A tragédia de uma agenda que nasceu morta: viva o SUS, a Fiocruz e o Butantan

'Me causa arrepios imaginar o quão mais dramática e desumana teria sido nossa crise sanitária caso essas instituições não existissem'

A tragédia de uma agenda que nasceu morta: viva o SUS, a Fiocruz e o Butantan

Observatório do Banco Central

Estamos sendo salvos por três instituições públicas da maior excelência: Sistema Único de Saúde, Fundação Oswaldo Cruz e Instituto Butantan. Não paro de me perguntar o que teria restado desse país caso a cartilha neoliberal de Guedes e sua turma houvesse triunfado plenamente. Apesar de muito boi ter passado pela porteira, ainda sobrou algum gado nesse enorme e maravilhoso curral chamado Brasil. Me causa arrepios imaginar o quão mais dramática e desumana teria sido nossa crise sanitária caso essas instituições não existissem.

Primeiro, ficou claro que o SUS – a despeito de todas suas deficiências – nos salvou de algo muito pior. A capilaridade do Sistema, sua sólida infraestrutura (que permite o atendimento em larga escala, ao menos nos grandes centros urbanos), aliada à excelência de seus profissionais (que trabalham em condições absolutamente precárias), salvou incontáveis vidas. Teríamos (re)vivido cenas da terrível peste que aterrizou a Europa Medieval: corpos teriam se amontoadas ruas… Em poucas, o primeiro choque da Covid foi, largamente, amortecido pela excelência do SUS. Esse foi um primeiro alento dado pelo Setor Público aos brasileiros.

Logo em seguida, veio a resposta de dois centros públicos de pesquisa de reputação internacional. A Fiocruz foi fundada em 1900 (originalmente chamada “Instituto Soroterápico Municipal”), em momento histórico similar ao atual. Sua missão era “produzir os primeiros soros e vacinas para enfrentar uma doença que assombrava o país: a peste bubônica”. Em suma, essa foi a primeira vez fomos salvos por um Órgão Público, a Fiocruz. Já O Butantan, foi fundado por Adolfo Lutz e Vital Brazil (colega de Oswaldo Cruz), dentre outros, em 1901. O Instituto do Governo do Estado de São Paulo, atualmente presidido por Dimas Covas, tem como missão a “produção de vacinas, soros e pesquisas de medicamentos” e possui, “vocação para a divulgação científica e inovação constante”.

Não paro de me perguntar o que teria restado desse país caso a cartilha neoliberal de Guedes e sua turma houvesse triunfado plenamente

A despeito de todos os esforços contrários do “Ministério Paralelo da Saúde” e da nossa diplomacia sob a liderança (à la Brancaleone) de Ernesto, como parece ter sido revelado pela CPI da Covid, a vacina vingou! Ao que tudo indica, eles bem que tentaram, mas não conseguiram nos sabotar, completamente. Graças à autonomia dessas Instituições – que provou funcionar como eficaz blindagem de ingerências políticas –, à excelência profissional de seus funcionários públicos, e à dedicação deles (virando a noite nos laboratórios e em seus escritórios de trabalho), temos autonomia na produção da vacina.

Não apenas dominamos a tecnologia, como produzimos, em larga escala, a vacina. Ou seja, somos líderes nessa corrida, graças a um monte de funcionários públicos. Isso só foi possível porque houve e, continua havendo muito gasto público! Não apenas investimento público. Enfim, exatamente o contrário do que pregam os Chicago Boys de plantão.

Hoje serão produzidas cerca de um milhão de doses da AstraZeneca e quase 50 milhões de doses da CoronaVac, pela Fiocruz e pelo Butantan, respectivamente. Amanhã também… A Fiocruz, presidida por Nísia Trindade Lima (primeira mulher que presidiu a Fiocruz), já entregou mais de 40 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunização do SUS. Verdadeiro show de bola! Para nossa sorte, os nossos adversários são verdadeiros pernas de pau. Jogam bola pior do que eu, que não consigo fazer sequer uma embaixadinha… Salve Jorge!

 

O PNI é outra jabuticaba, uma fruta maravilhosa, que só existe no Brasil. Assim como me orgulho dessa fruta (e de muitas outras coisas que somente existem aqui), o PNI está jogando um papel central na luta contra a pandemia. A excelência do programa, somada à capilaridade da rede municipal de saúde integrada pelo SUS, está possibilitando algo que parecia impossível no final de 2020: já vacinamos mais de 10% da população brasileira. Para quem terminou o ano deprimido, vendo nossos pares latino-americanos (tão ou mais subdesenvolvidos que nós) largando na frente da corrida pela vacina, essa notícia é simplesmente fantástica. Uma injeção de serotonina na veia!

Mais objetivamente, o atraso na compra/produção da vacina – que, ao assistir a CPI, parece ter sido causado, pelo “Ministério Paralelo da Saúde” – está sendo mais do que compensado pela excelência de Nossas Instituições Públicas. Isso me faz sentir honrado por ser um servidor público federal. Hoje, eu visto (literal e figuradamente) a camisa do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro com muito mais orgulho do que nunca!

Como minha próxima aula se aproxima, vou parando por aqui. É preciso dizer algo mais? Imagina se essas instituições houvessem sido privatizadas ou simplesmente deixado de existir. O que seria de nós?

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Professor Associado ao IE/UFRJ e Pesquisador do CNPq. Coordena o blog Observatório do Banco Central.

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