O Banco Central do Brasil no compasso do FED nos Estados Unidos

Bancos centrais são como surdos: ditam um compasso tentando fazer com que o sistema financeiro e a economia sigam certo ritmo

(Foto: iStock)

(Foto: iStock)

Economia,Observatório do Banco Central

O surdo é um instrumento de percussão conhecido mais pelo tamanho do que pela importância nas baterias de blocos de carnaval e escolas de samba. É o surdo o marcador de tempo das baterias. Do fundo delas ele solenemente dita o compasso que à frente caixas, reco-recos, agogôs, tamborins tocam e mantêm o embalo no inigualável ritmo do samba.

 

 

 

Bancos centrais são como surdos: eles ditam um compasso tentando fazer com que, primeiro o sistema financeiro e depois a economia, se embalem em determinado ritmo. Por exemplo, quando há inflação, bancos centrais sobem os juros, tentando modular o ânimo da economia.

Mas, bancos centrais são bem mais do que só estabilizadores de preço. Eles cuidam do funcionamento do sistema financeiro, para manter a concessão de crédito e a circulação de liquidez e suavizar solavancos ou acelerações no compasso econômico.

Bancos centrais convencionalmente usam a taxa de juros para fazer política monetária. Mas, a maior preferência pela liquidez pós-crise de 2008 demandou mais instrumentos na bateria dos bancos centrais, em função da pragmática constatação de que os juros sozinhos são instrumentos limitados de política monetária, o que não reduz sua importância, todavia. Os novos instrumentos ficaram conhecidos como não convencionais e incluem aquisições de ativos em larga escala (o quantitative easing), mais caminhos para suprir liquidez, manter os juros baixos e os preços dos títulos altos, realizar o financiamento monetário dos tesouros nacionais e a sinalização futura (forward guidance), entre outros.

Com a pandemia, os instrumentos não convencionais de política monetária rufaram a pleno vapor. Não por menos a crise econômica teve recuperação relativamente rápida dada a dimensão da pandemia. Neste fim de 2021, o Federal Reserve anunciou o início da retirada de estímulos em ação desde 2020, eis o tapering, afunilamento atinado à retirada dos estímulos. O Fed anunciou que entrará em voo de cruzeiro, sem estímulos e desestímulos adicionais.

Obviamente, tal qual aos estímulos da bateria no carnaval, na economia os tomadores de decisão reagem a anúncios como este do Fed. Dança-se não apenas com o anúncio feito, mas também com o que se espera que o Fed tocará no futuro.

No emaranhado da economia, preços e quantidades funcionam como indicadores síntese. Em geral, preços flutuam mais rápido do que quantidades, sobretudo os preços nos mercados financeiros líquidos e informatizados – afinal, nada há que se possa produzir tão rápido quanto ordens de compra ou venda.

A volatilidade atual nos preços dos ativos financeiros mundo afora é a dança dos agentes em relação ao Fed. Como a política monetária do Fed é a política cambial do Brasil dada a relevância do dólar e dos juros americanos por aqui, a montanha russa do câmbio são preços reagindo rápido ao novo compasso.

 

Prédio do Banco Central do Brasil, autarquia ligada ao Ministério da Economia. Foto: Raphael Ribeiro/Banco Central

 

Em termos um pouco mais técnicos, no mercado financeiro, expectativas de maior juro futuro não alteram o valor recebido pelos que carregam o ativo até o vencimento, mas impõem aos ativos redução do preço no mercado secundário, tornando seus detentores mais pobres. Elevações das taxas de juros se refletem em maior prêmio esperado, logo novos investidores ficam dispostos a pagar menor valor presente para ter direito ao mesmo fluxo de receita futura.

Mesmo quem não mudou sua posição na dança da compra ou venda de ativos sente o novo ritmo nos ajustes dos preços nas negociações diárias de ativos nos seus mercados secundários. Pela reprecificação diária dos ativos, a marcação a mercado dos preços dos ativos emula de imediato nos balanços dos agentes efeitos da sua negociação equivalentes aos efeitos decorrentes do que seria a liquidação do ativo, impondo aos agentes oscilações passivas contemporâneas em seus patrimônios.

No andar do bloco surgem duas questões: qual deve ser o compasso do tapering? Como o Banco Central do Brasil deve reagir?

O compasso atual do tapering tem sido interessante. Como as decisões do Fed mexem com o mundo todo, pois ser ou não ser ganhador de juro em dólar, eis a questão de todo investidor, o Banco vem sendo informativo em suas comunicações e cauteloso no que faz. Se preços de ativos financeiros sintetizam quase que instantaneamente visões do presente vis-à-vis o futuro, a parcimônia do Fed entre o presente e o futuro é crucial.

Oscilações de preço continuarão acontecendo. Caso se tornem obtusas e se espalhem, o Fed deverá intervir por políticas de balanço, crédito e/ou prudencial. Ou seja, o Fed deve manter-se market maker, como faz desde a crise de 2008 para evitar intensas e intempestivas flutuações altistas ou baixistas de preços bem como para continuar buscando influenciar em bom tom as quantidades de produto e de emprego nos EUA.

Para aqui, por falar em samba, Antônio Carlos Jobim resume o quadro: “o Brasil não é para principiantes”. Lembre-se: a política monetária americana é a política cambial brasileira. Com o tapering lá, o já acometido câmbio aqui sofrerá mais pressão, o que pode descambar em desinflação mais lenta e Selic mais elevada. Mesmo diante de inflação claramente de custos, como a atual, o BCB segue em seu samba de uma nota só atuando com a Selic.

O BCB precisa de reservas internacionais, pois elas são instrumento auxiliar na administração da taxa de câmbio, algoz histórico do Brasil. Reservas têm custo que, embora não-fiscal, compõe o pagamento de juros da União. Ainda assim o benefício das reservas na relação câmbio-inflação compensa seu custo, pois elas e os swaps cambiais constituem os instrumentos para os gestores de uma moeda de baixa conversibilidade suavizarem a inconveniente flutuação do câmbio. Sem reservas, a Selic mais elevada grita mata e a inflação grita esfola, com maiores custos, inclusive fiscais, e péssimos efeitos distributivos.

É importante o BCB também ter instrumentos não convencionais, como a possibilidade de aquisição de ativos públicos e privados. Longe de ser uma panaceia, o instrumento pode ser episodicamente usado em momentos de maior stress no mercado financeiro.

Aliás, boa comunicação do BCB é crucial, não na maneira informal e desnecessária como às vezes delatam sem premiação seus receptores. A sinalização futura é importante por construir um espectro dentro do qual se esperam ações futuras do Banco.

Por fim, é óbvio que nas baterias mundiais, o surdo do BCB não soa tão forte quanto o do Fed. Porém, isso não significa que nada o Banco pode fazer a não ser subir os juros a reboque do que o Fed faz. Claro que o BCB reagirá ao Fed, e também ao tapering do Banco Central Europeu, mas lhe valeria adotar tanto variações instrumentais quanto aumentar o ritmo de instrumentos consagrados, em especial reservas internacionais. Samba de uma nota só nunca soou bem nos instrumentos do Banco Central, o que então se dizer em um mundo intensamente conectado, globalizado, especulativo e financeirizado?

 

Bancos centrais são como surdos: eles ditam um compasso tentando fazer com que, primeiro o sistema financeiro e depois a economia, se embalem em determinado ritm

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Professor da Universidade Federal do ABC e pesquisador no Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (Finde) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Compartilhar postagem