Legalizou a maconha? Nem tudo deve ser permitido

Uma política de drogas que realmente se preocupe com a saúde dos brasileiros deve dialogar com os jovens

Legalizou a maconha? Nem tudo deve ser permitido

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por João Henriques // ilustração Felipe Navarro

O maconheiro costuma ser visto por parte da sociedade como aquela pessoa de comportamento subversivo. Curiosamente, a luta pela legalização da erva revela uma posição oposta a este perfil. Lutamos para que todo ciclo de produção e comércio da maconha tenha regras e seja tributado. Na prática, estamos pedindo para o Estado estabelecer o controle em algo que atualmente funciona de forma descontrolada.

Uma eventual legislação brasileira que acabe com a proibição da maconha deve ter mais artigos estabelecendo o que “não pode” do que normas dizendo o que é permitido para os usuários.

Uma das restrições mais óbvias é a fixação de um limite de idade para quem pode comprar maconha e a aplicação de penas para comerciantes que venderem a erva para menores. Neste aspecto, é quase certo que o corte será feito nos 18 anos, quando o cidadão brasileiro atinge a maioridade.

Mas é importante lembrar que aos 18 anos as ligações neurais do corpo humano ainda não estão totalmente finalizadas e uso de maconha ainda é desaconselhado nesta idade. Maconha não destrói neurônios, mas pode atrapalhar a formação destas conexões, que só são concluídas por volta dos 21 anos.

Uma política de drogas que realmente se preocupe com a saúde dos brasileiros deve dialogar com os jovens explicando que não se trata apenas de esperar a maioridade para permitir o uso da maconha.

Outro ponto que considero fundamental em um futuro com a maconha legalizada é a restrição a qualquer ação publicitária que promova e/ou estimule o uso da ganja. Mesmo que seja uma droga considerada leve, ela causa dependência em cerca de 9% dos usuários. Usar as técnicas de persuasão da publicidade para tentar vender algo que pode viciar o consumidor pelo resto da vida é uma covardia que a legislação precisa impedir.

Já avançamos neste aspecto com a proibição da publicidade do cigarro, mas as bebidas alcoólicas ainda são vendidas de forma glamourizada. Os principais eventos esportivos do planeta ainda são “orgulhosamente apresentados” por marcas de cerveja. Uma baita contradição: ao mesmo tempo que o atleta busca apresentar o melhor condicionamento físico, o torcedor, na arquibancada ou na frente da televisão, toma uma quantidade exagerada de bebida alcoólica.

Erva prensada e mofada nunca mais

Como já foi abordado no início deste texto, a luta pela legalização é um desejo dos maconheiros por mais controle no mercado de cannabis. Outro ponto fundamental é adoção de mecanismos que garantam que o consumidor tenha acesso a uma maconha livre de impurezas que possam prejudicar a saúde.

Não é exagero dizer que o brasileiro fuma a pior maconha do mundo. A prensagem que é feita por narcotraficantes ocorre sem nenhuma preocupação com a degradação que aquele produto vai sofrer antes de chegar na mão do usuário. Embalada ainda úmida e armazenada por meses, a erva entra em um processo natural de apodrecimento. Também não existe um cuidado de retirar galhos, insetos e outras impurezas durante este empacotamento.

Nas bocas de fumo, o que era uma flor verde chega com a cor marrom ou preta e um cheiro dominante de amônia (que se forma neste processo de degradação da planta). Tudo isso torna a queima do baseado mais nociva do que deveria ser e ainda desqualifica este produto para qualquer aplicação medicinal. A Vigilância Sanitária deve garantir que produtos assim sejam banidos do mercado legalizado.

A luta pela legalização não termina quando uma eventual lei que acabe com a proibição for sancionada pelo presidente. Superada esta fase, ainda teremos outras disputas políticas pela definição de regras do mercado que será criado.

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