Artigo

Diferentes oceanos, um mesmo continente: Salvador, Cali e a memória como estratégia de luta antirracista

É perceptível o quanto as expressões artísticas e demais elementos culturais são peças-chave na luta antirracista, seja na Bahia ou no Valle del Cauca

Passeata em Cali, durante o encontro Ubuntu. Foto: Alex Hercog
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Na partida de Salvador, a mala estava carregada de curiosidades e expectativas sobre a Colômbia. Mas só foi encher depois de colocar seis litros de dendê, dois quilos de feijão fradinho, um quilo de camarão seco e três quilos de farinha. Afinal de contas, a data de volta era incerta e é bom se prevenir.

A Colômbia de hoje traz novidades. Há cerca de um ano sua população elegeu pela primeira vez na história uma chapa de esquerda: Gustavo Petro, um ex-militante da guerrilha do M-19 nos anos 1980 e Francia Márquez, ativista dos direitos humanos e primeira vice-presidente negra do país. No entanto, alguns problemas são antigos. Em 2014, por exemplo, foram realizadas diversas rodadas de diálogos que resultaram em um “Acordo de Paz” em 2016, envolvendo o Estado colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), apesar de rechaçado em referendo. Já em 2023, diálogos semelhantes seguem se repetindo, como o que ocorreu na cidade de Buenaventura, com o governo buscando negociar a paz com os grupos Shottas e Espartanos, ligados ao tráfico de drogas.

A violência, portanto, segue fazendo parte do cotidiano dos colombianos e colombianas. O que não é diferente quando olhamos para Salvador. A capital baiana é uma das mais violentas do País e a Bahia tem hoje a polícia mais letal do Brasil, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2023. Entre 2010 e 2022, o número de mortes em operações policiais subiu 365%.

A disputa de facções ligadas ao narcotráfico também é sentida diariamente, apesar de quase sempre invisível aos olhos do poder público, exceto quando alcança bairros próximos da elite branca de Salvador, como o recente conflito que eclodiu nas comunidades do Alto das Pombas e Calabar, que virou pauta nacional e exigiu uma resposta do governador baiano.

Tanto na Colômbia quanto no Brasil, chamam a atenção a cor e a cara das vítimas da violência. Com um racismo ambiental que salta aos olhos, a costa colombiana banhada pelo Oceano Pacífico é o principal foco de tensão. A região, que concentra a maioria da população afro-colombiana, é visivelmente abandonada e precarizada pelo Estado, contrastando com a costa norte do país e outros departamentos mais centrais. Chocó, Valle del Cauca e Nariño são alguns dos departamentos estratégicos usados pela rota do narcotráfico, tornando sua população refém do conflito, que envolve grupos paramilitares, facções e guerrilheiros que rechaçaram os acordos de paz, além do próprio Estado e sua força policial.

De acordo com as Organizações das Nações Unidas, em 2021 houve um crescimento de 181% do deslocamento interno motivado pela violência na Colômbia, sendo que mais da metade dessas vítimas são indígenas e, sobretudo, negras. Na tentativa de fuga das áreas de conflito, ao longo de décadas, boa parte dessa população migrou para Cali, que hoje é a terceira maior cidade do país.

“Em Bogotá não existem negros”: essa é uma afirmação de um dos diálogos do filme Manos Sucias. Não é bem assim, mas quando se chega em Cali dá pra entender o que o personagem quis dizer. A cidade é considerada a segunda com maior população negra na América Latina, só ficando atrás de Salvador. Isso explica a sensação de proximidade entre as duas cidades: no tempero da comida, no sorriso das pessoas, nas cores das roupas, na efervescência cultural e na violência cotidiana, pelo Estado e para além dele.

Em Cali não existe cidade alta e cidade baixa, mas sua segregação territorial divide a sociedade em “estratos”, que separam, por exemplo, o centro frequentado por turistas e a parte chamada de “Oriente”, bairros populares predominantemente negros. Nessa região, fagulhas em toda a parte incendeiam o processo de resistência e fortalecimento cultural da população, com iniciativas que inspiram e aproximam a conexão com a luta antirracista no Brasil.

No Oriente de Cali está o distrito de Aguablanca, que concentra 30% da população da cidade. De acordo com a educadora popular Natalia Salazar Quiñones, a região é impactada pela segregação e pelo racismo estrutural “que reproduzem as condições de empobrecimento e impedem a juventude de estudar, trabalhar e trilhar seu próprio caminho, o que incrementa toda a violência social”. Segundo a educadora popular, “o racismo gera a impossibilidade de ser, de mover-se, de construírem a cidade”. Ela chama a atenção para “as fronteiras invisíveis”, zonas de disputa do narcotráfico onde as violências se acentuam e impedem o ir, vir e viver da população.

E é justamente em uma dessas “fronteiras” que se encontra a Casa Cultural El Chontaduro, uma associação que se descreve como “um ponto de encontro para a comunidade, um espaço coletivo para sonhar e construir um mundo diferente” e que, através da linguagem artística e outras manifestações, constrói ações junto às crianças, jovens e mulheres da região. “Nos motiva ver essa juventude entrando na universidade e ocupando espaços com uma atuação crítica”, comemora Natalia, que coordena a Escola Sociopolítica entre Mulheres de el Chontaduro.

“El pueblo no se rinde, carajo!” Assim bravejavam alegremente os jovens, adultos e crianças durante uma passeata que percorreu as ruas da comuna 13, partindo da sede da Casa Chontaduro, passando pela horta comunitária construída pela associação, pelo Centro para la Promoción y la Educación de la Economia Solidaria para el Distrito de Aguablanca, pela Escuela Artística Circo Teatro Capuchini e retornando ao colégio do bairro, onde acontecia o Ubuntu: IV Encuentro de Territorio – Agencias Comunitarias, Identidades y Sanaciones Colectivas.

Durante o encontro “Ubuntu”, não apenas o contexto das pessoas afrocolombianas vinha à tona, mas também da população indígena. Dentre as pessoas presentes no encontro estava Edy Serrano, que, entre um cochicho e outro, falava sobre suas origens e tradições e contava do seu processo migratório, que fez a família abandonar a região próxima à fronteira com a Venezuela para “fugir da guerra”.

Os colombianos e colombianas costumam se referir a “guerra” ou “conflito armado”, em vez de “violência urbana”, “violência policial”, “disputa de facções” ou outros termos usados no Brasil, onde a “guerra às drogas” é normalizada como política de Estado. Essa referência também traz outra peculiaridade à Colômbia, que é o debate racial atravessado muito mais pelos territórios de origem das pessoas do que pelo conceito de raça debatido no Brasil.

“Existe uma denominação dessas áreas como ‘território’, que entendo ser um problema, pois acaba unificando essas partes do país com uma marca da violência e retirando delas suas peculiaridades, suas construções de subjetividade, seu direito à memória e construção de suas próprias narrativas”, afirma a pesquisadora brasileira Munah Malek, que reside em Bogotá.

Essa diferença na autopercepção racial, quando comparada com o contexto brasileiro, reflete no próprio levantamento de dados que orientam políticas públicas. Munah destaca que recentemente dados oficiais apontaram um decréscimo da população negra na Colômbia, o que provocou a reação de movimentos que pediram uma recontagem. Segundo a pesquisadora, a ausência de dados impede que se revele a raça e o gênero das principais vítimas dos conflitos armados, enquanto é perceptível se tratar de um conflito étnico que vem exterminando as populações negras e indígenas.

Ainda de acordo com Munah, o assassinato de lideranças e as constantes migrações forçadas a que essa populações foram submetidas dificultam o processo de construção de memória, pertencimento territorial e fortalecimento cultural. Compreensível, portanto, que o resgate da memória e as expressões culturais e artísticas sejam armas importantes para os movimentos negros e indígenas, tanto na Colômbia, quanto no Brasil.

De acordo com a pesquisadora Bruna Hercog, “há uma atuação orgânica, entrelaçada, e os saberes são construídos no processo comunitário, na produção artística e comunicacional”. Essa análise é resultado de uma pesquisa desenvolvida pela jornalista baiana, Rumo às epistemologias das quebradas: iniciativas juvenis em Salvador e Cali (2022), que identificou diversas ações promovidas por organizações e coletivos das duas cidades. A La Hora 30, A Ritmo de Ladera, Museo Popular Siloé, Matamba Revista, Colectivo Mejoda e Alfombra Mágica são exemplos de coletivos que fazem brilhar a cidade colombiana.

Diante da diversidade de ações, é perceptível o quanto as expressões artísticas e demais elementos culturais são peças-chave na luta antirracista, seja na Bahia, seja no Valle del Cauca. Como elementos primordiais da cultura de qualquer povo estão a memória e os elementos do presente que ajudam a contar histórias que atravessam séculos e até oceanos. Exemplo de “tecnologia ancestral dos povos negros do Pacífico” é o Viche, como conta Maja, mulher negra, poeta, vichera, “comadre menora” e produtora cultural de Cali.

A bebida destilada, derivada da cana-de-açúcar, foi criada por negros escravizados e, num exemplo de exclusão e perseguição por viés racista, proibida até 2021, quando o Congresso colombiano aprovou um projeto de lei que reconhece o Viche como uma bebida ancestral, artesanal, tradicional e patrimônio coletivo das comunidades negras afrocolombianas da costa do Pacífico.

A ancestralidade e os fundamentos do viche conectam tempos e territórios distintos, cujo “processo de memória permite que a gente possa conhecer nossa história, entender de onde viemos, imaginar e criar outros mundos possíveis”, afirma Maja. Ela destaca que nos últimos anos na Colômbia tem sido comum a construção de monumentos e intervenções em espaços públicos como estratégia de luta. Tal como o Viche, esses “altares” contam uma história.

A poucas quadras da casa de Maja está um desses símbolos: o Monumento a la Resistencia, erguido pela própria população para reverenciar as manifestações populares que ocorreram em 2021, lembrar e homenagear as vítimas da repressão que resultou em dezenas de mortos e feridos. No bairro, antes batizado de Puerto Rellena e que hoje é conhecido como “Puerto Resistencia”, concentraram-se as principais mobilizações do “Paro Nacional” que sacudiu a Colômbia.

No entanto, tal como no Brasil, as esquerdas são atravessadas pelo racismo. Natália destaca que uma mobilização semelhante ocorreu em 2019 e, apesar dos esforços para pautar a luta antirracista, ela acabou invisibilizada. Nas eleições municipais seguintes, um candidato negro à prefeitura de Cali foi preterido pelo “Pacto Histórico” que elegeu Petro e Francia – de acodo com Natalia, “não queriam mais negros no poder”. Já Maja conta que o Monumento a la Resistencia trazia homenagem aos manifestantes mortos durante o Paro Nacional de 2021, mas era ausente a presença de ativistas negros e negras. Atento a isso, um grupo realizou uma intervenção no monumento, incluindo artes e fotografias de vítimas negras. Não demorou muito para essa inclusão ser vandalizada e retirada.

Quem também caiu durante o Paro e depois foi reerguido pelo governo foi a estátua de Sebastián de Belalcázar. O monumento que homenageava o invasor espanhol e fundador de Cali foi derrubado por indígenas da comunidade Misak. Sua restauração é uma forma de o governo local reafirmar a sua política colonial.

Interessante observar o quanto a disputa por elementos simbólicos é uma forma viva de luta, comunicação e resistência cultural. Nos monumentos erguidos e derrubados em Cali, no Viche produzido por Maja, nas expressões artísticas em el Chontaduro, na horta comunitária de Aguablanca, no museu popular em Siloé, no acarajé da baiana, no corpo, no cabelo e nas cores das pessoas em Salvador ou em Cali, lá estão as armas que mantêm vivos os povos do presente e do passado, que a continuidade do estado colonial insiste em exterminar. Em mais de cinco séculos tentando, nunca conseguiu. E se depender dos povos afro-indígenas brasileiros e colombianos, nunca irão conseguir.

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