O branco não é a norma: moda étnica para quem?

'Por que uma mulher de chinelos e um homem de dreads serão perseguidos em uma loja, se negros; e considerados cool, se brancos?'

Imagem: Unsplash

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Fashion Revolution

Por Ana Fernanda*

Quem é da moda, sabe: o povo adora uma peça com “pegada étnica”.

É um tal de quimono pra lá, franjas pra cá, estampas “inspiradas” na “África” e grafismos “indígenas” pra ninguém botar defeito. E dá-lhe pena, sisal e miçanga – tudo com o maior respeito à diversidade. Afinal, cultura integra esse conceito mais amplo de desenvolvimento sustentável, não é? (contém ironia)

Eu tenho um cabelo que, aqui e ali, é chamado de “exótico” (mas podemos chamar apenas de crespo, que tá bem definido) e moro em Salvador, um lugar super “cultural”, com forte “pegada étnica” e digo a vocês: não é assim que funciona.

A palavra étnico vem da etnia. Alguns significados que a gente encontra nos dicionários da vida são “Relativo a determinada população, ao povo. Próprio de um povo, geralmente de um grupo social, com uma cultura específica”. E aí é que tá o xis da questão: se eu assumo que determinadas peças-estampas-acessórios são “étnicos”, eu estou dizendo que os outros itens… não o são. É como se só o que levasse esse carimbo étnico representasse a cultura de um povo, enquanto as demais manifestações da moda também não tivessem uma cultura por trás, a sustentando. Elas não seriam culturais, elas seriam “normais” – o padrão da humanidade.

Ninguém chama calça jeans de étnica, né? Mas basta cinco minutos de Google pra gente situar a origem da peça, que se popularizou pela durabilidade e resistência, ótimo como roupa de trabalho. Mas meus exemplos preferidos ainda são os tipos de xadrez: O xadrez príncipe de galés já entrega a origem escocesa no próprio nome, já o vichy tem exatamente o nome da cidade francesa que o popularizou – mas não veremos modelos com looks nessas estampas sob o título “pegada étnica nesse verão” – com exceção, talvez, do xadrez tipo madras, de origem indiana.

Mesmo quando obviamente localizado em um povo e em um lugar, o xadrez não é étnico por um motivo simples: étnicos são os outros. A moda ainda fala de um lugar colonizador, que se assume como centro, enquanto decide que todo o resto é margem e, portanto, étnico, cultural, exótico. Meu cabelo não é étnico pelo volume e textura, mas pelo tanto que se distancia da norma do cabelo liso. E a ideia de respeito à diversidade cultural na moda, adivinhem, passa por incluir elementos – estampas, matérias primas, cores – na prateleira étnica. Sai bonito na foto e, melhor ainda, não mexe na estrutura de poder.

Todas as culturas são iguais, mas – “A maioria das pessoas está propensa a acreditar que é o centro do mundo, e que sua cultura é o sustentáculo da história humana”. E nem sou eu quem está dizendo, é Yuval Noah Harari, em “21 lições para o século 21”. O problema é que, quando combinados com a posse dos meios de produção, o que poderia ser apenas uma tendência humana se torna franca injustiça que esmaga narrativas e cosmovisões, espolia e mata. Em 2020, ser antirracista não é riscar um tribal no braço. É também reconhecer a violência de não reconhecer a possibilidade de outras belezas e formas de vida para além do étnico e do exotismo.

E como essa nossa luta antirracista pode ganhar corpo na moda? Eu diria que, principalmente, desnaturalizando coisas que ainda tomamos como normais. Vamos fazer perguntas: Por que as passarelas da moda são dominadas por um determinado tipo de corpo e de beleza? Por que um determinado tipo étnico assina as coleções e outro pilota as máquinas de costura? Por que, quando há fiscalização contra o trabalho escravo, quem está lá morando e trabalhando no mesmo lugar, com dívidas por servidão, são pessoas não-brancas? E por que, quando alguém contra tudo e contra todos consegue ir contra isso tudo, ele é sempre usado como aquela exceção que confirma a regra?

Por que uma mulher de chinelos e um homem de dreads serão perseguidos pelos seguranças em uma loja, se negros; e considerados cool, se brancos?

Uma moda afrocentrada é preciso. Que traga os criadores negros para dividir o centro, que dê conta da diversidade da diáspora dos povos e reflita a diversidade do continente. Que traga novas pautas para a moda além do apelo ao exótico, que fale sim da violência mas nos inunde também da esperança de outras formas de ver o mundo já que, ao que tudo indica, o que construímos aqui como sociedade ocidental tem sérias limitações para promover a equidade e a justiça social. No mês da consciência negra, esse é o meu desejo e, por que não, o meu convite.

*É jornalista (FACOM/UFBA 2001), mestre em estudos multidisciplinares da cultura (FACOM/UFBA 2010). É empreendedora e articuladora do Coletivo Justa Moda, representante Fashion Revolution em Salvador e membro do Comitê Racial do Fashion Revolution.

 

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