Novo livro de Djamila Ribeiro é uma aula para rever e mudar comportamentos

'Pequeno Manual Antirracista' é prático, é direto e contundente e aponta a necessidade de se engajar com urgência na luta contra o racismo

Djamila Ribeiro lança novo livro,

Djamila Ribeiro lança novo livro, "Pequeno Manual Antirracista" (Foto: Arquivo Pessoal)

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Desde que a máxima de Angela Davis tornou-se um hino repetido à exaustão por muita gente sem o mínimo de comprometimento com a causa, parecendo mais um eco a ressoar no imenso vácuo entre palavras e atitudes, uma pergunta passou a ser fundamental: “o que, de fato, cada um de nós tem feito e pode fazer pela luta antirracista?”

Em seu “Pequeno Manual Antirracista”, Djamila Ribeiro não só levanta a questão, como apresenta uma série de possibilidades práticas que ajudam a compreender a necessidade de se engajar com urgência nessa luta. Sabemos que muitas pessoas se arvoram em gritar que não são racistas, mas na realidade não sabem sequer o que é racismo. Há ainda os que repetem os velhos chavões, reforçando as estruturas e os mesmos lugares sociais para pessoas negras.

O livro é prático, é direto e contundente. Uma verdadeira aula de como rever e mudar comportamentos. A primeira dica é preciosa e indispensável: nunca entrar numa discussão sobre racismo dizendo “mas eu não sou racista”. Como revela a autora, “o que está em questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural.” Só atitudes podem mudar essa realidade. Portanto, é necessário que cada pessoa se questione sobre o que tem feito ativamente para combater o racismo.

É um livro que se destina aos que querem assumir a responsabilidade pela transformação da sociedade, aprofundando a percepção a respeito das discriminações estruturais e compreendendo a luta antirracista como um compromisso de todos nós. Para tanto, aprofundar os conceitos de negritude e branquitude, reconhecer os privilégios do grupo hegemônico e o racismo internalizado em cada um, bem como apoiar ações afirmativas na educação e no mercado de trabalho, é essencial.

O combate ao mito da democracia racial talvez seja o maior desafio dos brasileiros na luta antirracista. Escamoteando os conflitos entre negros e brancos, esse mito tem sido extremamente prejudicial e esvaziou consideravelmente as estratégias de combate ao racismo, uma vez que fazia parecer que as reivindicações do movimento não tinham sentido.

Djamila ressalta a importância de nomear as opressões, mostrando que reconhecer o racismo é a melhor forma de combate-lo. Quem trabalha com a questão racial sabe bem o incômodo que gera, mas não há outra maneira de empreender uma mudança social profunda a não ser enfrentando os privilégios que, de tão arraigados, chegam a ser confundidos com direitos.

Reprodução da capa do livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro

O racismo é um crime que consiste em não reconhecer a humanidade do outro, utilizando a cor da pele como justificativa para segregar e oprimir. “É importante ter em mente que para pensar soluções para uma realidade, devemos tirá-la da invisibilidade”, adverte Djamila. Aquele que diz não ver cor, na verdade reforça a cor definida como universal. Ser branco é ser normal, belo e aceito em qualquer lugar. Contudo, a ausência de pessoas negras em determinados espaços denota uma segregação silenciosa e quase nunca questionada, comprovando a eficiência das formas sutis (mas não menos violentas) de opressão.

Ao construir seus argumentos, a autora demonstra que mesmo não sendo deliberadamente violentos, alguns sujeitos, em razão de sua posição social de privilégio, têm suas ações marcadas pela violência. Portanto, não se trata de um debate individual, mas estrutural. Em síntese, “é impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista”.

Desigualdades precisam ser questionadas, pois o silêncio é cúmplice de todas as violências perpetradas contra a população afro-brasileira. Assistir passivamente a um episódio de discriminação, rir de piadas racistas, esquivar-se de responsabilidades, menosprezar produções culturais negras, não exercitar a empatia, tudo isso só contribui com um genocídio que segue em curso, já que deixar morrer é uma das principais tendências da necropolítica.

A associação da pessoa e da cultura negra a coisas negativas tem sua base no racismo científico, que difundia uma ideia de inferioridade biológica. Isso explica as estratégias de branqueamento da população brasileira implementadas pelo Estado, sob a justificativa de que os componentes negros representavam o atraso. É possível, porém, que essa tentativa de eliminação no fundo comprove que o “racismo conhece o potencial transformador da potente voz de grupos historicamente silenciados”.

A norma é branca e tudo que difere é considerado ruim. Quando pessoas brancas compreendem os mecanismos por meio dos quais o racismo opera, correm menos risco de reproduzi-los. Ter amigos negros ou relacionar-se afetivamente com pessoas negras, ter pais ou filhos negros não significa ter uma consciência antirracista. Muitos usam essas pessoas como defesa quando protagonizam alguma situação racista em vez de questionar as próprias ações.

O “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, é um grande livro: oportuno, necessário, urgente. Chega para preencher o vácuo que o senso comum sempre ampliou ao lançar as discussões sobre discriminação racial para a esfera da invisibilidade. O racismo é uma realidade que precisa ser assumida e combatida com ações práticas. Ao provocar a reflexão, a autora estimula o questionamento e o autoconhecimento e fornece um conteúdo que, se não esgota, imprime de forma original os argumentos que devem transformar o debate sobre as relações raciais no Brasil.

 

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Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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