Entrevista com Eduardo Bolsonaro é mais um sinal do aparelhamento da EBC

De 22 programas, 8 (mais de 1/3) foram com membros do governo, parlamentares aliados ou responsáveis por pautas de interesse de Bolsonaro

Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

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Que limites tem o intervencionismo na Empresa Brasil de Comunicação (EBC)? Neste mês de setembro, a empresa deu mais um exemplo claro de que vem sendo utilizada para fins de promoção pessoal de figuras do governo Bolsonaro. No dia 10 de setembro, o beneficiado foi o próprio filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Ele foi o entrevistado do programa “Impressões”, da TV Brasil.

No site da TV Brasil, vemos as edições que já foram ao ar. Foram 22 programas, sendo 8 (mais de 1/3) com membros do governo, parlamentares aliados ou responsáveis por pautas de interesse do governo. Os outros convidados são figuras das artes e da sociedade civil com relevância nacional. Porém, ninguém com um perfil minimamente contestador em relação a quem hoje ocupa o poder de Estado.

A entrevista com Eduardo Bolsonaro, segundo nota no site da revista Época, foi gravada no mesmo dia em que foi ao ar. Às pressas, substituiu um programa que estava pronto para ser exibido, como divulgado em chamada feita pela EBC. No final do texto, é inserida a observação: “Matéria atualizada às 16h56. Inicialmente, a entrevista com o empresário Marcus Montenegro iria ao ar hoje, mas a exibição foi adiada para 17/09/2019”. Qual o motivo da pressa em colocar no ar a entrevista com Eduardo, com tão pouco tempo de divulgação?

Como o formato do programa permite supor, a entrevista é amigável o tempo todo. O primeiro bloco é composto por questões como “quem é Eduardo Bolsonaro?” e “quem é o pai Jair Bolsonaro?”. A maior revelação do deputado foi dizer que uma vez Jair fez o filho Carlos comer sabão, porque ele falava muito palavrão, técnica que funcionou, segundo Eduardo, aos risos. No fim do bloco, o deputado é estimulado a falar sobre o início da vida adulta, a carreira profissional e a entrada na política.

O segundo bloco já entra de cabeça no principal motivo da entrevista: questionado se pretendia seguir carreira como político, o “03” fala sobre a candidatura a embaixador nos Estados Unidos: se conseguir, terá de abandonar o mandato. Perguntado sobre como surgiu a ideia do seu nome para a embaixada em Washington, disse ter ficado “surpreso com a indicação do presidente Bolsonaro”, e que foi convencido que poderia fazer um bom trabalho. Também falou sobre a Amazônia, rechaçando as supostas intenções da França ameaçadoras à soberania nacional na região, e defendeu a regularização do garimpo em terras indígenas.

A entrevista foi conduzida sem perguntas que pudessem ser incômodas ao deputado, possivelmente com a intenção de fortalecer sua imagem de postulante à embaixada brasileira em Washington, mesmo sem ter carreira diplomática. Vale lembrar que a TV Brasil, ligada à EBC, está subordinada à Secretaria de Governo. O ministério hoje é chefiado por Luiz Eduardo Ramos, militar de carreira do Exército, que até ser nomeado era comandante Militar do Sudeste do Exército. A própria EBC passou a ser comandada por um militar, o general de divisão Luiz Carlos Pereira Gomes, sem experiência com jornalismo, que assumiu a empresa em agosto, uma semana depois de ir para a reserva do Exército.

É um momento difícil para a EBC, um dos maiores símbolos da luta pela comunicação pública no País. Neste ano, a empresa fechou a praça de São Luís, a única redação da EBC na região Nordeste, que havia herdado a TV Educativa do Maranhão, com cinco décadas de história – medida que desobedeceu a própria lei que instituiu a empresa. Também neste ano, a empresa fundiu a NBR, emissora estatal de televisão, com a TV Brasil, emissora pública, o que na prática acabou com o caráter público da TV Brasil – que deveria ser assegurado com base na Constituição Brasileira. A produção audiovisual também foi atacada: Bolsonaro ameaçou vetar produções para TVs públicas com temática LGBT.

 

Criada em 2007, fruto das lutas pela democratização da comunicação, a EBC já surgiu com alguns problemas: vinculada à Secretaria de Comunicação da Presidência da República, muito próxima ao poder, seus veículos sempre tiveram a independência editorial fragilizada. A confusão entre comunicação pública e estatal causou ruídos, constantemente pendendo para o governismo – problemas que sempre foram apontados por estudiosos, entidades pela democratização da comunicação e pelos próprios empregados. O governo Temer piorou a situação em 2016, quando acabou com o Conselho Curador da empresa, que tinha participação da sociedade civil, e com o mandato do presidente da EBC, que garantia que ele não fosse exonerado sumariamente por questões políticas ou editoriais. A chegada de um governo ainda mais hostil às liberdades de imprensa e de expressão, como é o governo Bolsonaro, praticamente acaba com a possibilidade de uma EBC verdadeiramente pública, a médio prazo. Os ataques vão além: o governo estuda privatizar a empresa, como está fazendo com outras estatais.

Mas é preciso resistir e seguir ressaltando a importância da EBC em todos os espaços possíveis. Em outubro, acontece em São Luís (MA) o 4º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (ENDC), onde a questão da EBC deve ser uma das pautas centrais. É necessário lutar para que tenhamos uma comunicação mais democrática, que atenda aos anseios da população e que de fato chegue a todos os cantos do País, com pluralidade de vozes, diversidade, independência editorial, mecanismos de controle popular, e o devido financiamento público. Se não, seguiremos submetidos aos interesses dos governos de turno. É simbólico o deslize inconsciente do próprio Eduardo Bolsonaro, em sua mensagem final na entrevista à TV Brasil: “Podemos errar, mas sempre pensando no melhor pra nós”. Esse “nós”, obviamente, não se refere à população brasileira.

 

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