, C, D, E… Lindbergh Farias 4

QDe acordo com informações divulgadas pelo jornal Folha de São Paulo, criou-se um mal estar dentro do PT, especialmente na ala mais próxima ao ex-presidente Lula, a partir da sua participação em um encontro com lideranças de movimentos sociais e partidos políticos de esquerda. Dizem até que este pode ser o embrião para a criação de um novo partido. O que aconteceu neste encontro e qual a percepção do PT sobre a necessidade de unidade da esquerda?
LF – Sobre o mal-estar do ex-presidente Lula, eu não sei, ele não me ligou, sempre tivemos uma relação muito próxima. Mas tenho um ótimo relacionamento pessoal com o Guilherme Boulos, é da minha geração, me relaciono muito bem com a Frente Brasil Popular, que está lá o João Pedro Stédile, com o pessoal da CUT e com a Frente Povo sem Medo. Nessa reunião também estavam o pessoal do PSOL, a Mídia Ninja, o Pablo Capilé, um bocado de gente interessante. Do PSOL estavam a Luiza Erundina, o Ivan Valente, o Marcelo Freixo; do PT estávamos eu, o Tarso Genro, o deputado Henrique Fontana, em um debate para discutir outro programa para a esquerda sobre isso que falei na entrevista, democratização da mídia, sistema tributário. Não foi o primeiro, nem será o último e vou participar sempre. 

O que me impressiona é que tem gente do PT que acha normal conversar com o Sarney, com o PMDB, e fica escandalizado quando se conversa com o Boulos e com o PSOL. A conversa não era nenhuma conspiração, muito pelo contrário. Inclusive um dos temas tratados é que, na hipótese de se haver uma condenação injusta do Lula, temos de colocar gente na rua porque é um escândalo o que estão fazendo contra ele. Fico impressionado com a repercussão de um encontro desses que era óbvio, natural, e que precisamos fazer mais. Temos de entender que a aliança agora é pela esquerda, esquece PMDB, PR, Valdemar Costa Neto. Conversei com a presidente [do PT, senadora] Gleisi [Hoffman] sobre o assunto e ela já procurou o Boulos, vai procurar outras pessoas, temos de conversar com todo mundo nesse campo. É o campo dos que defendem a democracia. 

No PT, há uma posição majoritária que a cabeça é muito de 2003, é Lula ganhando repetir o que foi feito naquele início de mandato. Se fizermos isso, vamos sofrer uma derrota histórica. Ganhar eleição para se aliar ao PMDB, a essa turma de novo, estamos fritos. Chamar os empresários, a grande burguesia brasileira novamente é não entender o que aconteceu. Quem rompeu o pacto da Constituição de 1988 e veio para cima da gente com tudo foi a grande burguesia brasileira, o grande capital. Teremos de fazer um governo de enfrentamento. Quando falamos desse programa, tem gente no PT que fica incomodada. 

Uma coisa que está errada em toda essa polêmica é que não foi discutida a possibilidade de se criar um novo partido, não era o foco. O centro do debate era a discussão de um novo programa para a esquerda brasileira e estou muito entusiasmado. É um programa arrojado, que mexeu com a juventude, todos falaram da questão da universidade pública, atacaram os bancos. Não é possível fazermos uma nova aliança com os bancos, com essa política do Banco Central, esse sistema da dívida. A questão programática é muito importante. Achamos que o caminho é outro, temos de nos reunir mais com o pessoal de domingo 18 e menos com esse PMDBzão. 

QA última pergunta é do nosso seguidor nas redes sociais Antônio Pralon, de João Pessoa-PB, sua cidade de origem: O senhor acha que o excesso de “republicanismo” do PT municiou forças golpistas nas entranhas do Estado, que foram decisivas para a derrubada da presidenta Dilma? Voltando ao poder, o PT agirá de maneira diferente, sem atropelar a ética nas suas ações de governo?
LF – Muita gente usa esse termo republicanismo e ele está correto na essência do que quer dizer. Nós vivíamos uma ilusão de classes absurda aqui, achávamos que o Estado era neutro, e o que ele fala de republicanismo é isso, as nossas nomeações de Ministros do Supremo Tribunal Federal, ceder uma autonomia a corporações do tamanho do mundo, fomos muito ingênuos nesse sentido. Algumas pessoas do governo achavam que a luta de classe era bobagem do discurso de esquerda. 

A regra é a brutalidade da burguesia brasileira, a falta de compromisso democrático, a exceção foi o período da História onde houve uma convivência mais pacífica. O que fizeram com Getúlio Vargas? Getúlio se matou porque estavam tentado derrubá-lo, tentaram impedir Juscelino Kubitschek, deram o golpe em 1964. Quem se esquece da caixinha da Fiesp na operação Bandeirantes que matou e torturou muita gente? O que ele fala de republicanismo é isso. 

Acho que alguns equívocos existiram no campo ético também, a ausência de entender a luta de classes. O jogo é muito bruto. Em cima dos interesses econômicos, essa turma faz de tudo. Se formos eleitos novamente, temos de agir de maneira completamente diferente, com outro programa, mais coragem, fomos muito frouxos. Temos de saber que vamos dirigir o governo, mas o Estado é outra coisa. Ganhar um governo não significa dizer que você ganhou o poder, tem de se preparar, mobilizar o povo, porque pode estar certo que em um momento de fraqueza, a burguesia vai tentar destruir. 

Temos de manter o povo mobilizado, com uma pauta constante, uma forma de governar com mais participação. Lá no começo, quando ganhávamos as prefeituras, tínhamos orçamento participativo. Precisamos consultar mais o povo, envolver, ter conselhos. Não podemos ser ingênuos e ter um programa tão limitado quanto anteriormente, apesar do orgulho de termos feito muita inclusão social no país, observado a melhoria na vida do povo. Temos de avançar se não o grande capital tira com a mão direita o que a esquerda deu.

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