Notas preliminares sobre religião nas eleições 2020

Pleito municipal apresentou como novidade a articulação efetiva de campanha de evangélicos e católicos de esquerda

FOTO: FABIO RODRIGUES POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL

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Diálogos da Fé

Terminado o primeiro turno das eleições, já são muitas as considerações e análises sobre o que representou o processo eletivo para prefeituras e câmaras municipais no contexto político em que o Brasil está imerso.

 

 

Compartilho anotações preliminares sobre o lugar da religião nas campanhas, pois ainda há muito o que estudar para interpretar além dos números referentes a eleitos/as, o desempenho de partidos e a escolha de eleitores/as. Estas notas resultam de reflexões coletivas da equipe de pesquisa sobre o tema do Instituto de Estudos de Religião (ISER), da qual sou integrante.

Quando relacionamos religião e política, a primeira imagem a que se recorre é a da influência dos evangélicos. De fato, o grupo religioso tem sido protagonista de processos eleitorais e não eleitorais na arena política nacional nas duas décadas dos anos 2.000 e isso é confirmado pelos números.

Por exemplo, no pleito de 2020, dos 311 candidatos/as às prefeituras de capitais do País, 67 (21,5%) expuseram sua identidade religiosa em nome de urna, em campanha e/ou em declarações públicas. Dos que se identificaram desta forma, 39 são evangélicos (58,2%), 13 católicos (19,4%), nove se apresentam apenas como “cristãos” (13,5%), dois espíritas (3%), um judeu (1,5%). Ou seja, mais da metade de candidatos à prefeituras que acionaram sua identidade religiosa em campanha é evangélico.

No entanto, os dados não significam bom desempenho de evangélicos candidatos a prefeito/a nas urnas: um foi reeleito em primeiro turno (Marquinhos Trad, de Campo Grande/MS, da Igreja Evangélica Atos de Justiça) mas apenas sete conquistaram vaga para um segundo turno (Belém, Cuiabá, Fortaleza, Goiânia, Maceió, Manaus, Rio de Janeiro, descontada a cidade de Macapá/AP que teve as eleições adiadas por conta do apagão de energia elétrica). Nenhum dos que acionou o título de pastor ou pastora em campanha foi eleito/a.

Um elemento significativo, repetido exaustivamente nesta coluna, é que não devemos olhar “evangélicos” como um bloco monolítico. Candidatos identificados como evangélicos em campanha e/ou declarações públicas não necessariamente têm o apoio do segmento como um bloco em suas cidades, como muitas vezes se faz crer. As chamadas “grandes corporações religiosas”, as igrejas que têm projeto de ocupação da arena política, como as Assembleias de Deus (ADs) e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e as denominações ancoradas em líderes midiáticos, como as de Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), R. R. Soares (Internacional da Graça de Deus), Robson Rodovalho (Sara a Nossa Terra), entre as de outros missionários, bispos e apóstolos, agem de acordo com projetos políticos específicos.

Fortes exemplos foram as disputas em primeiro turno de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os dois grandes ramos das ADs (Belém e Madureira) apoiaram publicamente o candidato Bruno Covas (PSDB), que nada tem de religioso, e não o candidato da IURD e do presidente da República Jair Bolsonaro, identificado como “candidato dos evangélicos”, Celso Russomano (Republicanos).

No Rio, as ADs não declararam apoio a Marcelo Crivella (Republicanos), candidato da IURD e de Bolsonaro, que recorreu a líderes midiáticos para reforçar a campanha que esteve em perigo, mas não contou com Silas Malafaia, por conta do histórico desafeto com a IURD. Neste caso, não se deve atribuir tão só a evangélicos a sobrevivência de Crivella no pleito, como se observa em algumas análises. Ele ganhou fôlego com a articulação religiosa de apoio à reta final da campanha, sim, mas é preciso observar o peso dos votos que recebeu na zona oeste, região da cidade fortemente dominada pela máfia (eufemisticamente chamada “milícia”), que pressiona moradores e comerciantes por votos a governantes que favorecem suas ações.

Porto Velho/RO, uma cidade que tem revelado força política de evangélicos, é outro exemplo interessante da não unidade do segmento na política, com a divisão geral das Assembleias de Deus em torno de três candidatos: dois do Ministério Madureira e um do Ministério Belém.

 

Não existe o chamado “voto evangélico”

 

Importa ainda destacar que candidatos evangélicos a prefeituras, monitorados pela pesquisa do ISER, fizeram pouco apelo religioso na comunicação com eleitores, como uso de textos da Bíblia e do nome de Deus em discursos e promessas de campanha. A exceção de Marcelo Crivella e Joice Hasselmann (PSL, São Paulo), que foram os que mais fizeram uso de linguagem religiosa, percebeu-se mais preocupação dos candidatos em discutir questões dos municípios, do cotidiano das populações. O maior acionamento de pautas morais em torno da sexualidade, da defesa da família tradicional, da segurança pública, contra a corrupção e anti-esquerda, foi feito por quem estava em baixa na campanha – os dois citados acima e candidatos com fraco desempenho nas pesquisas.

Todos estes elementos relacionados à presença de evangélicos no processo eleitoral reforçam a ideia de que não existe o chamado “voto evangélico”. Evangélicos não são homogêneos, lideranças fazem campanha de acordo com interesses muito específicos e podem não apoiar candidatos com identidade religiosa. Eleitores vinculados ao segmento, por seu lado, no momento da urna, não escolhem apenas por identidade religiosa, mas também por afinidade ideológica correspondente a certas religiosidades e outros fatores para além da fé.

Nas capitais, além das 67 candidaturas a prefeito/a que acionaram identidade religiosa, houve também 19 vices que estão nesta categoria, sendo 14 evangélicos, dois católicos e três autodenominados apenas “cristãos”. Um desses católicos declarados é Ricardo Nunes (MDB), como vice de Bruno Covas em São Paulo, que já vem atuando na Câmara Municipal como vereador que obstaculiza pautas relacionadas a direitos e temas que envolvem sexualidade. A outra é a Tenente-Coronel católica Andréa Firmo (Republicanos) da chapa de Marcelo Crivella no Rio.

A aliança de católicos com evangélicos no campo da direita política reflete uma característica dos fundamentalismos político-religiosos que é a convergência de propósitos que une grupos historicamente opostos no campo religioso. A pauta anti-direitos de gênero na saúde e na educação, anti-esquerda e anti-movimentos sociais por direitos humanos, sexuais e reprodutivos tem sido fonte para esta convergência tanto no Congresso Nacional (frentes parlamentares católica e evangélica) e agora se revela como novidade no processo eleitoral. Além do Rio, Goiânia é exemplo importante, com a candidatura a prefeito do evangélico da Assembleia de Deus senador Vanderlan Cardoso (PSD) sendo coordenada pelo deputado federal Francisco Júnior (DEM), presidente da Frente Parlamentar Mista Católica Romana no Congresso.

A declaração “cristão”, uma forma genérica de não identificação com uma igreja específica, se soma à estratégia de ocupação da arena política. Ela tem sido elemento recorrente entre políticos desde 2018. No Congresso Nacional há vários integrantes das frentes religiosas evangélica e católica que assim se identificam. Entre candidatos a prefeitos/as das capitais são nove, com três a vice.

É preciso refletir ainda o sentido atribuído a esta identidade genérica. Como a expressiva maioria dos que fazem uso desta forma de exposição pertencem a partidos da direita e são bolsonaristas, uma possibilidade de compreensão remete à estratégia empreendida por Jair Bolsonaro que é católico e tem aliança com evangélicos desde a campanha.. A opção por uma identidade fluida no segmento cristão, religião majoritária no Brasil, retira a vinculação a um grupo específico e facilita alianças e campanhas com base no discurso fundamentalista de pautas morais contra inimigos da esquerda e de movimentos sociais que afeta católicos e evangélicos. Parece ser uma estratégia política e não uma identidade religiosa.

As eleições apresentaram como novidade a articulação efetiva de campanha de evangélicos e católicos de esquerda. Isto se deu para busca de maior ocupação das Câmaras Municipais, por meio de dois movimentos Bancada Evangélica Progressista e Cristãos contra o Fascismo. Os resultados ainda estão sob levantamento e avaliação.

Em relação a candidaturas a prefeito/a de capitais, aquelas que declaram identidade religiosa e pertencem a partidos de esquerda e centro-esquerda são sete (apenas 10%): três de evangélicos (PT, PSB e PDT), três de católicos (PT, PSB e PDT) e um de espírita (PCdoB). Isto indica a maciça vinculação de quem aciona uma identidade religiosa em candidaturas com a direita política.

A diversidade de aspectos levantados neste artigo se soma a outras análises e mostra o quanto é necessário ainda refletir sobre este complexo e dinâmico processo.

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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