Por que o sexo é um tabu tão terrível e escandaloso nas igrejas?

'Corpos livres, autônomos e conscientes de seus prazeres tornam os fiéis menos submissos'

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Diálogos da Fé

Recentemente, o debate sobre a abstinência como método de prevenção à gravidez precoce veio à tona com o PL 813/2019, do vereador Rinaldi Digilio (PSL/SP), ao propor o programa ”Eu escolhi esperar”.

Paralelamente, um PL parecido, de autoria da deputada estadual Letícia Aguiar (PSL/SP), tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo. Na Câmara Municipal de Vitória, um PL que institui o programa “Eu Escolhi Esperar” também tramita. Em Mogi das Cruzes (SP) tramita um PDL que institui a Criação da Frente Parlamentar Cristã em Defesa da Família.

A própria Ministra da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves, já propôs um programa federal baseado na promoção da abstinência sexual como método contraceptivo primário para evitar a gestação precoce e a proliferação de infecções sexualmente transmissíveis entre adolescentes.

Cientificamente, já está comprovado que esse tipo de política pública é ineficaz para os fins propostos, uma vez que não impacta no início da vida sexual de adolescentes. Mostrando que é mais eficaz orientar adolescentes sobre como funcionam seus corpos, sobre métodos contraceptivos e, principalmente, respeito aos seus corpos e aos corpos das outras pessoas, do que simplesmente incentivar o adiamento da vida sexual dos jovens.

Contudo, existe um efeito desse tipo de discurso que há séculos recai sobre os corpos das mulheres: a ausência de orgasmos. Dor, baixo autoestima e assistir homens tendo orgasmos, enquanto elas mesmas não se sentem satisfeitas é um dos efeitos desse tipo de discurso que moraliza e demoniza o sexo. Em 2017, o Projeto de Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo apresentou o dado de que quase metade das mulheres no Brasil não chegam ao orgasmo. Dado alarmante, mas nada surpreendente.

Esse discurso castrador sobre o sexo produz pessoas que não vivem suas sexualidades com plenitude. E tem se mostrado a cada dia um atentado contra os direitos sexuais de mulheres. A submissão a qualquer custo pregada em muitas igrejas faz com que mulheres se submetam a relacionamentos que não lhes satisfazem sexualmente e cria homens que aprendem sobre sexo com a indústria da objetificação da mulher. Isso é muito triste. Porque essas pessoas quando estão em suas vidas íntimas não estão sozinhas, estão com todo o discurso machista e demonizador junto consigo, bloqueando suas vidas e felicidade enquanto pessoas que fazem sexo. A pergunta que fica é: por que o sexo é um tabu tão terrível e escandaloso nas igrejas?

A resposta diz mais sobre controle dos fiéis, do que sobre santidade. Diz mais sobre moralismo, do que sobre respeito a Deus. Diz mais sobre medo, do que respeito. Você que é evangélico ou católico que lê esse texto, você já viu alguma pessoa ser punida na igreja por qualquer assunto que não fosse relacionado à sexualidade dela? O nome disso é controle, e controle principalmente sobre os corpos das mulheres.

 

 

Corpos livres, autônomos e conscientes de seus prazeres tornam os fiéis menos submissos. O patriarcado cristomachista tem medo do corpo das mulheres. Corpos que sangram e não morrem. Corpos que geram vida. Corpos que quando são livres, podem assustar homens e ameaçar seus poderes políticos e sociais. Assim, esse alerta que falamos há muito tempo dentro das igrejas por meio das teologias feministas, agora, deve ser feito dentro das casas legislativas. Pois, não é por acaso que todas essas leis e discursos moralizantes sobre o sexo e a família cristã estão invadindo os espaços legislativos. Com base em discursos moralistas, principalmente voltados para o corpo das adolescentes mais pobres, querem promover uma estrutura de poder que diz que a interdição do sexo, demonização e culpabilização das pessoas é o melhor caminho para garantir que não haja gestações precoces. Mas será que é disso mesmo que esses Projetos de Lei tratam?

O PL 813/2019 traz um dispositivo muito perigoso, que é permitir que Organizações Sociais façam o trabalho da promoção da abstinência sexual nas escolas e equipamentos de saúde. Direcionando recursos públicos para instituições que além de promover ações ineficazes em relação ao tema, podem prejudicar meninas e meninos com o reforço do Tabu do Sexo. E não se trata, aqui, de incentivar adolescentes a fazerem sexo, trata-se de observar os direitos sexuais e reprodutivos dessas pessoas que serão adultas um dia, mas que podem trazer marcas desse discurso que tem por objetivo promover o controle sobre seus corpos.

Um controle, que agora, pode ser promovido como política pública e ainda gerar recursos para organizações como o Instituto Eu Escolhi Esperar, uma organização de direito privado sem fins lucrativos que leva inclusive o mesmo nome dos PLs que estão pululando nas casas legislativas. E esse direcionamento de recursos para fora do Sistema Público de Saúde e Educação pode beneficiar a quem, senão essas lideranças religiosas fundamentalistas, ao ganharem poder político e financiamento público para seus projetos. Quero lembrar também que o PL 5435/20, que instituía a chamada bolsa estupro, proposto pelo Senador Eduardo Girão (PODEMOS;CE), também dispunha de um dispositivo que permitia que organizações sociais acolhesses jovens vítimas de estupro com o objetivo de convencê-las a não usifruirem do permissivo legal do aborto.

O que estamos assistindo, então, é um novo modus operandi fundametalista: propor projetos de lei que atentem contra direitos de mulheres e meninas e que ainda permitem que o dinheiro público financie organizações religiosas que defendem a moralização do sexo e o controle sobre os corpos das mulheres. Organizações essas que são dirigidas por pessoas como aquelas que gritaram assassina para uma menina de 10 anos, que era abusada desde os seis anos de idade.

Por fim, quero encerrar este texto com uma frase icônica das feministas dos anos 1960: o pessoal é político!

Iniciei o texto dizendo que quase metade das mulheres brasileiras não alcançam o orgasmo em suas relações sexuais, mas durante todo o texto discorri sobre como os fundamentalistas estão agindo nas casas legislativas. É nisso que digo que o pessoal é político, o modo como as mulheres vivem suas vidas e sexualidades, não é uma questão pessoal, apenas. Estamos há séculos oprimidas por acordos entre homens que querem manter o poder e controle.

Hoje, esse controle patriarcal está se reinventando por meio da atuação de políticos religiosos fundamentalistas que propõem Leis que nos prejudicam, que reforçam tabus sobre nossos corpos e sexualidades. Ainda mais, estão fortalecendo suas instituições religiosas por meio dessas leis. O pessoal é político, pois somos diretamente afetadas por esse projeto de poder que faz dos nossos corpos campo de acordos e negociações.

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Evangélica, cientista social, mestra em educação e doutoranda em antropologia. É da Rede de Mulheres Negras Evangélicas e articuladora da Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro

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