Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé

Cuba sofre, vive e respira entre mentiras e verdades: aprendizados de uma viagem

Há um crescimento pentecostal muito forte, na linha do que ocorre em outros países latino-americanos

Uma van de entregas de uma empresa de remessa de alimentos com sede nos EUA circula em uma rua de Havana, em 22 de maio de 2024. Foto: Yamil Lage/AFP
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Fui a Cuba no início deste mês, acompanhada do meu esposo e de um grupo de seis amigos e amigas, de longa data e muita cumplicidade, para experimentarmos o que significa o “vai para Cuba” – expressão tão pronunciada nas disputas políticas discursivas antiesquerda no Brasil. Foi minha segunda visita ao país, desta vez não a trabalho – portanto, com mais tempo de observação, audição e desfrute dos contatos com pessoas, com a cultura local e com as belezas naturais da ilha.

É fato que Cuba faz parte do imaginário político no Brasil. Pequeno país-ilha, virou um mito latino-americano no século 20 por ter renascido de uma vitoriosa revolução popular, há 65 anos. A ilha se opôs e tem resistido aos bloqueios econômicos e aos confrontos e atentados promovidos pela maior potência do planeta, os Estados Unidos.

Estes atos vêm sendo aplicados como retaliação pela perda do que havia se tornado, em 1898, protetorado estadunidense. Na verdade, “protetorado” significava a transformação do país de colônia espanhola em quintal dos EUA em forma de ilha para exploração das plantações de açúcar e tabaco, balneário para turismo, jogos de azar e recurso à prostituição das mulheres locais.

A resistência a esta situação nasceu com jovens universitários nos anos 50 e ganhou apoio da população, cansada dos governos alinhados à exploração predatória de todas as vidas cubanas e à então ditadura imposta pelo militar Fulgêncio Batista com um golpe de Estado. Em 1959 a revolução triunfou, porém os rumos dados pelo governo, que buscou soberania perante aquele Império, em plena Guerra Fria, não só geraram as retaliações que até hoje persistem, como direcionaram o país para o regime socialista. A saída para Cuba diante do bloqueio econômico, aprofundado ao longo dos anos, que impede, em síntese, países que têm intercâmbio comercial com os EUA de comercializarem com a ilha, foi uma aliança com a União Soviética, que passou a comprar os produtos cubanos e a fornecer armas para a defesa nacional e petróleo a preços melhores.

Desde os anos 60, no Brasil, enquanto muitos encontram na memória da revolução cubana e na resistência dos ideais revolucionários uma inspiração, outros as amaldiçoam, relacionando ao imaginário do comunismo, como sinônimo de miséria, morte e ameaça à democracia. Apesar de o Brasil ter reconhecido o governo revolucionário estabelecido em Cuba em 1959, a ditadura militar, imposta pelo golpe de 1964, contribuiu muito para a demonização da ilha, o que foi acirrado com o corte das relações diplomáticas entre os dois países.

Apesar da retomada das relações entre Brasil e Cuba no período de redemocratização brasileira, após 1985, a imagem da ilha como país-comunista-miserável-ameaçador havia sido construída de forma tão sólida que boa parcela da população brasileira seguiu compreendendo a ilha e seu governo com desconfiança e rejeição. É fato que muito desta (in)compreensão se deve à cobertura jornalística desinformativa sobre Cuba, uma vez que as empresas de mídias no Brasil pertencem a editores ideologicamente alinhados ao conservadorismo político do País e aos Estados Unidos. Nem mesmo a aproximação dos EUA à ilha, em 2008, sob o governo Barak Obama, estimulada por articulações do Papa Francisco e do Conselho Mundial de Igrejas (associação de igrejas protestantes e ortodoxas), atuou na mudança desta noção.

Esta imagem foi ressignificada em 2018 quando o capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência da República, prometeu em campanha que novamente cortaria relações diplomáticas com Cuba, se vitorioso.

Bolsonaro foi eleito, não cumpriu o prometido, mas alimentou discursivamente as tensões históricas em relação a Cuba e ao comunismo. Foi nesse período que se consolidou, nas mídias sociais, a frase de apoiadores de Bolsonaro para quem manifestava críticas e oposição ao seu governo: “Vai pra Cuba!”. A expressão reflete a imagem de que Cuba representaria um ilusório castigo, pelo país “viver uma ditadura”, sem liberdade de ir e vir, “prender e fuzilar” opositores, proibir as igrejas de existirem e perseguir cristãos, ter população que vive na miséria sonhando viver o “paraíso do capitalismo”, uma vez que o socialismo “representa um fracasso econômico”.

Neste contexto fui para Cuba, em grupo, orientado por amigos cubanos de que encontraríamos o país na fase mais difícil de sua história, provocada pelo endurecimento do bloqueio econômico dos EUA e por equívocos de políticas do governo local, já não mais conduzido por revolucionários históricos.

Encontramos um país muito diferente da minha visita anterior, 16 anos atrás. O peso cubano e o dólar dos EUA convivem nas ruas com tratamento desigual, dadas a desvalorização alta da moeda local e a inflação galopante. A aliança com a União Soviética havia consolidado os ideais da Revolução Cubana, calcados na distribuição de terra e moradia e no oferecimento de educação e saúde de qualidade para todos os cubanos. O país alcançou índices muito significativos em superação da desigualdade, em saúde e em educação gratuitos, com alta qualidade da pesquisa em Medicina e em outros campos da Ciência. Desenvolveu ainda expressões destacadas no campo da cultura (literatura e música, especialmente) e dos esportes.

Porém, com a dissolução da União Soviética, não houve aliança com os novos países e a ilha entrou em uma crise, que foi superada apenas em meados dos anos 2000, com mudanças na economia cubana e abertura do país para o turismo, e depois com a reabertura da embaixada americana em Havana. Porém, as 243 medidas do bloqueio econômico, que ganharam amplitude nos governos Trump e Biden, promovem uma série de dificuldades não só para a exportação de produtos cubanos, mas para a aquisição do que não é produzido na ilha.

O bloqueio, após 60 anos, é a maior causa das dificuldades socioeconômicas vividas por Cuba. É uma das medidas mais condenadas pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, onde todos os anos, desde 1992, é aprovada uma resolução contra a imposição americana. As razões da condenação são humanitárias e de solidariedade com Cuba, da parte de vários países, como o Brasil, mas para muitos outros são a contestação à limitação da possibilidade de empresas, especialmente europeias, fazerem negócios com a ilha.

Com o agravamento, atualmente faltam energia, petróleo, alimentos, remédios e vacinas, produtos básicos como material para higiene. “Os danos acumulados durante quase seis décadas de aplicação dessa medida totalizam 144 bilhões de dólares”, registra o governo cubano no documento Cuba vs. Bloqueio, apresentado à Assembleia-Geral da ONU em 2020. A situação econômica de Cuba foi ainda mais agravada com a pandemia da Covid-19, uma vez que a abertura da economia se deu para o turismo e este foi suspenso por dois anos, o que tornou a recuperação econômica do país ainda mais difícil. Tal avaliação é partilhada por analistas internacionais de várias procedências.

Toda esta situação, desde o início dos anos 2000, provocou que o governo decretasse medidas de alívio para a população, como a autorização para que carros particulares realizem transporte público (o que conhecemos no Brasil como “lotadas”). Isto porque a falta de maquinário e de acesso livre ao petróleo é um drama nesta área. Também se flexibilizou para que pessoas aluguem espaços e residências para o turismo e que abram restaurantes populares para ganho próprio (os chamados “paladares”).

Mais recentemente, depois de protestos nas ruas, que expressam uma população cansada das perdas de qualidade de vida, que exigem alimentos e remédios, o governo cubano anunciou a suspensão temporária de restrições alfandegárias a medicamentos, alimentos e remessas de valores em dinheiro. Porém, os ideais socialistas enfrentam uma crise, uma vez que as autorizações para negócios próprios e a facilitação para a entrada de recursos enviados por parentes que vivem no exterior estimulam a desigualdade e o estabelecimento de classes sociais, o que não era vivido no país pós-revolução.

É comum ver hoje nas ruas das cidades, em consequência de tudo isto, as casas, em construções históricas belíssimas, moradias gratuitas concedidas pelo Estado, deterioradas em alto grau pela falta de recursos para reformas. O mesmo problema se dá com as escolas. Algumas ainda contam com o suporte de alguns países e fundações internacionais para a manutenção. No centro de Havana, estas construções estão ao lado de prédios modernos, autorizados para a iniciativa privada que rompe o bloqueio e vai ocupando espaços.

Vimos também algo que não existia pouco tempo atrás em Cuba: pessoas pedindo ajuda financeira, moradores de rua e oferta de prostituição. Grande parte dessas pessoas são qualificadas, formadas nas universidades gratuitas do país, cuidadas pelo sistema de saúde gratuito, e chama a atenção que todas aparentam dignidade na forma como estão vestidas, asseadas e no diálogo.

Meu grupo, por exemplo, conversou com um menino de 11 anos que pedia ajuda financeira e o assunto foi música brasileira: ele conhecia Cartola. Entregamos uma sacola com produtos de higiene a uma mulher, que chorou agradecida, e caminhava para tomar sorvete na Copélia, clássica sorveteria de Havana, portando um dos cupons oferecidos pelo governo para que a população tenha direito a prazer, além de comida, como cantam os Titãs em nossa terra. Outra conversa foi com um jovem garçom, em um dos restaurantes privados, formado em Farmácia, sem chance de trabalho diante da crise do país – neste caso, não muito diferente do que experimentamos por aqui.

Porém, as frases espalhadas pelas cidades, como “Hasta la victoria siempre”, “Construímos um país, esta es la Revolución”, “Cuba vive y respira”, “Cuba linda resiste”, refletem, de fato, um país que é todo resistência mesmo em meio às contradições das políticas implementadas ao longo dos 65 anos de Revolução. As ruas, os teatros e as casas de shows respiram a cultura da música clássica e popular, as muitas livrarias oferecem diversas obras a baixo custo, com farta agenda de debates e lançamento de livros. Pessoas nos abordavam ao ouvir nossos sotaques, perguntando se éramos brasileiros, exaltavam o presidente Lula e citavam o programa Mais Médicos, do governo de Dilma Roussef, citando um ou outro parente médico participante.

É verdade que a liberdade de expressão, limitada pelo regime socialista cubano, de partido único e controle do Estado, justificada para proteção dos valores da Revolução contra os ataques dos EUA, é uma questão posta em xeque, especialmente pelos mais jovens. O acesso à internet, liberado à população desde 2018, tornou mais evidente o controle estatal sobre a mídia – a imprensa é do Estado, bem como os canais de televisão e as estações de rádio. Porém, não há restrições a mídias sociais, na única operadora, que é estatal. O WhatsApp é amplamente utilizado, bem como Facebook, Instagram e todos os aplicativos do Google, como outras redes e sites. O bloqueio se dá a sites que têm relação financeira com os EUA.

É mentira que as igrejas são proibidas em Cuba. As igrejas não foram fechadas depois da Revolução, pelo contrário, permaneceram e ampliaram sua atuação, tanto a Católica, a que tem mais apelo popular, quanto as evangélicas. Houve tensionamentos entre o governo e lideranças católicas e evangélicas que se colocavam contra as políticas socialistas e faziam propaganda anti-Revolução.

No livro Fidel e a Religião, de Frei Betto, que é o relato de uma ampla entrevista do frei católico com o presidente Fidel Castro em 1985, o revolucionário explica a tensão:

“…o que surgiu nos primeiros momentos [da Revolução] foi um problema de classes. Não tinha nada a ver com religião. Foi a religião dos latifundiários e dos ricos. E quando se produz o conflito socioeconômico, procuram usar a religião contra a Revolução. Foi o fenômeno que ocorreu, a causa dos conflitos. Havia um clero espanhol bastante reacionário”.

Fidel reconheceu na entrevista o apoio de cristãos à Revolução:

“Ninguém pode dizer que os cristãos foram freio. Houve alguma participação cristã na luta, ao final, como cristãos; houve, inclusive, alguns mártires. Do Colégio Belém assassinaram três ou quatro rapazes, ao norte de Pinar del Río. Houve sacerdotes que, por iniciativa própria, se somaram a nós, como ocorreu no caso do padre Sardiñas”.

As igrejas diversas têm liberdade de culto e estão sob a regulação constitucional assim como as demais associações. Há um crescimento pentecostal muito forte, na linha do que ocorre em outros países latino-americanos. Ele se deu a partir dos anos 90, com a deterioração da qualidade de vida estabelecida pelo fim da aliança com a União Soviética. Igrejas começaram a entrar no país, como missões dos Estados Unidos, e a distribuir artigos de primeira necessidade não disponíveis por causa do bloqueio. Estudiosos cubanos explicam que os evangélicos conservadores vêm conquistando espaço e fiéis, o que contribui para a ampliação de uma visão conservadora e antigoverno revolucionário na sociedade cubana.

Esta liberdade religiosa foi observada quando estava em discussão o Código da Família, em 2022, que substitui o Código de 1975, submetido a referendo popular. Muitas igrejas e suas lideranças foram contra a proposta e fizeram campanha nas ruas. Porém, a população cubana aprovou maciçamente a nova lei, com participação de 74% dos eleitores (sim! A população toma decisões por voto em Cuba!), sendo 68,87% a favor e 33,13% contra, com a obrigatoriedade de 50% dos votos para aprovação e entrada em vigor.

O Código da Família é um dos mais progressistas da América Latina e define casamento como “a união entre duas pessoas”, o que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças nas mesmas bases. Ele reforça os direitos das crianças, dos idosos e dos deficientes e introduz a possibilidade de reconhecer legalmente vários pais e mães, além dos pais biológicos. Finalmente, autoriza a barriga de aluguel “solidária”, sem fins lucrativos.

Há igrejas evangélicas históricas na ilha, como a Presbiteriana e a Batista, que atuaram pela aprovação do Código da Família e seguem em ação por justiça e paz para Cuba. Uma causa abraçada por estas igrejas e as demais que integram o Conselho de Igrejas de Cuba (com 28 igrejas-membros, mais 14 centros e movimentos ecumênicos, em um total de 42 instituições membros, às quais se somam outras nove como associadas fraternas) é o fim do bloqueio econômico, com projetos via organizações de identidade religiosa, como o Centro Dom Oscar Romero e o Centro Martin Luther King, de sensibilização de cristãos e movimentos nos EUA. O Conselho de Igrejas de Cuba existe há 38 anos.

Desde 2019, a Constituição de Cuba estabelece o reconhecimento, a garantia e o respeito pela liberdade religiosa como responsabilidade do Estado laico e estabelece que as diferentes crenças e religiões sejam tratadas da mesma forma. O artigo 57 garante o direito de toda pessoa de professar ou não crenças religiosas, de mudá-las e de praticar a religião de sua preferência, com o devido respeito ao próximo e de acordo com a lei, protegendo-se contra condutas relacionadas a qualquer tipo de discriminação por esse motivo.

O novo Código Penal, aprovado pela Assembleia Nacional em 2022, prevê sanções para aqueles que impedem ou perturbam a liberdade de religião, mesmo que sejam funcionários públicos em abuso dos seus cargos, e classifica como crime o incitamento à violência iminente por motivos de religião ou crença.

Esta política tornou possível que um grupo religioso marginalizado historicamente ganhasse expressão pública nos últimos anos: as expressões afrorreligiosas. Conhecidas como Santeria ou religião afrocubana, elas são parte do cotidiano da ilha, herdada das mesclas entre as religiões dos escravos africanos, levados para as fazendas de cana-de-açúcar espanholas, e a fé católica imposta pelos colonizadores. É uma vivência religiosa muito similar às das tradições africanas no Brasil.

Acusações de intolerância religiosa contra cristãos por parte do Estado cubano – e contra a Santeria por parte de cristãos – permeiam as mídias sociais e matérias de alguns veículos de imprensa, o que deve ser levantado e denunciado. Porém, é preciso superar a hipocrisia, pois sabemos que isto não é exclusividade de um regime socialista. Intolerância em alto grau é vivida aqui no Brasil, que nada tem de socialista, pelos grupos de tradição africana, praticada por agentes do Estado e pela religião cristã dominante, o que é de farto conhecimento.

Saímos de Cuba com um misto de sentimentos: deslumbrados com a beleza do povo, da cultura e da terra, mas preocupados com o futuro próximo. Incomoda pensar no quanto as pessoas, especialmente a juventude, ainda encontrarão forças para resistir diante da perversidade do bloqueio econômico, dos equívocos das medidas paliativas aplicadas pelo governo – que não alcançam a estrutura da crise e comprometem os valores revolucionários de Justiça – e das mentiras que seguem sendo espalhadas para sustentar grupos da direita perversa. Cumpre-nos seguir em solidariedade ativa e esperar contra toda a esperança!

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