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A mídia e os vazamentos da Lava Jato: tirando o foco do problema

A mídia brasileira perdeu a chance de fazer jornalismo e de discutir temas centrais ao seu exercício

Os vazamentos das conversas de Telegram entre o ex-juiz e ministro da Justiça Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros procuradores da Lava Jato, publicados pelo The Intercept Brasil, têm potencial para alterar os rumos do País, de forma que a repercussão na imprensa tem sido grande desde que vieram à tona, em 9 de junho. Mas tal repercussão também é exemplar do nível de parcialidade da mídia na cobertura deste importante episódio de nossa política.

O depoimento do ministro Sergio Moro, de quase nove horas de duração, à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, na semana passada, foi mais um exemplo da tradição midiática brasileira: enviesado, mas recoberto por uma aparência de imparcialidade. Seguindo a tendência apontada pelo Manchetômetro, desde o início dos vazamentos, a maior parte da imprensa tentou tratar o assunto de forma neutra ou ambivalente. Mas importantes grupos de comunicação como Estadão, Globo e Silvio Santos, em vez de se debruçarem sobre o conteúdo das conversas divulgadas, tem optado por reforçar a versão de que os vazamentos seriam fruto da atuação de “hackers criminosos”, tentando tirar sua legitimidade e tirando o foco do problema real em questão.

O Rato e o Rei

Um dos apoios mais indiscutíveis a Moro veio do SBT. Na terça-feira, dia 18 de junho, véspera da ida do ministro ao Senado, a emissora veiculou sua entrevista ao “Dois Dedos de Prosa”, quadro do Programa do Ratinho, uma das maiores audiências do canal. No programa de quase uma hora de duração, Moro foi descrito pelo apresentador como o “único herói brasileiro do momento”. Logo no começo da entrevista, Ratinho afirma que o ministro havia sido vítima de um “ataque criminoso de hackers”, o gancho de que Moro precisava para emplacar a narrativa do governo de que tudo não passa de um “ataque às instituições, orquestrado por um grupo criminoso organizado”.

Aos 3 minutos e 45 segundos de entrevista, Ratinho lança uma informação falsa em rede nacional, envolvendo o jornalista Glenn Greenwald, fundador do The Intercept Brasil, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) e o ex-deputado federal Jean Wyllys. “Eu tava lendo, não sei se é fake news, as pessoas mandam isso pra gente, eu não posso confirmar… Mas as pessoas dizem que está vinculado a um milionário russo, que deu dinheiro para um jornalista muito conhecido, muito famoso, internacional. Esse jornalista é namorado de um deputado, que comprou o mandato do deputado Jean Wyllys. Tudo isso eu recebi, não sei se é fake news, mas eu acho que é fake news… Eu recebi. Se for isso, é muito maior do que a gente pensa”, disse o apresentador.

Sem qualquer manifestação contrária à notória notícia falsa, Moro reafirmou a fala de Ratinho dizendo que, nos últimos dias, “ataques de contra-inteligência” estavam sendo postos em prática para despistar a opinião pública dos verdadeiros autores, apostando, mais uma vez, em teorias conspiratórias contra o governo Bolsonaro.

A conversa seguiu com Moro e Ratinho elencando medidas do governo que estariam “melhorando o Brasil”. E o apresentador concluiu fazendo um chamado para uma manifestação de rua marcada em apoio ao ministro e à Lava Jato.

O jornalismo sem contraditório

Na manhã seguinte ao depoimento no Senado, a versão impressa da Folha de S. Paulo trouxe na manchete de capa a fotografia de um Moro de sorriso envergonhado, como se tivesse sido pego com a boca na botija. Sob o título “Moro minimiza crise e admite sair em caso de irregularidade”, a matéria diz que Moro aceitou ir à CCJ para “esfriar a coleta de assinaturas para a criação de uma CPI para investigá-lo”. A Folha é um dos veículos que segue em uma cobertura mais crítica em relação às repostas oferecidas pelo ministro e pela força-tarefa da Lava Jato aos vazamentos. No domingo 23, o jornal deu início ao que chamou de uma série de reportagens com base nos arquivos do The Intercept Brasil, aos quais teve acesso. O jornal afirma que, ao analisar o material, não encontrou indícios de que ele possa ter sido adulterado.

A matéria da Folha veiculada no dia 20 traz trechos da fala do ministro da Justiça na CCJ, de depoimentos de senadores aliados e de questionamentos de senadores críticos ao ministro. Na reportagem, Moro questiona a veracidade das mensagens divulgadas e afirma não ver nada de anormal em seu conteúdo. O jornal, entretanto, também traz a notícia de que Moro cancelou sua participação em um evento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), após a associação publicar nota em defesa da liberdade de imprensa, repudiando os ataques sofridos pelo jornalista Glenn Greenwald e pela equipe do The Intercept Brasil e criticando a fala do ministro de que o site seria “aliado a hackers criminosos”.

 

Nos outros veículos monitorados pelo Intervozes, no entanto, a versão de Moro foi difundida sem qualquer questionamento. Em seus artigos de opinião, o jornal O Estado de S.Paulo tendeu a elevar Moro à condição de herói nacional. Sua cobertura sobre o depoimento à CCJ foi centrada nas aspas de Moro, muitas elevadas ao título das reportagens: “‘É um crime em andamento’, afirma Moro sobre ação de hackers que o desafiam”; “Moro cita artigo de professor de Harvard no Senado: ‘O incrível escândalo que encolheu’”; “‘Sou contra provas ilícitas de qualquer forma’, diz Moro”; e “Moro: ‘Sempre agi conforme a lei”. O ponto alto foi o texto intitulado “De ‘eu saio’ a ‘vaga no Supremo’: 10 frases de Moro na CCJ do Senado”, que destacou os pontos altos da fala do ex-juiz.

Na Globo, o Jornal Nacional da noite do dia 19 abriu com uma matéria de mais de oito minutos sobre o depoimento de Moro na CCJ. A primeira parte enfatizou a defesa do ministro de que a Lava Jato seria imparcial. Enquanto as revelações do The Intercept foram apresentadas aos telespectadores no condicional, as declarações de Moro foram reafirmadas pelos apresentadores da emissora. O trecho a seguir, em que a repórter introduz longa fala em que Moro apresenta números da Lava Jato, é exemplificativo: “O site The Intercept disse que as mensagens mostrariam que o então juiz Sergio Moro não teria sido imparcial na condução do processo que julgou e condenou o ex-presidente Lula, contrariando o que manda a Constituição. Moro diz que foi imparcial e citou números para provar que contrariou os procuradores em muitas decisões”.

O jornal também destacou a recuperação de 2,7 bilhões de reais da Petrobras pela Lava Jato, o que nunca esteve em questão nos vazamentos publicados. Em nenhum momento, como fizeram outros veículos, questionou se as orientações de Moro aos procuradores feitas via Telegram teriam de fato coincidido ou não com ações da Lava Jato.

Em seguida, a Globo enfatiza a versão de Moro de que o vazamento foi ação de hackers, com o objetivo de atrapalhar novas investigações da Lava Jato. Só ao final da reportagem, aos 9 minutos de telejornal, a âncora Renata Vasconcellos abriu espaço para um trecho, lido, da resposta do The Intercept: “o site afirma em suas publicações que recebeu as mensagens de uma fonte anônima”.

 

A mesma linha vem sendo adotada em outros veículos do grupo, como o portal G1 e o jornal O Globo. Neste, chama atenção a matéria “Moro diz que não há ‘adolescente com espinhas’ por trás de ataques de hackers: ‘É um grupo criminoso’”. Embora seja prática desaconselhável no jornalismo, a frase do ex-juiz ganhou o título da matéria, o que demonstra o viés do jornal em reforçar a história do hacker criminoso profissional.

Ainda na TV, o Jornal da Record destacou as falas em que Moro tenta provar que não interferiu na força-tarefa, que o conteúdo divulgado não configuraria ilegalidade e que poderia até deixar a função caso fossem observadas irregularidades em sua conduta. Também reforçou que os vazamentos seriam fruto de um “grupo criminoso estruturado” com objetivo de atacar a Lava Jato, o movimento anticorrupção e as instituições brasileiras. No dia seguinte (20), voltou a dar espaço à defesa de Moro, enfatizando que o ministro teria ganhado apoios depois das explicações ao Senado, entre eles o do general Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. O telejornal também trouxe entrevista com o presidente do Supremo Tribunal Federal, deixando a entender que Dias Toffoli também apoia a versão do ministro.

Ou seja, numa semana bastante quente para o jornalismo brasileiro, a cobertura dos principais veículos do País pendeu para as versões do governo sobre os vazamentos do início do mês, deslocando o assunto da gravidade do conteúdo divulgado para uma discussão sobre a veracidade das informações. Com raras exceções, a mídia brasileira, cada vez mais questionada, inclusive por parte do governo, perdeu a chance de fazer jornalismo e de discutir temas centrais ao seu exercício – como a liberdade de imprensa ou o direito ao sigilo das fontes. E, mais uma vez, tentou conduzir a “opinião pública” na direção favorável a seus interesses políticos e econômicos.

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