Fashion Revolution

Relatório revela avanços modestos da moda brasileira em responsabilidade ambiental

Eventos climáticos extremos e marcadores de desmatamento alarmantes não foram suficientes para gerar compromissos de transparência e circularidade

Quase metade das marcas (48%) marcaram menos de 10% no quesito transparência, com 16 não marcando ponto algum. (Foto: Arturo Rey / Unsplash)
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Apesar de ser responsável por 4% das emissões de gases do efeito estufa, o setor da moda tem se mostrado pouco comprometido com metas ambientais. É o que mostra o Índice de Transparência na Moda Brasil (ITMB) 2023, do Instituto Fashion Revolution. Ao analisar as 60 maiores marcas de moda que atuam no Brasil, o relatório expõe a falta de transparência e de iniciativas para conter a superprodução e criar alternativas circulares.

Houve avanços, é necessário reconhecer. Pela primeira vez desde o início do levantamento, em 2018, seis marcas, representando 10% do total, ultrapassaram a marca dos 60% na pontuação disponível. São elas: C&A, Malwee, Dafiti, Renner, Youcom e Havaianas. Nas edições passadas, apenas uma ou duas marcas atingiam este patamar.

Em termos de transparência, contudo, ainda estamos engatinhando, com esforços mínimos ou inexistentes. Quase metade das marcas (48%) marcaram menos de 10% neste quesito, com 16 não marcando ponto algum. São elas: Besni, Brooksfield, Carmen Steffens, Cia. Marítima, Colcci, Di Santinni, Dumond, Fórum, Havan, Leader, Lojas Avenida, Lojas Pompéia, Marisol, Moleca, Sawary e TNG.

O relatório aponta ainda uma lacuna significativa nas marcas de melhor desempenho, que carecem de clareza em questões cruciais como superprodução, resíduos, uso de água e produtos químicos e desmatamento.

A produção de algodão, a principal fibra natural utilizada na moda, está diretamente ligada ao desmatamento do Cerrado que, em 2023, teve 494 mil hectares de vegetação nativa convertida em áreas do agronegócio. Em época de COP28, a principal conferência mundial do clima, produtores brasileiros de algodão recebem homenagem na Times Square, em Nova York. O slogan “nossa fibra veste o mundo” é totalmente descolado da realidade dos impactos sociais e ambientais.

São diversos os estudos que relatam a destruição ambiental – como a morte de 100 milhões de abelhas – e o aumento de casos de câncer em regiões de produção de algodão. O ITMB aponta que apenas 10% das marcas publicam um compromisso mensurável para o desmatamento zero, e apenas 2% publicam seu progresso para alcançar essa meta.

O relatório também evidencia o greenwashing sob o selo BCI (Better Cotton Initiative): “quase todo algodão brasileiro produzido em larga escala é vendido como ‘responsável’ […] esse algodão padrão BCI não elimina agrotóxicos, sementes transgênicas e nem reduz desigualdades sociais”. Apenas 8% das empresas analisadas divulgam evidências de implantação de práticas regenerativas em uma ou mais fontes de matéria-prima de sua cadeia.

Não há espaço para o setor da moda seguir fingindo que não vivemos em uma realidade de crise climática e que ele é um dos seus principais causadores. E, definitivamente, não há espaço para marcas escolherem deliberadamente não serem transparentes sobre sua cadeia de fornecimento.

Menos superprodução, mais circularidade

Outro ponto destacado pelo relatório são os dados de resíduos e superprodução. As marcas estão mais transparentes sobre a quantidade de itens que produzem anualmente, mas ainda divulgam poucas informações sobre os resíduos que geram. Nesta edição, 80% das empresas não divulgaram dados sobre resíduos de pré-produção, como sobras de tecido, e 83% não divulgaram de pós-produção, como estoque excedente e peças com defeitos.

Os recursos são finitos, mas a indústria da moda continua se expandindo, com projeção de aumento de 63% do consumo global de roupas até 2030. Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, escreve no ITMB que “é vital evoluir da mentalidade de ‘fast fashion’ para uma abordagem de durabilidade e regeneração”. De fato, a saída para a superprodução já existe – e de diversas formas.

Iniciativas circulares estão aí para testar a viabilidade de criar peças mais duradouras, ou que não terminem em aterros. Como exemplo, temos o Banco de Tecidos, marcas que utilizam do upcycling, como a Think Blue, e que tentam melhorar a rastreabilidade por meio da tecnologia de blockchain, como o Instituto Alinha.

É necessário o apoio de leis para que essas práticas se tornem mais financeiramente atrativas e outras, mais danosas ao meio ambiente, como, por exemplo, o uso de poliéster – cuja matéria-prima é o petróleo – sejam desestimuladas, por meio de corte de subsídios e adição de taxas. Na Europa, a circularidade já integra alguns projetos de lei. Em um comunicado, a União Europeia destaca sua posição de reverter a superprodução e o consumo excessivo de roupas, “tirando o fast fashion de moda”.

No Brasil, enquanto apenas 16 marcas publicam seu progresso anual na busca por materiais mais sustentáveis, divulgando o percentual utilizado de tecidos reciclados, reaproveitados, orgânicos, o Projeto de Lei 00270/2022 circula na Câmara dos Deputados.

Sendo a primeira proposta em âmbito nacional de regulamentar o descarte têxtil, o projeto tem como objetivo o retorno dos resíduos ao setor empresarial, para reinserção por meio das reciclagens mecânica e química, a destinação a núcleos de artesanato ou por fim, e menos desejável, a incineração.

Em agosto, ele foi reaberto para emendas, mas é um começo (enfim) promissor. Atualmente, apenas 7,2% dos materiais usados são reciclados e retornam à economia, sendo que, quando o assunto é resíduo têxtil, esse valor cai para 1%.

O decrescimento, outra ferramenta essencial para a indústria da moda, também segue amplamente esquecida. A temática foi abordada pelo ITMB pela primeira vez nesta edição, pois, segundo o relatório, “é um modelo de saída do ciclo produtivista, a partir da diminuição do consumo de recursos naturais e de energia, para responder às restrições e à capacidade de renovação dos ecossistemas”. Nenhuma das 60 marcas divulga um compromisso com o decrescimento.

Sem práticas de rastreabilidade, mensuração de impactos socioambientais, e planos de ação, a indústria da moda segue falhando em encontrar alternativas para sua sobrevivência. O ITMB é apenas uma de diversas iniciativas que cobram posicionamentos claros e práticas mais sustentáveis das empresas e, em mais um ano, pouco é entregue.

Em uma realidade em que a crise climática invade casas com inundações, secas e fogo históricos, a indústria precisa conhecer sua responsabilidade no caos e criar compromissos reais para, muito mais que pontuar neste relatório, criar saídas para nosso futuro.

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