A inumanidade ultrajante do governador saltitante e seus apoiadores

Como alcançar cura para esta sociedade que está doente de medo, de ódio, de falta de sensibilidade com vidas que não lhe sejam próximas?

Wilson Witzel, comemorando a execução por

Wilson Witzel, comemorando a execução por "sniper" de um homem que, com uma arma de brinquedo, mantinha pessoas como refém

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O episódio dramático do ônibus sequestrado na Ponte Rio-Niterói na terça-feira 20 terminou com a liberação dos 37 reféns depois da morte provocada de William Augusto da Silva, de apenas 20 anos, vigilante, morador de São Gonçalo (região metropolitana). Fomos levados a crer que o atirador de elite fez o que tinha que ser feito diante de um impasse que impunha risco às vidas ameaçadas de morte. Reféns relataram que o rapaz, que portava uma arma de brinquedo, declarou que passava por problemas pessoais. Profissionais indicaram perfil psicótico de William, que não quis negociar sua rendição.

Como negar que é nocivo para uma sociedade que haja crimes, pessoas alvejadas por armas, policiais, criminosos, até mesmo inocentes! Por isso, toda e qualquer morte provocada deve causar lamento e pesar.

O alívio com a libertação das pessoas foi abafado pelo espetáculo do governador Wilson Witzel no local. Ele chegou de helicóptero aos pulos e com braços abertos comemorando o desfecho com a morte do vigilante. Festejava como se estivesse em um jogo de futebol. Um assessor filmava a cena.

O governador, questionado nas últimas semanas pelas mortes de inocentes em favelas que tiveram ação da polícia, que “atira primeiro para investigar depois”, se valia da desgraça de William e de sua família. Claro, o episódio caiu como uma luva para “limpar a sua barra”, cativar apoiadores, estimulando a gana de limpeza da cidade por meio do extermínio e da execução de bandidos, ainda que erros cometidos custem vidas inocentes que pagam o preço de viverem na “desgraça da periferia”…

A população que vive com medo pela falta de políticas reais de segurança acaba sendo levada pela emoção e seduzida pela solução rápida do “olho por olho, dente por dente”. Todos reféns da insegurança pública, sequestrados pelo medo alimentado pela indústria das armas e da segurança privada que trabalham pela manutenção deste drama!

Que tempos são estes que vivemos! Como alcançar cura para esta sociedade que está doente de medo, de ódio, de falta de sensibilidade com vidas que não lhe sejam próximas? Os aplausos ao governador são a aclamação ao inumano, a quem abandonou qualquer senso de humanidade. É preciso retomar permanentemente esta reflexão no atual estado em que vivemos.

É preciso reafirmar que nascemos humanos, seres que pensam e agem, têm virtudes e fraquezas. Todos nós. Na vida coletiva, humanos têm o desafio sempre presente de co-existir e para isso precisam de suas virtudes, na forma de bondade, amor, piedade, coragem, respeito, compreensão para com os outros, especialmente aquelas de fora do círculo de convivência.

Por isso, quando dizemos que alguém “é muito humano” referimo-nos à capacidade que tem de simpatia pela realidade de outros, especialmente aqueles em situação vulnerável e ser aberto a compreender o que não é parte do seu jeito de ser.

Quando nos deparamos com situações que mostram o oposto disto, ou seja, indiferença ao mal, crueldade, violência dura e friamente praticada, de forma física ou simbólica, classificamos como “desumanas”.

Porém, há ainda outra postura que vai além do desumano, quando pessoas se mostram desprovidas de sentimentos de respeito, consideração, amor, generosidade. São identificados por atitudes que revelam a ausência da identidade humana e suas virtudes. Como quem comemora a morte de alguém, qualquer que seja a pessoa que perdeu a vida. São pessoas mas não são humanas. São “inumanas” ou revestidos de “inumanidade”.

O governador do Rio não está só na sua inumanidade. Tem a companhia, por exemplo, da blogueira e youtuber Alessandra Strutzel que, em março passado, quando faleceu Arthur, o neto de sete anos do ex-presidente Lula, utilizou as redes digitais para publicar foto dos dois juntos e celebrar: “Pelo menos uma notícia boa”.

Estes comportamentos se assemelham à repercussão da execução da vereadora Marielle Franco no ano passado. Houve comoção e movimentos de rua em solidariedade à família e ao povo do Rio de Janeiro, mas houve também expressões públicas que a classificaram como “vagabunda safada” e afirmaram que “teve o que procurou”, entre outras menções inumanas diante da situação dramática.

Estes são exemplos recentes, graves, cujos casos ganharam destaque nas mídias. Poderíamos tratar aqui de muitos outros, de gente simples, como a hostilidade a imigrantes, a homofobia transformada em violência física, o escárnio em relação a quem vive no limite da vida, como moradores de rua, dependentes químicos, indígenas. É alarmante identificarmos entre os inumanos jovens e até crianças. E pior: pessoas cristãs!

Pior porque são pessoas que dizem crer em Jesus, ele que depois de um julgamento injusto, baseado em convicções, finalizado por um ‘juiz’ que lava as mãos, depois de receber a pena de morte, de ser torturado, receber na cabeça uma debochada coroa de espinhos e ser pregado com pregos numa cruz de madeira, teve que receber de soldados vinagre ao invés de água e ouvir do público que se deleitava com a crueldade e a injustiça: “Desce da cruz. Salva-te a ti mesmo”.

Quem, mantida viva a sua identidade humana, não se indigna quando lê ou assiste a uma narrativa deste episódio que mostra tanta inumanidade? Como não relacionar este escárnio inumano aos que estão sendo praticados hoje?

Torna-se um alívio quando lembramos que nem só de Witzels, Alessandras e seus apoiadores estamos cercados. Há muita gente boa que mostra que a humanidade tem jeito, sim. Cada leitor e leitora pode exercitar lembrar dessas pessoas. Precisamos torná-las mais conhecidas e visíveis, e, com isso cultivarmos e alimentarmos as virtudes da humanidade entre nós. Isto tem que ser feito a começar da nossa presença nas mídias sociais: elas precisam de um choque de humanidade.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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