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Maconha além do benefício terapêutico: pelo direito de ficar chapado

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A defesa da legalização da maconha normalmente é fundamentada com argumentos que apontam para o fracasso da política de proibição e os inquestionáveis benefícios terapêuticos da cannabis para doenças como câncer e epilepsia. Mas existe um aspecto pouco explorado, que está diretamente relacionado com nossa liberdade, e merece mais atenção: legalizar é importante, pois todos têm o direito de ficar chapado.

Pode parecer um argumento tolo para quem não é usuário, mas este talvez seja o principal motivo que leve uma pessoa a usar drogas. A experimentação de estados alterados de consciência é o grande momento, que para muitos compensa eventuais efeitos colaterais indesejáveis.

O desejo de usar uma droga para desfrutar do “barato” que ela provoca não é, necessariamente, um caso de dependência. No caso da maconha, apenas 9% dos usuários desenvolve uma relação que pode ser classificada como abusiva, e vai precisar de algum tipo de ajuda médica. Para a grande maioria, o estado de chapação proporcionado pela cannabis não costuma provocar danos que afetam a parte da rotina que precisa ser levada em modo “careta”.

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Particularmente curto a forma com a maconha apura meus sentimentos. O prazer de ouvir uma boa música torna se ainda mais intenso. A capacidade de reflexão e organização de ideias torna-se mais eficiente. O prazer pela comida (a famosa larica), que faz aquele pão de ontem ser devorado como se fosse banquete cinco estrelas, é outro aspecto que proporciona grande satisfação. São prazeres que não consigo sentir quando estou “limpo”.

A legalização também é importante para permitir que todo adulto tenha o direito de desfrutar das situações listadas acima, da mesma forma o usuário de tabaco, uísque ou clonazepam aproveita os benefícios das respectivas drogas. Muda muita coisa quando é possível curtir este momento sem o medo de responder a um processo criminal pelo simples fato de buscar uma fuga temporária da realidade.

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Um pouco de história

O uso de drogas psicoativas não é uma invenção da era moderna. A descoberta de plantas que não servem apenas para satisfazer nossa demanda por calorias vem desde a época que o homem começou a caminhar por este planeta. A história da cannabis, dos cogumelos e outras plantas com efeito psicoativo está disponível nas mais antigas publicações da botânica. Em alguns casos eram classificadas como plantas que “estimulam a capacidade venérea”.

O que é recente é na história é o discurso médico-sanitário de patologização e condenação moral de estados alterados de consciência, principalmente quando provocado por drogas ilícitas. Esse movimento ganhou força no final do século 19 e veio atrelado a uma ideia de “medicina social”, que seria capaz de curar os desvios de comportamento do indivíduo. No Brasil, esta tese deu lastro para quem defendia a eugenia e o combate às doenças que seriam causadas pela miscigenação racial e os vícios por ela acarretados.

A tentativa de controlar os prazeres do corpo é mais uma desgraça para legado do proibicionismo. Esta questão não pode ser tratada de forma secundária já que, em boa parte dos casos de uso, a busca pelo prazer é o principal motivo que leva uma pessoa a se drogar. Se libertar de preconceitos e mergulhar no universo dos chapados é fundamental para elaborar uma política de drogas verdadeiramente preocupada com o bem-estar do cidadão.

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