Sem constrangimento, Sikêra Jr. dispara contra isolamento social

Apresentador do policialesco “Alerta Nacional” ignora crescimento de casos de Covid-19 no Brasil e embarca de vez no discurso bolsonarista

Sikêra Jr., apresentador de programa na RedeTV!. Foto: Reprodução

Sikêra Jr., apresentador de programa na RedeTV!. Foto: Reprodução

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Por Iara Moura, Bia Barbosa e Mabel Dias*


O estado do Amazonas entrou, na última semana, na lista dos mais preocupantes em termos do avanço da epidemia do novo coronavírus no país. Já são mais de 1.200 casos de Covid-19 no estado, mais de mil somente na capital Manaus. Na ultima sexta-feira (10), o governo informou que o hospital referência para internação de casos graves atingiu sua capacidade máxima operacional. São 60 os leitos de UTI ocupados e faltam profissionais para cuidar dos novos doentes. Um hospital de campanha foi inaugurado às pressas pela Prefeitura de Manaus no domingo, e o Ministério da Saúde anunciou a construção de outro. O governo federal também prometeu enviar equipes de saúde para a cidade.

O colapso do sistema de saúde amazonense, entretanto, não preocupa o apresentador Sikêra Jr., que, diariamente, às 18h, do estúdio da TV A Crítica, emissora do grupo Rede Calderaro de Comunicação, discursa contra as medidas de isolamento social. Desde fevereiro, Sikêra é o apresentador do programa “Alerta Nacional”, produzido em Manaus e veiculado para todo o país pela RedeTV!. Depois de bater recordes de audiência no estado, ele recebeu a oferta da RedeTV! e já é uma das atrações de maior audiência da emissora, que alcança o quinto lugar na preferência dos telespectadores em seu horário.

Apoiador do presidente Jair Bolsonaro, na mesma semana em que a epidemia alcançava índices alarmantes em Manaus, Sikêra Jr., cujo programa é notório por veicular cadáveres e pregar a morte de criminosos, não economizou disparos contra as recomendações das autoridades sanitárias do país e do mundo e contra a cobertura da crise feita pela imprensa.

“Nós vamos quebrar, vamos matar o povo antes do tempo. Antes do vírus matar a gente mata. Vocês estão testando a paciência do brasileiro, brincando mesmo. Que a doença é grave, é. Que é verdade, é. Agora o que a imprensa maldita fazendo… Eu desejo que Jesus te livre de tudo isso que você fazendo e desejando para o povo. Deus proteja teus pais, teus avós, você aí da redação que mostrando a cara. Porque o que vocês tão fazendo é um assassinato em massa. É um genocídio psicológico”, disse durante o programa da segunda-feira 6.

“Não tem um canal hoje que você não ligue a televisão que não seja a atualização de mortos. Mortos, mortos, mortos. Onde é que vocês querem chegar? O que vocês querem, pelo amor de Deus? Que prazer é esse? Ontem eu liguei a TV e tinha um jornal mostrando as covas abertas num cemitério em SP. Aquilo é comum, viu? (…) E isso vai passando pros véinhos que em casa. É terrorismo o que vocês tão fazendo. Terrorismo”, acusou o apresentador, antes de banalizar as vítimas do Covid-19. “Morreu? Morreu. Se tu contar quantas mortes eu falo aqui no meu programa por bala, feminicídio, homicídio… faça as contas”, sugeriu Sikêra Jr.

No dia seguinte, o apresentador voltou a atacar as orientações da imprensa para a população ficar em casa, acusando jornalistas de serem “gente rica mandando pobre ficar em casa”, “fumadores de maconha” e “cheiradores de pó”.  O “Alerta Nacional”, ao contrário de vários programas da televisão, não reduziu sua equipe em estúdio, e todos os dias mostra o elenco da equipe de Sikêra Jr na tela. Na semana passada, o apresentador chegou a reclamar de não poder levar candidatos para um quadro de calouros do programa por causa das “medidas funerárias” em curso.

Em seu discurso, o âncora constrói a narrativa de que as autoridades que hoje pedem para a população ficar em casa se beneficiarão politicamente, depois, do empobrecimento dos cidadãos.

É por isso que o Brasil está do jeito que está, gente. Pergunta pro seu parlamentar se ele diminuiu um centavo do salário dele. Pergunta se diminuiu o salário do assessor dele. Pergunta se o STF falou: ‘olha, o Brasil está passando dificuldade? Toma metade do meu salário, quero não. Troca em remédio, respirador, maca, ambulância, cesta básica…’. Se a gente não for inteligente, nós vamos estar igual à Venezuela, comendo cachorro, comendo gato. Acorda, Brasil, pelo amor de Deus!”, bradou para as câmeras. “É covardia o que vocês estão fazendo com o povo brasileiro! Estão matando e dominando o povo aos poucos. Fazem isso pro povo ir pedir cesta básica depois, pra dizer que [o governador] não cortou a energia elétrica. Olha como ele é bom!”, ironizou no programa de sexta-feira.

“Saidão da pandemia” e “Constituição rasgada”

Outra tecla em que Sikêra tem batido constantemente é na decisão de alguns Tribunais de Justiça (TJs) do país terem autorizado o cumprimento de pena domiciliar por presos não considerados perigosos, como forma de prevenir a contaminação pelo COVID-19 nos presídios. No dia 8, o “Alerta Nacional” exibiu reportagem feita no Distrito Federal intitulada “Livre pra causar o mal: detento beneficiado na pandemia ataca motorista em roubo”. Sikêra Jr não poupou nos comentários.

“Eu quero parabenizar as autoridades que tiveram essa belíssima ideia de liberar presos por causa do coronavírus. Olha, foi uma ideia sensacional! Vocês nunca fizeram um bem tão gigante para o país como agora (…) Prende o povo, solta o preso. Se você for pego na rua, a não ser que você seja jornalista da Rede Globo, que pode ir pra praia, correr, caminhar… Eu quero ver a soma disso tudo. Quero ver onde vai parar meu Brasil varonil. Eu tenho muito medo dessa conta, dessa fatura que vai chegar”, declarou.

No dia 10, depois de vários comentários na linha “esse miserável aí está solto por causa do coronavírus”, Sikêra Jr voltou a artilharia para o governador de São Paulo, João Dória, que havia anunciado o monitoramento dos deslocamentos da população via acordo com as operadoras de telefonia celular e alertado que, caso os índices de distanciamento social não alcançassem 70%, seria necessário impor medidas mais duras contra quem saísse de casa.

Sikêra Jr (Foto: Reprodução)

O “Alerta Nacional” veiculou o trecho de um vídeo do ex-desembargador e ex-presidente do TJ de São Paulo, Ivan Sartori, que foi abordado por policiais em Santos, no litoral paulista, após descumprir medida da Prefeitura que fechou as praias da cidade. No vídeo, Sartori acusa o governador João Dória de desrespeitar a Constituição Federal.

“A única possibilidade que existe de restringir alguns direitos individuais ocorre no ‘estado de defesa’ e no ‘estado de sítio’, e isso não foi decretado aqui no país. Os prefeitos vem seguindo o governador, praticando verdadeiras arbitrariedades e usando a guarda municipal para coagir o cidadão, abordar o cidadão com truculência (…) Estamos vivendo uma loucura, uma balbúrdia, uma confusão. De repente a Constituição não existe mais, rasgaram a Constituição. O Dória está fazendo isso”, declarou.

Juiz por 38 anos em São Paulo, responsável pela anulação da condenação de 74 policiais no massacre do Carandiru, que para ele foi “uma invenção da imprensa”, Ivan Sartori é hoje pré-candidato a prefeito em Santos pelo PSD. Mas a esta informação os telespectadores do “Alerta Nacional” não tiveram acesso.

“Estou me sentindo num filme que vi há tempos, em que você colocava uma coleira e, se você se afastasse, ela matava o cara”, ironizou Sikêra Jr. “Eu vou dizer para quem é hipócrita e fica fazendo campanha ‘fique em casa, fique em casa’. Mande seu porteiro pra casa, faça uma convenção extraordinária e diga: ‘vamos ser humanos, vamos liberar eles também’. Mas não, você precisa do seu porteiro pra receber iFood. Que hipocrisia, meu Brasil varonil… Pra completar, o governador Dória fechou um acordo com algumas operadoras de celular e a partir de agora vão rastrear o seu telefone. Atenção, São Paulo! Agora vocês estão lascados! Vão rastrear seu telefone pra ver se você saiu de casa. Por que você não consegue fazer isso com o PCC? No presídio, que entra celular dia e noite pra mandar matar gente aqui fora? O senhor não consegue administrar o presídio e quer impedir o povo de sair de casa com o próprio celular? É só o que faltava nesse país! Que palhaçada é essa? Onde você quer chegar? Já não basta o sofrimento que o povo está passando? O povo quebrado, já com fome, sem emprego, agora não pode sair de casa com o celular senão vai ser rastreado? O que é isso, governador?”, questionou o apresentador.

Neste dia, o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, ligou para o estúdio e pode detalhar as medidas adotadas pelo estado e responder às perguntas de Sikêra Jr ao vivo. Lembrou, por exemplo, que a tecnologia de rastreamento dos celulares também está sendo usada pelo governo Bolsonaro, apesar disso não ser mencionado no programa. E que o Código Penal já prevê a possibilidade de detenção em casos de violação a normas sanitárias durante epidemias.

“É só abrir na Internet e ler o Código”, disse Garcia. “Como o Brasil nunca viveu isso, é natural essa confusão. Infelizmente o mundo está vivendo essa pandemia. O que muitos disseram que era uma gripezinha nós já estamos vendo que não é. Você, que está aí em Manaus, vê que já estão faltando respiradores e leitos em UTI. Em São Paulo, com uma grande população, estamos procurando preservar vidas a partir das medidas de restrição, que não são exclusividade de São Paulo. Todos os governos e grandes prefeituras estão nesta linha”, concluiu o vice-governador.

Depois da entrevista ao vivo, Sikêra Jr se viu obrigado a baixar o tom. Mas nada impede que volte a usar uma concessão pública de radiodifusão para criticar o isolamento social e colocar novas vidas em risco.


* Iara Moura, Bia Barbosa e Mabel Dias são jornalistas e integram o Intervozes.

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