Diálogos da Fé

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IR, evangélicos e os desafios da esquerda

Revogação da isenção fiscal concedida durante governo Bolsonaro fragiliza ainda mais relação do governo Lula com ala evangélica na política

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) junto à esposa Michelle e o pastor Silas Malafaia, no Reino Unido. Foto: Chip Somodevilla/POOL/AFP
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Na última semana, a Receita Federal do Brasil anunciou a revogação de um ato do presidente Jair Bolsoanaro que interpretava de forma favorável às igrejas as regras de isenção de imposto de renda. Essa decisão envolve uma discussão complexa sobre normativas fiscais e regras previdenciárias que vai além do almejado por este artigo. Cabe-nos, no entanto, notar que o episódio revela um dilema político significativo para o campo democrático, no geral, e a esquerda, em particular.

Após a divulgação dessa decisão, diversos líderes evangélicos rapidamente se mobilizaram para criticar o governo federal, alegando “perseguição contra os evangélicos”. É crucial notar, porém, que a medida não se limita aos evangélicos, mas abrange líderes religiosos de todas as denominações.

Pouco tempo depois, notícias davam conta da repercussão do caso entre religiosos, e a conclusão era unânime: pastores e bancada evangélica estariam inconformados e revoltados com o governo. A relação entre evangélicos e Lula, que já não era boa, ficou ainda mais prejudicada. É certo que uma parcela da esquerda não se importa com isso, pois tem nos evangélicos um dos seus principais antagonistas. Outra parcela, no entanto, se preocupa, consciente de que, sem um apoio maior dos evangélicos, o campo político progressista enfrenta uma dificuldade enorme, tanto eleitoral quanto em termos de mobilização social e política. Como consequência, já se ventila, inclusive, a revogação da mudança e o retorno da isenção fiscal aos religiosos.

Para os adeptos da real politik, o dilema que está subentendido e não verbalizado para o governo Lula é o seguinte: conceder benefícios pouco republicanos para religiosos, para uma mais que necessária aproximação com essa camada social, ou agir norteado pelo espírito público, negando privilégios a esse segmento?

Não nos cabe resolver ou sugerir caminhos para esse dilema. O ponto é que ele é revelador sobre o atual contexto político. É evidente é a necessidade de um diálogo construtivo com o segmento evangélico. A esquerda, sem estabelecer um diálogo eficaz, tem seu horizonte eleitoral e político fortemente limitado. Por outro lado, parte significativa dos líderes evangélicos se acostumaram com contrapartidas cada vez mais corporativistas e questionáveis do ponto de vista republicano.

Deveria ser óbvio que líderes religiosos, apesar da importância de suas funções, não deveriam receber tratamento especial do Estado. Da mesma forma, princípios religiosos não devem se sobrepor à Constituição nem ser usados por agentes do Estado para infringir direitos de qualquer grupo social. No mundo real, entretanto, em busca de alianças e votos, setores da direita brasileira descartaram o óbvio e se mostraram dispostos a negociar o inegociável.

Nesse estado de coisas, se aproximar de uma fatia maior dos evangélicos vai se tornando mais difícil para o governo – e por extensão, para o campo da esquerda. Ainda assim, essa continua a ser uma das principais tarefas desse campo político nos tempos atuais. Há que se encontrar força e disposição para cumpri-la, ainda que com tantas dificuldades.

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