Mulheres de povos e comunidades tradicionais quebram o silêncio da mídia

Iniciativa 'Ondas da Resistência' reúne histórias de luta em defesa de territórios brasileiros impactados também pela covid-19

Créditos:  Divulgação Ondas da Resistência

Créditos: Divulgação Ondas da Resistência

Intervozes

Por Iara Moura*

“As mulheres daqui muitas não tão doente de coronavírus, tão doente de tristeza, porque não podem trabalhar, porque mesmo se for pra maré e catar algo não tem onde vender”. A voz forte da pescadora Joana Moussinho chega a embargar quando fala da vida dela e de suas companheira de maré e da Articulação Nacional de Pescadoras (ANP). Para Joana, suas vizinhas e parentes de Itapissuma, no litoral pernambucano, o “novo normal” imposto pela pandemia chegou antes em forma de prenúncio, quando o mar se pintou de preto, em fins de 2019.

Quase um ano se passou desde que o maior desastre com petróleo do Atlântico Sul atingiu o Brasil, vitimando mares, mangues, rios e estuários de onze estados e 130 municípios, com danos irreversíveis a localidades invisíveis aos mapas e jornais, muitas destas no nordeste do país. Pescadoras, marisqueiras, quilombolas, catadoras de mangaba, indígenas, trabalhadoras rurais e outras mulheres de povos e comunidades tradicionais diretamente atingidos pelo vazamento denunciam a falta de respostas do Estado, até hoje. A interrupção do trabalho é agora agravada pela interiorização do novo coronavírus, ameaçando a subsistência e os modos de vida tradicionais.

Apesar dos impactos tão graves na vida destas populações, principalmente das mulheres, a imprensa e o Estado parecem ignorar a voz que vem dos mangues, mares, rios e roçados. De acordo com a pesquisa “Vozes Silenciadas – A cobertura da mídia sobre o derramamento de petróleo na costa brasileira”, lançada em junho deste ano pelo Intervozes, em média 60% das fontes ouvidas pela imprensa nacional em reportagens e matérias sobre o vazamento do petróleo foram autoridades públicas. Apenas 5% foram oriundas de moradoras e moradores de territórios tradicionais pesqueiros e outras comunidades impactadas.

O estudo investigou a cobertura de sete veículos de comunicação impressa – O Globo (RJ), Folha de S. Paulo (SP), O Estado de S. Paulo (SP), A Tarde (BA), Jornal do Commercio (PE), O Estado do Maranhão (MA) e Diário do Nordeste (CE) –, três jornais televisivos – Jornal Nacional, SBT Brasil e Jornal da Record –, e uma mídia pública, a Agência Brasil.

Verificamos, por exemplo, que a referência ou nomeação de “pescadores/as” e “marisqueiros/as” foi quase que apagada dos títulos dos jornais impressos estudados. Dos 16 títulos de O Globo reunidos na análise, não há sequer uma menção às palavras “pescadores”, “pescadoras”, “marisqueiros” ou “marisqueiras”. Já na Folha de S.Paulo, dos 55 títulos listados, aparecem em apenas três. O Estado de S. Paulo abordou o vazamento do petróleo em 31 títulos, mas somente em um referenciou as categorias dos trabalhadores/as atingidos/as.

Os veículos regionais pesquisados, que, em tese, estavam mais próximos da realidade vivenciada pelos territórios, não se comportaram de forma diferente. No jornal Diário do Nordeste, entre seus 18 títulos, nenhum referenciou diretamente as categorias que sobrevivem das atividades pesqueiras.

Dos 46 títulos do Jornal do Commercio, também houve seu total apagamento, mesmo quando são referenciadas indiretamente, como na reportagem “O lamento de quem vive do mar” (publicada em 27/10/2019). Já no Estado do Maranhão, entre 32 títulos, só um fez a nomeação: “Por causa das manchas de óleo, 7 mil pescadores vão receber auxílio no MA” (05/12/2019), em reportagem que, inclusive, só ouviu fontes oficiais.

O periódico regional que mais utilizou as palavras “pescadores” ou “marisqueiras” foi o jornal A Tarde, que, em seus 54 títulos sobre o episódio, fez cinco citações diretas: “Pescadores e marisqueiras enfrentam queda nas vendas” (23/10/2019); “Óleo afeta trabalho de 43 mil pescadores” (27/10/2019); “Governo vai liberar um salário para cada pescador por dois meses” (07/11/2019); “Organizações coletam alimentos para pescadores afetados pelo óleo” (10/11/2019); e “Sete mil pescadores devem receber auxílio do governo” (14/11/2019).

Mulheres ainda mais silenciadas

O estudo mostrou que o apagamento e silenciamento é ainda mais brutal no que se refere às mulheres. Nas capas dos periódicos analisados, apenas uma vez nomeou as mulheres de territórios atingidos, numa referência a “marisqueiras”. Passados 11 meses do aparecimento das primeiras manchas no litoral, a imprensa e o Estado brasileiro parecem considerá-lo um episódio superado. Apesar de até hoje o governo federal não ter dado respostas sobre os responsáveis pela tragédia e os territórios seguirem amargando os impactos, a notícia sumiu dos jornais mesmo antes da pandemia do coronavírus ocupar espaço de maneira absoluta.

A realidade enfrentada por mulheres de povos e comunidades tradicionais acossadas por megaprojetos de desenvolvimento e conflitos socioambientais, sufocadas pelo racismo estrutural, tendo seu direito à comunicação negado, tampouco é exclusiva do Brasil. Se espraia por territórios latino americanos e caribenhos, onde, em tempos de pandemia, há um agravamento das condições de vida e dos conflitos decorrentes da instalação e operação de usinas, termelétricas, portos, do avanço do agronegócio e da especulação imobiliária.

Nesses territórios, a negação do direito à comunicação não se restringe ao silenciamento imposto pela mídia, que não considera as mulheres fontes autorizadas e sujeitas de direito, e que segue a toada de mercantilizar, objetificar e explorar os corpos e vida das mulheres, principalmente das negras e indígenas latino americanas e caribenhas. A negação do acesso à Internet e mesmo à infraestrutura de telefone é realidade comum de territórios quilombolas e indígenas, periferias rurais e urbanas do país, impactando o acesso à informações e a organização coletiva das mulheres.

Quando perguntadas sobre as estratégias de enfrentamento e resistência aos conflitos socioambientais, ao vazamento de petróleo e à pandemia, as respostas convergem. Estar juntas, mesmo cada uma nas suas casas, parece ser o ensinamento passado de geração em geração, desde que Tereza de Benguela liderou a resistência do Quilombo Quariterê, no século XVIII.

“É através do conhecimento e da parceria que a gente tem que a gente vai levando. Não desarticulou ninguém dos grupos [de mulheres]. Ficou cada uma nas suas casas, mas não desfez. Apesar da gente ter uma comunicação muito ruim, que o Whatsapp não ajuda, a Internet não ajuda, mas quando tem [acesso] a gente se comunica e a cada semana eu sempre entro em contato pra saber como estão, o que precisam”, conta Maria Ângela, moradora de Mata Grande, no alto sertão de Alagoas, e organizada no Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Pescadoras.

Ondas da resistência.

Onda. Palavra feminina. Cada uma das elevações formadas nos mares, rios, lagos, pelos movimentos de vento e de marés. Água que se agita e se eleva, que aflui, se espalha. Onda. Pode ser também grande quantidade ou afluência de pessoas. Movimento. Força. Agitação. Resistência. Palavra feminina. Ato ou efeito de resistir. Propriedade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo. Capacidade de suportar e enfrentar. Ondas da Resistência. Mulheres que se agitam, se elevam, se espalham. Mulheres que resistem, que enfrentam.

É com esta toada que o podcast “Ondas da Resistência” abriu seu primeiro episódio, que foi ao ar nestaa sexta-feira 24, com o intuito de contar histórias e dar voz a pescadoras, pescadores, marisqueiras, quilombolas, indígenas e trabalhadoras rurais que vêm enfrentando os impactos do vazamento de petróleo, agravados pela crise sanitária da Covid-19. A iniciativa produzirá artigos, lives e podcasts, ampliando essas vozes, e é coordenada pelo Intervozes, com o apoio da Fundação Heinrich Boll e a parceria do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), Articulação Nacional de Pescadoras (ANP), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Carrapicho Virtual, Escola das Águas e da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço).

Também nesta sexta-feira, marcando o lançamento do Ondas da Resistência, o Dia Internacional de Luta da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e o Dia Nacional Tereza de Benguela, foi realizada a live “Comunicação e Mulheres Negras na América Latina”, que contou com as presenças de Maryellen Crisóstomo, jornalista, quilombola, executiva da CONAQ; Leonor Soares, jornalista, diretora do sindicato de jornalistas do DF; Alana Vieira, comunicadora afroperuana e feminista, com experiência em comunicação política, ativista e sócia da Anistia Internacional Peru; e Vilma Almendra, indígena nasa-misak do Cauca na Colômbia, integrante do coletivo Pueblos en Camino.

Como diz conhecido grito de de resistência das mulheres negras latino americanas e caribenhas: as mulheres são como as águas, crescem quando se juntam. Pensar a comunicação como rede que fortifica e ecoa os laços de resistência desde os territórios e como direito, a ser conquistado e garantido, dia a dia, é a convocação posta.

* Iara Moura é jornalista, mestra em comunicação pelo PPGCOM UFF e integrante da Coordenação Executiva do Intervozes.

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