A política externa brasileira diante da pandemia do coronavírus

O Brasil encaminha-se para se tornar um problema de saúde global, vira as costas ao mundo e segue na contramão

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Foto: Marcos Corrêa/PR

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*Por Ana Tereza Marra, Diego Azzi, Flávio Rocha e Tatiana Berringer, professores que coordenam e integram o Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB) da Universidade Federal do ABC. 


A atuação internacional dos estados nacionais é um instrumento fundamental em um momento como o que vivemos atualmente, isto é, de pandemia e crise global de múltiplas dimensões – econômica, sanitária, social e política. Que não reste dúvidas, nenhum país sairá desta crise sozinho, desprezando a cooperação com a comunidade internacional ou criando inimigos imaginários. Especialmente, pela crise da Covid-19 ter se tornado uma crise global é que se percebe a importância da solidariedade e cooperação internacional para a prevenção, o combate e cuidados com as pessoas infectadas.

A necessidade, nesse momento, é de costurar o diálogo, a negociação e a aproximação com organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), e todos os países que enfrentam essa crise, independente das diferenças étnicas, religiosas, ideológicas, de estruturas políticas, sociais e econômicas que possa haver entre eles e o Brasil. A ação externa brasileira não deve ser amparada pelas confusas ideologias que até agora povoaram o comando do Itamaraty, mas deve ser objetivamente fundamentada em dados científicos e nas experiências internacionais exitosas, tanto pregressas quanto em andamento.

O atual estágio de pandemia em que o mundo se encontra demonstrou como os fluxos globalizados de pessoas e mercadorias contribuíram para a rápida disseminação e contágio do vírus e como em muitos casos o controle de fronteiras e da entrada de viajantes estrangeiros reduziu e retardou a disseminação do coronavírus. 

Neste momento, líderes das principais potências do mundo, até aqueles – como Trump – que inicialmente desdenharam do perigo à vida humana representado pelo vírus, adotam agora ação pragmática em defesa das suas populações. Sem surpresa, infelizmente, o Brasil destoa do mundo. Sem poder contar com os mais de 8.000 médicos cubanos que, pelas condições impostas por Bolsonaro, deixaram o Brasil no fim de 2018.

Propagando desde janeiro de 2019 uma visão governamental que desdenha da ciência em geral e da medicina em particular, o Brasil apresenta-se ao mundo não como propositor de soluções e articulador de consensos – como outrora foi o seu papel, haja vista a luta pela quebra da patente dos remédios para HIV, as políticas de cooperação na área da saúde no âmbito do Fórum Brasil, Índia e África do Sul (IBAS), e especialmente, pelo modelo de Saúde Pública universal que o SUS apresenta.

Ao contrário desse passado, o Estado brasileiro tem sido, na verdade, um dos problemas no combate a pandemia global. Desde o início do governo Bolsonaro, o país tem se colocado ao lado daqueles que se orientam pelo desprezo aos direitos humanos, ao conhecimento científico e a peças importantes do sistema multilateral. Diferentemente de outros governos que possuíam uma orientação parecida, mas que sucumbiram à realidade da pandemia, Bolsonaro se isola nos seus próprios erros. Ainda que tardiamente revejam suas posições equivocadas, estes governos agora se deparam com uma crise que não se pode resolver com uma simples canetada presidencial: a precariedade dos serviços públicos de saúde, resultado de políticas neoliberais de promoção do assim chamado Estado mínimo.

O ministro da saúde de seu governo se absteve de participar de reuniões no seio da OMS para discutir a pandemia. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, e o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, em vez de criarem mais possibilidades de cooperação com a China, criaram uma crise diplomática e reforçaram declarações xenófobas. Ironicamente, a China nesse momento é o país que possui mais capacidade de ação contra o vírus e está auxiliando vários outros países, incluso o próprio Brasil. Enquanto os líderes das principais potências tentam conscientizar sobre a importância do isolamento social, Bolsonaro desdenhou de tal ação, saiu às ruas e exortou o povo a voltar para suas atividades normais.

Essa crise diplomática, aliada ao negacionismo inicialmente demonstrado pelo presidente, teve um impacto direto no combate aos efeitos da Covid-19. Segundo matérias publicadas pela imprensa, enquanto o chefe de Estado minimizava as complicações do vírus e Eduardo Bolsonaro hostilizava abertamente a China nas redes sociais, os Estados Unidos fechavam uma negociação com Beijing para a compra de equipamentos de proteção individual e testes num montante tão elevado que simplesmente fez com que a produção chinesa fosse direcionada para atender as demandas estadunidenses. Ou seja, a combinação de  negacionismo com a hostilidade política e a péssima gestão diplomática por parte do chanceler Araújo produziram um efeito danoso para a população brasileira: o Brasil chegou atrasado na fila dos países que precisam dos equipamentos para combater o Coronavírus, e agora tem que se contentar com o que sobrar das vendas chinesas para os EUA e outras nações.

A forma como o governo Bolsonaro representa os interesses brasileiros no exterior é criminosa e anti-constitucional, basta lembrarmos que o artigo 4º da nossa constituição federal afirma o princípio da cooperação entre os povos. O Brasil encaminha-se para se tornar um problema de saúde global, vira as costas ao mundo e segue na contramão colocando a todos em risco.

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O Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil configura-se como um projeto de extensão da Universidade Federal do ABC e nasceu de um esforço conjunto entre docentes, discentes e militantes da área de Relações Internacionais para acompanhar e analisar de forma crítica e sistemática a nova dinâmica da inserção internacional do Brasil, bem como democratizar o debate sobre a política externa brasileira.

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