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O que o embate entre Leidy e Davi no BBB24 nos diz sobre o racismo estrutural

Ao analisar o caso unicamente sob o prisma racial, corre-se o risco de desviar a atenção de verdadeiras manifestações de racismo dentro e fora do programa

Leidy Elin joga as roupas de Davi Brito na piscina do BBB24. Foto: Reprodução/ Rede Globo
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Leidy e Davi capturaram a atenção dos espectadores do BBB 24 ao protagonizar uma discussão que foi crescendo e acendeu debates acalorados nas redes sociais. O confronto se iniciou durante o “Sincerão”, uma dinâmica projetada para incentivar os concorrentes a falarem o que acham uns dos outros, mas que frequentemente serve como palco para reviravoltas e atritos. O que começou como uma troca de farpas e acusações rapidamente escalou para um conflito mais sério, com direito a gritos e pedidos, inclusive, de agressão física. Minutos após a dinâmica, Leidy Elin jogou as roupas de Davi na piscina, em meio a acusações mútuas e muito bate-boca.

O episódio gerou uma cisão na percepção do público, com defensores fervorosos de ambos os lados. Enquanto alguns argumentam a favor de Leidy, apontando para as dinâmicas complexas do jogo e para o direito de se defender, outros veem as ações de Davi como justificadas, dada a escalada do conflito. O que realmente acalorou as discussões, contudo, foi a problemática extra trazida pela identidade racial dos envolvidos, ambos negros. Críticos de Leidy a acusam de falta de empatia e sensibilidade para com Davi, especialmente considerando as lutas compartilhadas por pessoas negras, tanto dentro quanto fora do reality.

Na terça 12, a Globo interferiu no jogo. O ato de jogar roupas na piscina e as ameaças de vingança foram repreendidas ao vivo. “Nós chegamos no limite, né? O que a Leidy fez, de jogar as roupas do Davi na piscina, não pode se repetir. Esse tipo de exagero não pode se repetir. Nós chegamos ao limite. As vinganças que o Davi ameaçou fazer poderiam passar muito do limite. Então, chega! Basta, tá bom?”, disse o apresentador. Nas redes sociais, alguns fãs do reality expressaram críticas à emissora, preocupados com o impacto da bronca sobre as ações dos participantes e um possível marasmo. É preciso diferenciar, no entanto, a dinâmica saudável do jogo – que inclui desafios, alianças, e até desentendimentos verbais – de comportamentos que possam colocar em risco a integridade física ou emocional dos concorrentes.

A demora do programa em abordar comportamentos agressivos ou ameaças, como as frases proferidas por Rodriguinho e Yasmin, destaca também uma questão de consistência na aplicação de regras e na intervenção da produção. Quando declarações violentas como “vou meter porrada”, de Rodriguinho, ou “vou estourar a cara dela”, de Yasmin, não foram prontamente repreendidas, criou-se uma percepção de que tais comportamentos eram tolerados como parte do jogo. A intervenção de Tadeu repreendendo Davi por planejar vinganças que, apesar de não concretizadas, poderiam ter escalado o conflito, enquanto omissões anteriores não foram abordadas, gera debates sobre a equidade e os critérios usados pela produção para intervir nos conflitos entre os participantes.

A atitude de Leidy, especialmente o ato de jogar as roupas de Davi na piscina, foi vista por muitos como desnecessária e exacerbada, culminando em uma reprimenda do apresentador Tadeu Schmidt, que destacou a importância de manter o respeito mútuo, mesmo em meio às disputas do jogo. Surge, assim, um debate mais amplo sobre as expectativas e os estereótipos impostos em espaços de grande visibilidade, questionando-se até que ponto Leidy é confinada a um papel limitante por sua identidade racial.

A sister, rotulada como a “advogada dos camarotes”, tem sido criticada por supostamente não ter narrativa própria dentro do jogo e por defender as causas dos outros. Olhando mais de perto, no entanto, pode ser que Leidy tenha identificado o favoritismo potencial de Davi e decidi posicionar-se como sua antagonista, criando assim um arco narrativo próprio e distinto. Ao confrontar Davi, ela não apenas solidifica sua presença no jogo, mas também desafia a dinâmica de poder estabelecida, mostrando-se disposta a enfrentar a eliminação de cabeça erguida, mas mantendo-se relevante na disputa.

No entanto, o aspecto mais crítico dessa discussão gira em torno da expectativa de que as interações entre Leidy e Davi devam ser analisadas unicamente sob a lente do racismo. Essa expectativa ignora o fato de que ambos são indivíduos competindo em um jogo onde as estratégias e conflitos são pessoais – e não necessariamente representativos de causas ou movimentos. Ao projetar o peso das questões raciais sobre suas ações, corre-se o risco de desviar a atenção das verdadeiras manifestações de racismo estrutural, frequentemente perpetuadas por participantes não-negros dentro e fora do contexto do jogo.

A cobrança e a crítica deveriam ser mais direcionadas àqueles que, de fato, perpetuam e se beneficiam das estruturas de poder e privilégio racial, muitas vezes sem enfrentar o mesmo escrutínio ou expectativas impostas a participantes negros. A responsabilidade pelos atos de uma pessoa negra, como Leidy, recai sobre ela mesma, e não sobre a comunidade negra como um todo. Culpabilizar coletivamente pelos erros de um indivíduo não só é injusto, mas também trivializa discussões críticas que demandam seriedade e profundidade.

No ambiente altamente competitivo do “Big Brother Brasil”, Leidy e Davi, como todos os participantes, estão em busca do prêmio final, o que envolve jogar, formar alianças, e, por vezes, entrar em conflitos. Impor a eles a obrigação de representar ou militar por causas raciais dentro desse contexto é ignorar que eles são, antes de tudo, competidores individuais com seus próprios objetivos e estratégias.

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