Evangélicos conservadores são, hoje, prioridade no governo Bolsonaro

São cinco evangélicos no primeiro escalão, sendo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos o mais tomado por eles

Jair Bolsonaro no Culto Especial de Celebração de 25 anos da Igreja Fonte da Vida (Foto: Alan Santos / PR)

Jair Bolsonaro no Culto Especial de Celebração de 25 anos da Igreja Fonte da Vida (Foto: Alan Santos / PR)

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A cada semana dos quase dez meses de governo Jair Bolsonaro, novas sinalizações da inédita aliança com uma parcela significativa dos evangélicos brasileiros ganha força.

Nos últimos dias, por exemplo, o presidente da República declarou, por meio de videoconferência no 3º Simpósio Nacional Conservador, em Ribeirão Preto (SP), que está preparando mudanças nas agências nacionais de cultura. “A gente não vai perseguir ninguém, mas o Brasil mudou. Com o dinheiro público não veremos mais certo tipo de obra por aí. Isso não é censura. Isso é preservar os valores cristãos…”, declarou.

Em agosto passado, o presidente já havia buscado agradar o segmento conservador evangélico quando defendeu que o presidente da Ancine (Agência Nacional de Cinema) deveria ser um evangélico que conseguisse “recitar de cor 200 versículos bíblicos, que tivesse os joelhos machucados de tanto ajoelhar e que andasse com a Bíblia debaixo do braço”.

De fato, o voto evangélico representou, sim, um peso significativo nas eleições 2018 e continua sendo uma importante base de apoio para o governo federal tão desarticulado e sem projetos de apelo popular. A aliança teve início em 2013 no apoio do ex-capitão ao pastor Marco Feliciano (à época PSC-SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, e se consolidou, depois, em 2016, na filiação de Bolsonaro ao PSC (ocupado pela Assembleia de Deus). O consórcio foi simbolizado em batismo no Rio Jordão, apesar de ele formalmente continuar católico.

Como candidato, o presidente foi muito bem instruído no discurso que alimentou a pauta de costumes de sua campanha, afetando fortemente o imaginário evangélico conservador calcado na proteção da família tradicional, na heteronormatividade e no controle dos corpos das mulheres. Tornou-se caro a muitos evangélicos imaginar ter no poder maior do País alguém defensor de suas pautas, como “homem simples, do povo, que fala o que pensa” e isto parece ter sido um propulsor do voto que descarregaram em Jair Bolsonaro, ainda que ele tenha mais de um casamento, seja violento e faça uso de linguajar de baixo calão.

Pensar assim é bem diferente de ajuizar que lideranças religiosas comandaram o voto. É verdade que há muito apelo nas igrejas para que se vote em candidatos que lideranças defendem e apoiam, mas isto não é determinante para a escolha do voto, como várias pesquisas demonstram. É preciso, no caso das eleições de 2018, pensar no alcance do imaginário como um elemento determinante ao apoio evangélico e católico conservador.

E para os grupos religiosos que sempre almejaram espaços de maior poder político, esta aliança representa muito! O poder executivo vinha sendo ocupado por evangélicos desde o governo Dilma (senador Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus/IURD e o deputado George Hilton, também da IURD nos Ministérios da Pesca e do Esporte). Era uma ocupação significativa mas não muito expressiva numericamente. No governo Temer o mesmo ritmo de ocupação foi mantido. Já com Bolsonaro, os militares ocupam de forma expressiva e hegemônica o governo em vários cargos do primeiro escalão mas dividem este poderio com evangélicos.

A pastora pentecostal Damares Alves ganhou a direção do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. O Ministério da Casa Civil foi ocupado pelo luterano Onyx Lorenzoni e o Ministério do Turismo é conduzido pelo membro da Igreja Maranata Marcelo Álvaro Antônio. O ministro da Advocacia Geral da União é o pastor presbiteriano André Luiz Mendonça e o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, é um batista. São cinco evangélicos no primeiro escalão do governo federal, fora o número significativo de alocados no segundo, sendo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos o mais tomado por evangélicos.

A estratégia de dar conta de boa parte da diversidade evangélica nestes cargos foi bem traçada, revelando habilidade no trato com este grupo religioso. Soma-se a isto o fato do ex-capitão ter construído uma imagem religiosa de tal forma que muita gente acredita que ele é evangélico.

Vale destacar ainda o deputado federal assembleiano Marco Feliciano (Podemos-SP). Quando, em março passado, o governo federal já vivia crise de projetos e de diplomacia, Feliciano criticou publicamente a comunicação do governo, classificando-a como péssima, acrescentando que o presidente que governa sozinho se torna um “gigante com pés de barro”. Dali, Feliciano se converteu em vice-líder do governo no Congresso e um dos principais interlocutores do presidente. Com a assessoria do deputado, Bolsonaro passou a frequentar mais intensamente cultos e eventos religiosos.

A deputada federal batista Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo na Câmara, que tem atuado fortemente em defesa de suas pautas conservadoras, tem lugar neste processo e é uma das mais ativas disseminadoras de matérias falsas pela internet que alcançam muitos grupos evangélicos.

Portanto, no governo federal há representatividade e protagonismo da significativa parcela conservadora dos evangélicos, especialmente por conta do alcance de apoio que o governo não encontra com outros segmentos. Evangélicos conservadores são, hoje, portanto, prioridade no governo federal. Como este quadro se desdobrará se configura uma incógnita.

*Extrato de entrevista concedida pela autora a Patricia Fachin, IHU On Line (Instituto Humanitas da UNISINOS), em 23 de setembro de 2019. Leia mais aqui.

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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