A falaciosa representação evangélica no apoio ao bolsonarismo

Os evangélicos que têm uma visão crítica do uso político da fé cristã precisam assumir suas raízes protestantes e erguer sua voz

Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

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A crise que o Brasil vive, potencializada pela pandemia do coronavírus, tem reforçado, muito especialmente nas últimas semanas, o papel dos evangélicos como base do presidente Jair Bolsonaro.

Uma pesquisa do Instituto Quaest mostra o nível de eficiência da estratégia de Bolsonaro na mobilização do seu eleitorado. Segundo a pesquisa, a afirmação de que a imprensa estaria exagerando na cobertura da crise do coronavírus tem mais concordância de idosos (30%), ricos (27%) e evangélicos (27%).

Estes dados se alinham com os da última pesquisa Datafolha (1 de abril) que perguntou sobre as atitudes do presidente da República em relação à pandemia. 51% dos entrevistados declararam que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda. No entanto, dos que pensam o contrário, a metade é de evangélicos. As orientações do presidente têm grande respaldo entre os evangélicos.

Estas pesquisas apresentam um retrato em quem se concentra a base de apoio do governo entre a população e, do ponto de vista da adesão religiosa, reafirma o lugar dos evangélicos como tábua de salvação de um presidente sem partido, sem relação com o Congresso Nacional, sem controle sobre o seu ministério, marcado por falta de projeto de país e atritos.

Um forte exemplo foi a convocação que o ex-capitão fez para um “Jejum Nacional”, em 5 de abril. Jogando com a interpretação mágica da fé (Deus resolve tudo a partir de práticas rituais) a chamada aconteceu após Bolsonaro receber a sugestão de um grupo de pastores na entrada do Palácio da Alvorada.

No mesmo dia, em entrevista a um programa de rádio, o presidente reafirmou a “convocação” como um ato contra o novo coronavírus. “Sou católico e minha esposa evangélica. É um pedido dessas pessoas. Estou pedindo um dia de jejum para quem tem fé. Então a gente vai, brevemente, junto com os pastores, padres e religiosos anunciar aí. Pedir um dia de jejum para todo o povo brasileiro em nome, obviamente, de que o Brasil fique livre desse mal o mais rápido possível.”

De imediato, passou a circular pelas redes digitais um cartaz em verde e amarelo ilustrado com a imagem do presidente da República com as palavras: “Santa convocação do nosso presidente Jair Messias Bolsonaro para um jejum nacional”.

Um vídeo de pouco mais de quatro minutos também foi disseminado nas mídias sociais e publicado pelo próprio presidente em seus perfis. “Os maiores líderes evangélicos desse país atenderam à proclamação santa feita pelo chefe supremo da nação, o presidente Jair Messias Bolsonaro, e convocam o exército de Cristo para a maior campanha de jejum e oração já vista na história do Brasil”, diz um trecho.

O jejum é uma prática comum não só a cristãos (católicos e evangélicos) mas também a várias religiões presentes no Brasil. A divulgação da campanha, porém, destacou a adesão dos “maiores líderes evangélicos desse país” à “proclamação santa”. Estes estão expostos no vídeo fazendo a chamada para a participação dos fiéis; são 34 líderes religiosos:

Bispo Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus), Pastor Marco Feliciano (Catedral do Avivamento/Assembleia de Deus), Pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), Missionário R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), Pastor André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), Pastor Rene Toledo (Igreja Batista), Pastor Silas Câmara (Assembleia de Deus/Bancada Evangélica), Pastor sênior Lourival de Almeida (Igreja Deus é Amor), cantora Débora Miranda (Igreja Deus é Amor); Bispo Abner Ferreira (Assembleia de Deus), Pastor Juanribe Pagliarin (Comunidade Cristã Paz e Vida), pastor Abe Huber (Igreja da Paz), Pastor Mário de Oliveira (Igreja do Evangelho Quadrangular), Pastor Jorge Linhares (Igreja Batista Getsêmani), Pastor José Wellington Junior (Assembleia de Deus), Apóstolo Renê Terra Nova (Ministério Internacional Restauração), Pastor Roberto de Lucena (Igreja O Brasil para Cristo), Bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus), Bispo Robson Rodovalho (Igreja Sara a Nossa Terra), Apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus), Pastor Hernandes Dias Lopes (Igreja Presbiteriana do Brasil), Apóstolo Luiz Hermínio (Missões Evangelísticas Vinde Amados Meus), Pastor Abílio Santana (Assembleia de Deus/Bancada Evangélica), Pastor Roberto Brasileiro Silva (Igreja Presbiteriana do Brasil), Pastora Ezenete Rodrigues (Igreja Batista da Lagoinha), Pastor Márcio Valadão; (Igreja Batista da Lagoinha), Pastor Guilherme Batista (Conexão Estudantil e Universitária), Pastor Valdomiro Pereira (Assembleia de Deus), Pastor Humberto Schimitt Vieira (Ministério Restauração), Apóstolo Agenor Duque (Igreja Apostólica Plenitude do Trono de Deus), Bispa Ingrid Duque (Igreja Apostólica Plenitude do Trono de Deus), Pastor André Hernandes (Igreja Renascer em Cristo), Apóstolo Estevam Fernandes (Igreja Renascer em Cristo), Pastor Samuel Câmara (Assembleia de Deus).

Apesar de a chamada informal de Bolsonaro ter incluído padres católicos e outros religiosos, na divulgação, nenhum católico aparece. Entre os protestantes históricos, nenhum congregacional, metodista, luterano, anglicano; apenas três de ramos batistas (dois da Convenção Nacional e um avivado) e dois da Presbiteriana do Brasil, dentre as várias ramificações do presbiterianismo. De outras religiões, nenhuma menção.

Em suma, o vídeo apresenta fundamentalmente lideranças destacadas do pentecostalismo (outras nem tanto) e alguns poucos entre uma diversidade de evangélicos históricos. Este é o perfil dos evangélicos que apoiam Jair Bolsonaro. Não são “os” evangélicos, é parcela deles.

E as outras lideranças do segmento? Elas são 51%, entre evangélicos, que acreditam que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda no combate ao coronavírus. São 57% que não aprovam as atitudes do presidente em relação à pandemia e são 65% que consideram que a imprensa não exagera na cobertura sobre a doença.

Onde elas estão? Muitas estão caladas, atitude marcante deste grupo no Brasil. A experiência com a ditadura militar (1964-1985) revelou fortemente esta omissão. Não encarnam o espírito protestante que deveria estar nas suas bases, próprio do cristianismo, à luz da postura do Cristo, com a dimensão profética, contestatória, do protesto.

Outras se pronunciam, mas são invisíveis ao público maior pois suas vozes são mais ouvidas nas mídias sociais, restritas ao público religioso mais progressista, ignorado pelas mídias noticiosas. Estas visibilizam apenas os evangélicos apoiadores do bolsonarismo, como exemplifico a seguir.

Do dia 4 ao dia 5 de abril, nove matérias foram publicadas em grandes mídias noticiosas sobre a convocação do jejum nacional. As chamadas giravam em torno de “Bolsonaro convoca jejum religioso no domingo e é apoiado por pastores”. Boa parte dos textos citava os “líderes das maiores igrejas evangélicas do Brasil”, com menção de alguns nomes mais destacados. Nenhuma das matérias mencionou os evangélicos não incluídos, ou os católicos e outros religiosos deixados de lado.

Na minha pesquisa, apenas um veículo de mídia independente, alternativa, produziu texto com a opinião de líderes críticos ao uso político da prática religiosa do jejum. Foi a Rede Brasil Atual, que colheu depoimentos da secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) a pastora luterana Romi Márcia Bencke, do Presidente da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil Rev. João Luiz Furtado, do missionário Caio Marçal, da Rede Fale, do pastor Guilherme Carvalho, da Igreja Esperança (ex-quadro do governo Bolsonaro).

As grandes mídias noticiosas caem, desta forma, na armadilha do uso político da religião, ao ratificarem a existência de líderes que representam os evangélicos. E aí se revela a defasagem dos produtores de notícia na cobertura do quadro religioso nacional, especialmente da pluralidade de religiões e entre o próprio segmento evangélico.

Evangélicos não têm representantes, diferentemente dos católicos que têm uma igreja centralizada. Evangélicos são fragmentados e plurais. Dado o contexto de força política deste grupo hoje, muitos líderes falam em nome do segmento e os beneficiados com esta fala, como é o caso do ex-capitão presidente, reverberam isto. Fica-se, então, com o discurso hegemônico, neste caso o conservador somado ao da fé mágica.

Duas urgências emergem destes elementos apontados aqui: 1) os evangélicos que têm uma visão crítica do uso político da fé cristã precisam assumir suas raízes protestantes e erguer sua voz; 2) que os produtores de notícias superem o equívoco da apresentação dos evangélicos como um grupo homogêneo e rechacem tendências unificantes de um segmento formado por uma expressiva variedade de grupos, tornando nítidas e públicas as diferentes posturas e projetos deste segmento no espaço público.

Assista abaixo, o vídeo da convocação:

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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