Eu vi Deus e ela é uma mulher preta

Relato de um cristão branco e brasileiro sobre as aprendizagens com irmãos angolanos

(Foto: Pixabay)

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Diálogos da Fé,Opinião

Em 6 de abril completou um ano da primeira vez em que pisei em solo angolano. Experiência que mudaria minha vida e daria outros rumos para minha atuação profissional e militância.

Era um sábado e, sozinho, do outro lado do oceano, eu chorava a prisão política do melhor presidente que esse País já teve e que, mesmo indiretamente, foi um dos responsáveis pela minha ida para Angola.

Internet precária e sem contato telefônico, sofri horas calado e em oração até receber notícias via rádio que o vigia ostentava: “Venha irmão brasileiro, estão falando do teu presidente. Não chore, Deus irá fazer justiça”.

Foi difícil ficar longe da família e amigos nesses tempos de incertezas, mas o povo angolano, na sua afetividade (parecida com a do povo brasileiro), me acolheu como filho e Deus(a). Na sua infinita misericórdia, se encarregou de colocar no meu caminho gente que me ajudaria nos próximos meses e que se tornariam amigos para o resto da vida.

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Foi assim ao conhecer Lumena, de olhar sereno, voz calma e sorriso contagiante, nem parecia ter os seus recém-completos 27 anos. Vestida com trajes africanos que ela mandou confeccionar – é comum os angolanos mandarem costurar suas próprias roupas, além de mais barato, se torna uma peça exclusiva -, iniciamos nossa reunião naquele dia.

Psicóloga como eu, atua na área social e na defesa dos direitos humanos. Ficamos bem próximos. Foi ela, inclusive, que me ensinou que em Angola não se cumprimenta uma mulher com apenas um beijo no rosto. Se saudar com beijo, o que não é comum, que sejam dois.

“Um beijo pode demonstrar intimidade demais, irmão Franklin. Ou então que você tem interesse na pessoa e por isso quis chamar sua atenção.” Rimos muito e a partir disso, tenho, por precaução, evitado saudar com beijo. Um forte aperto de mãos basta.

Enquanto aguardávamos o início da reunião para preparação do planejamento estratégico, ela me confidenciou sua história. Assim como a da grande maioria dos angolanos, tem relação direta com a guerra.

Ela lembra que um dia, quando tinha por volta de 8 anos de idade, estava sentada na calçada de casa, com sua mãe a trançar seus cabelos, quando um caminhão cheio de homens encapuzados veio buscar seu pai, que havia voltado para se recuperar, após ser ferido em combate. Ele não havia retornado para a frente de guerra e foi tido como desertor.

O homem que dirigia o caminhão retirou o capuz e elas puderam ver que se tratava de um velho conhecido da família.

Seu pai não estava em casa, mas receberam a informação que poderia estar na casa de uma parente. Foram até lá. Ele foi algemado e levado ao caminhão.

Os laços entre Brasil e Angola são intensos (Foto: Pexels)

Seu pai permaneceu desaparecido por três meses. Acharam que ele tivesse sido assassinado, o que de fato teria acontecido se o motorista não tivesse se deixado ver.

Com o fim da guerra, esse mesmo homem revelou que haviam ido buscá-lo para matá-lo e, sabendo disso, deixou-se propositalmente ser visto, como uma forma de segurança para o amigo. Por sua falta, foi severamente punido, permanecendo encarcerado por três meses também.

Ela lembra que não podiam ter muita comida em casa, pois, além da escassez de dinheiro e de produtos, se precisassem correr para se esconder em “‘bunkers”, só poderiam levar pouca quantidade de alimentos. Como não conseguiam enterrar o que ficava para trás, quando voltavam, geralmente tinham sido saqueados. Permaneciam escondidas até o cessar-fogo, que podia durar horas ou dias.

Conta tudo isso com muita altivez, típico das mulheres angolanas. Não chora, o que geralmente não acontece comigo. É impossível ouvir um relato desses sem se emocionar. O único dia em que a vi chorar foi quando nos conhecemos e ao me ver muito triste pela prisão do Lula, disse: “A justiça de Deus é diferente da justiça dos homens. Deus vai libertá-lo, irmão Franklin, assim como fez com o povo angolano”.

Minha ida para Angola era planejada desde 2016, mas somente em janeiro de 2018, por vários fatores internos e externos, efetivou-se a contratação. Foi uma parceria entre a Christian Aid em Londres, o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil) e o CICA (Conselho de Igrejas Cristãs de Angola). Precisavam de um profissional que falasse português, que tivesse experiência com fortalecimento institucional, desenvolvimento organizacional e movimento ecumênico.

Embora minhas escolhas e vivências dissessem o contrário, quando cheguei em Angola meu grande receio era o de me comportar como mais um branco colonizador, detentor das verdades ocidentais absolutas.

 

A cada nova experiência, novo convite à reflexão.

O povo angolano é resiliente, amoroso, fraterno e tem enorme apreço por nós brasileiros. Nossos laços, segundo eles, vão muito além das questões culturais, políticas, históricas e espirituais/religiosas. São laços de sangue, de resistência, exploração e de luta (ambos países foram invadidos e saqueados por Portugal).

Descolonizando o olhar, fortalecendo a fé, aprimorando a prática pedagógica, repensando o papel de educador popular e comunitário, compartilhando sonhos, ouvindo relatos, aprendendo lições de solidariedade e resistência, sigo acreditando que juntos – Brasil e Angola – podem muito mais.

Reconectei-me com Deus e, como diz Emicida, em sua música Mãe: “Desafia, vai dar mó treta, quando disser que vi Deus e ela era uma mulher preta”.

Viva a mulher angolana.

Viva o povo angolano.

Lula livre.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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