Religião não é sinônimo de alienação: é hora de agir com coerência

'Posturas absolutistas e intolerantes têm gerado indignação e rejeição', analisa Magali Cunha

Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Diálogos da Fé

Nesta reta final das eleições municipais no Brasil o tema “religião” garante lugar destacado nos debates. Afinal, há candidatos/as em forte disputa para prefeituras de capitais atrelados a uma identidade religiosa ou apoiados por grupos religiosos expressivos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia. São 12.689 os/as candidatos/as registradas/os no Tribunal Superior Eleitoral com alguma referência religiosa no nome de urna, um aumento de quase 25% neste recurso de campanha em relação a 2016.

 

 

Isto significa muito e não pode ser desprezado ou demonizado (para usar uma linguagem religiosa) por meio de uma simples exposição de discordância de que grupos religiosos participem de processos políticos. Discordar faz parte do debate democrático mas rechaçar com a veemência que se identifica em declarações em mídias sociais nestes tempos eleitorais, é manifestação de intolerância que se revela um fundamentalismo às avessas, como já escrevi neste espaço.

É fato que posturas absolutistas e intolerantes de certos grupos e personagens cristãos com mais visibilidade no espaço público, na história recente do Brasil, têm gerado indignação e rejeição de significativa parcela de ativistas, em especial os da esquerda. No entanto, isto não pode ser balizador da compreensão do significado que as religiões têm na vida das pessoas que, por meio delas, cultivam sua fé em um ser ou em alguma coisa que está para além da razão humana. E com isso, essas pessoas de fé encontram um sentido para a vida.

Em geral, “religião” pode ser popularmente definida como o universo de crenças que envolvem o transcendente, aquilo que está para além do palpável e do concretamente experimentável pelos cinco sentidos do corpo, mas nunca sem relação com tudo isso. Daí a ideia geral que se tem de religião: as pessoas estarem voltadas para a crença em um ou mais seres divinos, superiores, em espíritos, seres sobrenaturais, e na vida para além da morte, sempre estruturando o presente.

O estudioso da religião Otto Maduro define religião como “uma estrutura de discursos e práticas comuns a um grupo social referentes a algumas forças (personificadas ou não, múltiplas ou unificadas) tidas pelos crentes com anteriores e superiores ao seu ambiente natural e social”.

Nesse sentido, “religião” deve ser compreendida de forma ampla, em sua universalidade, levando-se em conta a diversidade de formas particulares, relacionadas a crenças, mitos, ritos e organizações coletivas, dentro de contextos sociais, culturais e históricos específicos. Este sistema comum de crenças é social, cultural e historicamente construído a partir de grandes narrativas, que movem a sociedade com força que vai além do que a lógica materializadora diz.

É por isso que é necessário, muito especialmente neste momento da história, assumir que as religiões, não só o Cristianismo, têm uma função de sustentação da vida, na forma como o Brasil foi estruturado. É imprescindível também admitir que não há apenas um papel para a religião. Ela tem papéis plurais, que passam por ordenação da vida e terapia para as suas mazelas e vazios, e, também, por repressão e restrições na forma de viver, existir e coexistir. Por isso as representações da religião são cheias de ambiguidades.

 

Há a articulação de grupos religiosos para influenciarem nos diferentes espaços da vida pública

 

Por exemplo, uma questão é que esta sustentação da vida foi percebida (de maneira estrondosa nos últimos tempos) como algo economicamente rentável pelos diferentes grupos religiosos. A multiplicidade de templos, movimentos e mídias religiosos é econômica e simbolicamente rentável.

Outra questão é a relação com o poder. Há a articulação de grupos religiosos para influenciarem nos diferentes espaços da vida pública, bem como a instrumentalização da religião por parte de indivíduos e grupos em nome do poder que visam alcançar ou manter.

Em entrevista concedida a uma pesquisa sobre o avanço dos fundamentalismos na América Latina, a teóloga católica Ivone Gebara reconheceu que estas ambiguidades podem ser fonte de crítica e rejeição da religião. No entanto, ela adverte que “a função que ela tem na sustentação da vida é o que se destaca. Isto se dá, em especial, nas periferias, onde a vida é dificílima, onde não se pode contar com ajuda dos governantes – periferias que até hoje não têm água, saneamento básico. A religião aparece como espécie de consolo dos oprimidos – ela é sempre consolo e como consolo se torna sustentação psíquica, emocional. Isto não pode ser perdido de vista em qualquer possibilidade de ação”.

É por isso que é preciso escapar, em temos eleitorais, de armadilhas discursivas como a equação “religião = alienação = exploração”. Estes elementos não são sinônimos. Se assim fosse, não teríamos personagens como o Mahatma Gandhi, os Pastores Martin Luther King e Jaime Wright, o bispo D. Helder Câmara, a educadora Eleny Guariba, a religiosa Dorothy Stang, a líder sindical de agricultores Margarida Alves, para citar alguns entre tantos outros homens e mulheres, que fizeram história na defesa da paz com justiça inspirados por seus vínculos religiosos.

Religião e alienação não são a mesma coisa. Religião e exploração também não. Como parte das ambiguidades que permeiam a dinâmica das religiões, alienação e exploração podem ser encontradas em várias experiências religiosas. Da mesma forma, compromisso com a vida, com a paz e a justiça também é encontrado. É por isso que não se pode desprezar e demonizar o lugar da religião no espaço público.

Fica como contribuição a esta reflexão, a indicação de algumas atitudes coerentes com esta realidade desafiadora:

1) Dialogar e aprender sobre o lugar da religião na sociedade, nas culturas, é muito relevante. Caso contrário, a religião continuará a ser instrumentalizada de forma muito eficaz por quem atua contra a vida, a paz e justiça.

2)  Reconhecer a ignorância que em geral se tem sobre a dinâmica que envolve as religiões, sobretudo a do cotidiano. Buscar compreensão e conhecimento. Aprender! Em exposição recente em evento virtual, o cientista político Joanildo Burity admitiu que, se por um lado, os movimentos religiosos de esquerda avançaram mais na compreensão do processo e das demandas políticas, por outro lado, os grupos não religiosos de esquerda não o fizeram devidamente quanto ao entendimento do lugar das religiões no espaço público.

3) Não cair nas armadilhas do discurso único de grupos e personagens da direita evangélica de que eles são “os evangélicos”. Isto significa ressaltar as ambiguidades e investir na visibilidade da pluralidade religiosa que envolve não só as múltiplas religiões, mas também no interior dos segmentos evangélico e católico.

4) Superar a ideia de que atuar na política é se candidatar a cargos eletivos tão só. Fazer política passa pelo institucional, mas também pelo que não é institucionalizado. Conhecer e dialogar com os múltiplos movimentos religiosos que atuam pela paz e a justiça. São ações pró-direito à vida em todas as suas dimensões, relacionados a mulheres, pessoas LGTBI+, negras, ao ambiente, à saúde, à moradia digna, entre tantos outros.

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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