Diálogos da Fé

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Igrejas, organizações e lideranças cristãs se unem pela paz justa e duradoura

Um documento, feito a convite do movimento Evangélicos pela Justiça, foi tornado público nesta semana

Créditos: Bryan R. Smith / AFP
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Um documento, assinado por 27 igrejas, organizações cristãs e afins seguido de 271 assinaturas de lideranças de diferentes igrejas cristãs (bispos, pastores, pastoras e membros de igrejas) e de apoiadores/as, a convite do movimento Evangélicos pela Justiça, foi tornado público nesta semana.

Os signatários declaram sua posição diante do conflito bélico entre Israel e Palestina, com a condenação dos ataques do Hamas contra civis israelenses e o repúdio ao abuso do direito à defesa pelo Estado de Israel, que passou a se configurar como limpeza étnica e genocídio. O texto apoia os esforços pelo fim do conflito e afirma o radical compromisso cristão com a paz justa e duradoura. Leia o texto na íntegra.

Declaração sobre o conflito na Palestina e em Israel

Diante da inegável escalada de mortes e destruição das condições de habitação e vida do povo palestino, decorrido um mês do início dos conflitos entre Israel e o Hamas, organizações, redes, comunidades, coletivos e lideranças de várias tradições do campo protestante e evangélico aqui subscritas, comprometidas com a defesa da justiça em todas as suas dimensões, vêm pronunciar-se pelo imediato fim do que se configura cada vez mais como um processo de limpeza étnica e genocídio.

Rejeitamos os ataques do Hamas contra civis israelenses e sentimos profundamente a morte de todas as pessoas que perderam suas vidas no início do conflito, bem como a situação degradante das que são mantidas reféns pelo Hamas. Também nos solidarizamos com parentes e amigos de todas essas pessoas. Embora não se possa dizer, de sã consciência, que se trata de um conflito imotivado, é certo que a ocasião e os métodos são injustificáveis na perspectiva do compromisso com a vida e com a paz justa, que assumimos como consequência direta de uma fé cristã seriamente referenciada no exemplo de Jesus de Nazaré. 

Também aqui marcamos posição de absoluto repúdio ao crescente e injustificado antissemitismo sofrido por pessoas e instituições da comunidade judaica em várias partes do mundo. 

Por outro lado, o direito à defesa, no caso de Israel, no sentido do direito internacional, já exorbitou em muito as proporções da agressão, acumulando-se a cada dia aos milhares o número de mortes na região de Gaza, especialmente de civis, inclusive grande proporção de crianças, mulheres e idosos. 

Sem falar no rastro de destruição de toda a infraestrutura necessária à vida comum na faixa de Gaza – o que reforça a conclusão de que se trata finalmente de uma punição coletiva, condenando a população local a um futuro incerto e calamitoso, na medida em que se perde a experiência, a força de trabalho, o cuidado e a semente do futuro se arrasa com o espaço vital de toda uma comunidade, deslocando milhares de modo forçado e deixando-as entregues à própria sorte. Isso é a definição de genocídio.

Questionamos seriamente a forma como muitas igrejas evangélicas têm sido levadas se posicionar sobre o conflito, na esteira de uma guinada conservadora que começou há aproximadamente uma década e que tem gerado uma insidiosa manipulação da opinião do povo evangélico em muitos temas. De um lado, o drama do sofrimento é admitido apenas de um lado, ignorando-se deliberadamente onde, desproporcionalmente, mais vidas têm sido ceifadas e mais vulnerável está a população civil. Coonesta-se, assim, um processo que, de defesa legítima contra um ataque, se tornou uma oportunidade de vingança indiscriminada. 

Como seguidores e seguidoras de Jesus Cristo podem ignorar ou mesmo justificar esta flagrante desproporção é simplesmente incompreensível e até ultrajante. De outro lado, se oferece uma interpretação forçada e claramente errônea do significado de Israel no registro bíblico, assimilando-o não somente ao povo judeu contemporâneo, mas ao próprio Estado de Israel e seu governo atual. Isto, para em seguida hipotecar incondicional apoio a todas as ações em nome de uma suposta obrigação de pessoas cristãs em “abençoar Israel”. 

Esta interpretação não é a que prevaleceu em grande parte da história da Igreja cristã, em todos os seus principais ramos – católico-romano, ortodoxo e protestante – e não tem amparo da melhor evidência produzida pela pesquisa histórica e teológica sobre o texto bíblico. 

Ampara-se quase exclusivamente em textos do Antigo Testamento, ignorando toda a crítica profética às violações da aliança com Deus expressas na idolatria, na injustiça e na violência da sociedade e do estado israelita. }Se distorce a reelaboração que se encontra, não apenas na atitude de João Batista e de Jesus, nos evangelhos, sobre seu próprio povo (conforme Mateus 3.7-9; 23.37; Lucas 13.22-30; João 8.31-59), como da primeira Igreja (conforme Atos 10.9-48; 15) e na rigorosa releitura do apóstolo Paulo sobre quem é o povo de Deus após o evento de Jesus crucificado e ressurreto, nas Cartas de 1 Coríntios (caps 1, 9, 12), Gálatas (caps 3 e 4) e Romanos (caps. 1-10).

A compreensão que resulta dessa leitura é que não podemos usar a figura bíblica da eleição de Israel para justificar quaisquer atos praticados em nome deste povo, quando pessoas inocentes continuam a ser mortas, deslocadas e privadas de condições mínimas de sobrevivência e vida digna, em represália aos ataques sofridos (os quais condenamos inequivocamente) por israelenses há um mês. 

A esse propósito vale lembrar o apelo e chamado ao arrependimento às igrejas cristãs, teólogos e teólogas do Ocidente por parte de irmãos e irmãs das igrejas cristãs na região, em carta aberta, em que denunciam o discurso colonial ainda em voga demonstrado no recurso a teologias e interpretações sionistas que justificam a guerra.

Reconhecendo, portanto, o seu chamado, e também em solidariedade com as perdas de vidas e materiais que atingem a própria comunidade cristã em Gaza, nos somamos às vozes das pessoas – inclusive muitos judeus – em muitos países, que têm denunciado o estado de coisas que se constituiu nas últimas semanas. Elas pedem o fim da guerra, a abertura de negociações para a tão repetida solução dos dois Estados, livres e soberanos, e a reconstrução das relações entre povos aparentados e que por séculos têm dividido esse território, simultânea ou alternadamente. 

Apoiamos os esforços de uma paz duradoura e justa, tão bem simbolizada pela harmoniosa convivência entre pessoas descendentes de Judeus e Árabes, muitas das quais procedentes da região da Palestina, e que aqui convivem bem e em paz. Conclamamos os organismos internacionais e o governo brasileiro a redobrar seus esforços para que a violência, o ódio e a injustiça tenham fim no presente conflito.

10 de novembro de 2023.

O documento é assinado pelas seguintes igrejas, organizações cristãs e afins:

Igreja Anglicana do Brasil, Igreja Batista em Coqueiral (Recife), i-NOVA: Igreja Nova, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Metodistas Confessantes, Nossa Igreja Brasileira, Pastoral Popular Luterana, Centro Brasileiro Ecumênico de Experiências Pastorais (CEBEP), Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) – Rio de Janeiro, Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, Com-Efe Comunicaciones, Cristãs e Cristãos contra o Fascismo Cristãs e Cristãos contra o Fascismo, Evangélicos pela Justiça, Evangélicxs Pela Diversidade, Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito,  Movimento Negro Evangélico,  Casa de Mima,  Centro de Defesa dos Direitos Humanos Pe. Josimo, Esperançar, Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Grupo de pesquisa Movimentos, Instituições e Culturas Evangélicas na Amazônia (MICEA), Laboratório de Estudos sobre Religião e Política (Laberp-Fundaj), Plataforma Intersecções, Mandato Federal do Deputado Pastor Henrique Vieira

Seguem mais 271 assinaturas de lideranças de diferentes igrejas cristãs (bispos, pastores, pastoras e membros de igrejas) e de apoiadores/as. O documento está aberto a novas assinaturas em https://forms.gle/tjwysSdP88yvUNgz9

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