Diálogos da Fé

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O evangelho, as crianças e a Palestina

Que a grande parte dos evangélicos e evangélicas acordem desse sono profundo que paralisa a sensibilidade de “chorar com os que choram”

Crianças do grupo de brasileiros repatriados no lado egípcio da fronteira com Gaza. Foto MRE/Divulgação
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“Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo”

Mateus 18:5

Defender as crianças. Nos últimos anos, estudando o campo evangélico brasileiro, encontrei muito desse discurso entre os fundamentalistas religiosos de nosso meio: defender as crianças. A pauta da família tem sido uma forte bandeira entre o setor, mas tudo com base no terror do fantasma do comunismo que “vai acabar com sua família”, ou nas falácias da “ideologia de gênero”. Enquanto a direita instrumentaliza essa pauta, a esquerda não sabe muito bem como lidar com a temática que tanto dialoga com a classe trabalhadora, embora todos nós desejemos proteger a família, mas não um único modelo desta.

Desde pequena, na igreja evangélica pentecostal, ouvi que para entrar no Reino dos Céus devemos ser como crianças, e que é delas que Jesus sempre quis estar perto. O Evangelho de Mateus 18:1-5 valoriza as crianças e as coloca como eixo central na redenção divina, enquanto os discípulos discutiam quem era o maior, Jesus, com sua simplicidade, convida uma criança ao centro e ensina que se não nos assemelharmos a uma criança não entraremos no Reino dos Céus e que o maior é o menor; aprofunda e diz que aquele que recebe uma criança a Jesus o recebe. No texto de Marcos, essa ideia recebe um significado ainda maior, pois diz que “e quem me recebe, não está apenas me recebendo, mas também àquele que me enviou” (Marcos 9:37).

Me pergunto diariamente, desde o dia 7 de outubro, onde estão os evangélicos/as que tanto defendiam as crianças ou a família… O apoio de diversos setores cristãos ao massacre e genocídio que tem acontecido em Gaza reflete muito da teologia de morte que permeia as nossas igrejas cristãs, em que alguns corpos, algumas crianças, importam, outras já “fazem parte” da guerra.

Em nome de leituras descontextualizadas e literais das Escrituras, nas quais interpretam o Israel bíblico como o Estado moderno de Israel, criado em 1948, com base em muita violência contra o povo palestino desde então. Essa aliança teológica encontra ecos no imperialismo estadunidense, aliado aos poderes de Israel, que importa teologias nefastas ao Sul Global.

Bandeiras de Israel por todos os cantos, uma solidariedade e comoção seletivas… Segundo a UNICEF, mais de 5 mil crianças foram mortas na Palestina… Não há palavras para expressar o que tem acontecido no cotidiano da comunidade palestina, uma violência sem fim, que não tem início no dia 7 de outubro de 2023, mas sim, uma violência de décadas de exploração, colonização e apartheid aos olhos e com apoio das potências do Ocidente.

O fundamentalismo religioso brasileiro se embebeda no sangue derramado das vidas palestinas quando destila ódio e mentiras contra o povo palestino, contra as crianças que têm sofrido inúmeras violências e violações de seus direitos de simplesmente existir.

Que a grande parte dos evangélicos e evangélicas acordem desse sono profundo que paralisa a sensibilidade de “chorar com os que choram” (Romanos 12:15) e se mobilizem para a libertação dos oprimidos e oprimidas pelo Estado moderno de Israel. Me apego na profecia de Zacarias 8.4-5, parafraseada, em que velhinhos e velhinhas sentarão nas praças de uma Palestina Livre, e as praças ficarão cheias de meninos e meninas brincando, cantando e sorrindo a vida e a liberdade.

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