Caso Lázaro: narrativas de policialescos encontram eco nas redes

Democratização da mídia e regulação das plataformas se tornam cada dia mais urgentes

Foto: Fabio Lima/Fotos Públicas.

Foto: Fabio Lima/Fotos Públicas.

Intervozes

“Se a polícia encontrar esse homem, acho que dificilmente esse homem aparece vivo. Não por vingança de ninguém, mas porque ele é incontrolável. (…) Nós estamos diante de um psicopata, de um doente mental que ninguém consegue parar”. A frase é de Luiz Bacci, apresentador do policialesco Cidade Alerta, da RecordTV, que já anunciava o desfecho que veríamos duas semanas depois.

Diferentemente de outros casos criminais acompanhados por programas como o Cidade Alerta, a transmissão quase em tempo real das incursões policiais para capturar Lázaro Barbosa foi acompanhada de uma cobertura paralela nas redes sociais. Policiais “tiktokers”, influenciadores digitais e curiosos ajudaram a ecoar os discursos sensacionalistas que clamavam por mais um “CPF cancelado”.

É certo que Lázaro cometeu crimes pelos quais deveria ter sido responsabilizado em vida. Não há dúvidas quanto a isso. No entanto, a sua morte está longe de representar uma operação policial bem sucedida. Pelo contrário, demonstra a falência do sistema carcerário e judiciário brasileiro, incapazes de ressocializar pessoas presas. Demonstra ainda a falência de políticas de segurança pública que são planejadas a partir da aniquilação do outro, do extermínio de um inimigo público.

 

 

Nesse sentido, é inegável o papel primordial que as mídias ocupam no reforço de narrativas e imaginários que invocam a insegurança, o risco iminente e o justiçamento enquanto resposta para atos criminosos. Ao lado de jornais e concessões públicas de rádio e TV, as grandes plataformas digitais também assumem um papel relevante ao lançarem mão de um modelo de negócio que favorece a disseminação desenfreada de desinformação e conteúdos sensacionalistas. Já falamos sobre isso neste blog.

Nas redes, as narrativas dos programas policialescos encontram eco e espaço para se multiplicarem livremente.

Um breve olhar sobre a cobertura do caso Lázaro Barbosa nos leva a refletir sobre a urgência da democratização da mídia e da regulação democrática das plataformas digitais, medidas importantes para frear a proliferação de discursos flagrantemente violadores de direitos humanos.

 

Sensacionalismo

“É um crime misterioso”, anunciava Reinaldo Gottino, apresentador do policialesco Balanço Geral, da RecordTV, na primeira abordagem sobre o caso. O assassinato da família Vidal começava a ganhar a repercussão, enquanto Cleonice Marques seguia desaparecida. Dias depois, ela seria encontrada morta e com sinais de violência sexual. Lázaro passou a ser qualificado como “maníaco”, “psicopata” e “serial killer”.

Repórteres percorrendo trilhas em meio às matas do Cerrado e entrando ao vivo ofegantes ajudaram a construir o clima de perseguição e perigo. Uma equipe do Brasil Urgente, comandado por Datena, chegou a fazer uma transmissão em meio a um tiroteio enquanto seguia os policiais nas buscas. O apresentador foi criticado por instigar a cobertura e colocar a equipe em risco.

Nas redes sociais, usuários deram um toque de reality show à operação. Em contato direto com as forças de segurança, eles entrevistaram policiais, tiraram selfies e se embrenharam na mata atrás de Lázaro. Um desses influenciadores foi tema de uma reportagem veiculada no SBT e enfatizou o crescimento de seguidores nos seus perfis nas redes sociais.

Em outra matéria, do portal UOL, administradores de um perfil de Ceilândia (DF) comentam que estão produzindo um documentário sobre a cobertura que fizeram. Orgulhosos do trabalho, eles contam os episódios em que ajudaram repórteres da grande mídia com equipamentos e repasse de informações, apuradas a partir da rede de contatos que conquistaram na região.

Nos conteúdos publicados no TikTok e no Instagram, a construção das forças de segurança enquanto “heróis” dava o tom da luta do bem contra o mal. Os próprios policiais se enxergavam assim, mesmo após a viralização de memes satirizando a operação. Em um vídeo que circulou na internet, os policiais fazem uma roda de oração e dizem que estão em “uma luta do bem contra o mal, onde nós temos certeza que o bem sempre vai vencer”. Pedem iluminação, misericórdia e encerram com um Pai Nosso.

 

Racismo e oportunismo

Outro ponto importante a ser destacado é o racismo presente nas coberturas sensacionalistas. Em reportagem sobre o caso, a Ponte Jornalismo conta que a partir de notícias que surgiram, não se sabe de onde e nem como, a polícia invadiu cerca de dez templos de religiões de matriz africana em Águas Lindas, Girassol, Cocalzinho e Edilândia. Com truculência, policiais militares destruíram altares e tiraram fotos no intuito de vincular o homem procurado às religiões. Termos como “satanismo”, “bruxaria” e “rituais” foram constantemente amplificados pela mídia. O portal G1 deu a seguinte manchete: “Fotos mostram que casa de Lázaro Barbosa, suspeito de chacina em Ceilândia, tem itens que indicam bruxaria e rituais, diz polícia”.

Em nota, a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana manifestou o seu repúdio às arbitrariedades e ao racismo explícito na ação. “Vincular a imagem de assassinos às casas e aos territórios de matriz africana é ato criminoso e digno de repulsa. Não se pode tolerar semelhante violência institucional contra qualquer religião ou povo. E mais criminoso ainda é constatar que agentes invadiram esses locais e abordaram autoridades religiosas e tradicionais de forma tirânica com emprego de força e violência”.

Também não faltou oportunismo de políticos que utilizaram o episódio para se promover. Seja por meio de redes sociais ou emissoras de rádio e TV, parlamentares fizeram coro à banalização da violência. Sargento Fahur, deputado federal pelo PSD-PR, defendeu na Rádio Massa FM, grupo de comunicação do apresentador e empresário Ratinho, a tortura e morte de Lázaro. “A morte, no caso dele, por tudo que ele aprontou, ela se torna pouca mesmo. (…) Tem que pegar ele lá no mato e dar um tratinho nele antes, explicar que ele fez coisas feias e, de fato, encaminhar ele para o Satanás”, diz, sob as risadas dos apresentadores do programa.

Em trajes militares e portando uma arma, a deputada federal Magda Moffato (PL-GO) publicou um vídeo em seu Instagram dentro de um helicóptero. “Te cuida, Lázaro. Se o Caiado não deu conta de te pegar, eu estou indo aí te pegar. Comandante, rumo pra Cocalzinho”, disse na gravação.

 

O desfecho

Na manhã do dia 28 de junho, começaram a circular os primeiros vídeos da captura de Lázaro Barbosa pelo WhatsApp. Rapidamente, as imagens foram publicadas em grandes portais. No canal do jornal O Globo, no YouTube, é possível assistir a um desses conteúdos. O corpo de Lázaro é retirado de uma caminhonete preta e jogado em uma ambulância. Os policiais comemoram e aos gritos de “acabou” são celebrados pela população que passava pelo local. A publicação tem mais de um milhão de visualizações. Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB-DF) destacou que a prática de divulgação de imagens e vídeos de pessoas mortas pode configurar crime, conforme o artigo 212 do Código Penal.

Por muito menos, conteúdos denunciando situações de violência foram retirados do ar pelo YouTube. É o caso da Ponte Jornalismo, por exemplo, que teve vídeos de denúncia da violência policial removidos e seus canais bloqueados por alegação de conteúdo violento, enquanto o Estadão pode manter as mesmas imagens em circulação. Quais são os critérios usados para definir o que pode ou não ser veiculado nas plataformas? Por que em alguns canais de notícias é permitida a veiculação de determinadas imagens e em outros não? A censura a veículos de comunicação contra-hegemônicos e a pouca transparência na política de moderação de conteúdo das plataformas digitais também já foram tema de artigo neste blog.

Até pouco tempo, o Grupo Globo era reticente quanto ao uso de imagens explícitas de violência. Mas isso vem mudando. Como já mostramos no Relatório Direito à Comunicação no Brasil, a estética dos programas policialescos chegou ao noticiário tradicional. No caso Lázaro Barbosa, programas de entretenimento, como Encontro com Fátima Bernardes e Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga, também participaram da cobertura.

Há tempos, o Intervozes e outras organizações da sociedade civil denunciam a ilegalidade no uso de concessões públicas para violar direitos humanos, como é o caso dos policialescos. Quando olhamos para o cenário de convergência midiática, com o surgimento de novos atores e o papel central que a comunicação passa a ocupar na vida contemporânea, esse trabalho se torna ainda mais complexo. A opacidade das plataformas digitais e a falta de transparência sobre o seu funcionamento facilitam o trabalho daqueles que usam a internet para disseminar desinformação e narrativas carregadas de revanchismo, contaminando a esfera pública.

O plano nunca foi prender Lázaro. Por meio das coberturas sensacionalistas, tanto na mídia tradicional quanto nos conteúdos publicados em redes sociais, fica nítido que o desejo por vingança superou, mais uma vez, o desejo por justiça. Com a morte de Lázaro, as investigações sobre uma possível rede de apoiadores e as motivações por trás de seus atos se tornam ainda mais difíceis.

Outros Lázaros surgirão. É o que costuma acontecer em países profundamente desiguais e violentos, como o Brasil. A nossa resposta, enquanto sociedade, será sempre executá-los?

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Gyssele Mendes é mestra em Comunicação pela UFF e integrante da Coordenação Executiva do Intervozes

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