Fundamentalismos e o debate público progressista

Não se deve homogeneizar os evangélicos. Muitos, como eu, são progressistas. Mas tampouco podemos igualar os fundamentalismos

(Foto: Anderson Riedel/PR)

(Foto: Anderson Riedel/PR)

Diálogos da Fé

Esse texto é fruto da minha experiência enquanto mulher negra, periférica, evangélica e de esquerda. Trago para a concretude da vida certos debates que a esquerda tem encarado como subjetivos. Ser mulher negra não é escolha, ser periférica não é escolha, ser evangélica não é escolha. Em meu contexto social, político e econômico, a única escolha que fiz, de fato, foi ser de esquerda.

Eu e milhões de pessoas encontramos na igreja um espaço seguro, de acolhimento, assistência, cultura, socialização. Durante as férias, mães deixam seus filhos nesses espaços; famintos encontram alimento; doentes encontram ajuda médica. A senhora desumanizada pelo capitalismo, que limpa o chão do Metrô, na igreja é a Dona Alice do bazar beneficente, a Dona Rosa do ciclo de oração. Na igreja, as pessoas têm um nome, pertença, humanidade.

Por isso eu gostaria de propor um novo olhar sobre a discussão do fundamentalismo, ou melhor, dos fundamentalismos. Os fundamentalismos não devem ser encarados apenas como um modo de pensar e agir religiosamente. Basicamente, o fundamentalismo é a imposição de uma obediência rigorosa e literal a um princípio — sem questionamento, sem debate, sem contraditório. Ao restringi-lo apenas à religião, sutilmente o entendemos como restrito à esfera subjetiva. Mas, na verdade, os fundamentalismos nessa onda bolsonarista têm se concretizado na vida de todos, especialmente entre mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+.

Discutir fundamentalismos, é entender que disfarçado sob pautas morais e de costumes, os fundamentalismos educam toda uma população a ser dócil ao caos e à opressão. Entretanto, essa docilidade é também vem disfarçada de humanização, de cuidado, carinho e assistência.

Eu mesma, me apaixonei pela retórica na Igreja. Achava, e ainda acho, linda uma pregação biblicamente fundamentada. E não teria acesso à difícil filosofia paulina se não fosse a igreja. Talvez não me apaixonaria pelas letras, se não fosse a igreja. Eu não escolhi ser evangélica. Ser evangélica me possibilitou viver em uma comunidade, amar e ser amada. Ver e ser vista. Cuidar e ser cuidada, em uma periferia sem opções. Tristemente, com esse combo, vem um entendimento do meu lugar no mundo e na estrutura: a vida é assim porque um deus-branco-homem-cis heteronormativo-burguês quis.

Passei a questionar a estrutura fundamentalista da igreja quando tive acesso ao ensino público de qualidade e laico, em uma universidade pública, E isso me fez questionar toda estrutura de opressão social. Essas estruturas estão interligadas. Em um país como o Brasil, não se pode encarar a discussão dos fundamentalismos como uma caixa que está no fundo do armário e só é aberta quando se critica a bancada da bíblia. Não podemos debater os fundamentalismos religiosos separado de outras opressões. 

Mas os fundamentalismos religiosos têm uma diferença: apelam para o sentimento de defesa da família, da integridade moral e da defesa de um certo conforto que a religião traz, em meio à dureza da vida. A mistura de pautas morais, ligadas às religiosidades, e pautas econômicas e políticas favorece figuras como o presidente da Câmara Arthur Lira e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves.

Em meio aos evangélicos, temos o fundamentalismo a la Deltan Dallagnol: com cara de doutor, polido, fala baixa.

Temos o fundamentalismo com a cara do Pr. Anderson Silva: tatuado, barba, camisa de lenhador, em defesa das armas – e que permite aquela cerveja e aquela verdinha depois do culto.

Temos o fundamentalismo a la Edir Macedo: filhas no padrão de beleza, “independentes”, controle de natalidade permitido, mas que não podem estudar. 

Temos o fundamentalismo da Ana Paula Valadão, que é submissa, ora pelo marido e pelo Brasil.

E temos o fundamentalismo de Damares, que se apoia em tragédias pessoais para criar uma imagem de segurança e defesa da vida de forma violenta e distorcida.

Temos o fundamentalismo da Sarah Sheeva, no qual “ser princesa” é a melhor qualidade

Uma coisa esses fundamentalismos têm em comum: movem pessoas. E pior, se manifestam de várias formas. Essa variedade de manifestações de uma obediência rigorosa a um princípio, convergem em uma coisa: não abalam o status quo econômico. São fugidios, nem sempre caricatos, mas sutilmente alinhavam a ordem social opressora.

Se eu sempre defendo que não se deve homogeneizar as pessoas evangélicas. Muitas, como eu, são progressistas, lutam por uma sociedade livre e igualitária e denunciam os usos e abusos da fé. Mas tampouco podemos igualar os fundamentalismos e resumi-los a um único “fundamentalismo”. É hora de encararmos essa discussão com a atenção e seriedade que ela merece.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Evangélica, cientista social, mestra em educação e doutoranda em antropologia. É integrante das Evangélicas pela Igualdade de Gênero, da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, militante do Psol

Compartilhar postagem