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As tecnologias estão a serviço da vida?

Brasil Debate

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As inovações tecnológicas vêm gerando mudanças na produção industrial desde o início do século 20. O elemento novo, nesse processo, é a economia digitalizada, considerada a grande responsável pelas transformações na produção da forma como a conhecemos hoje.

A origem dos termos indústria 4.0 ou quarta revolução industrial está associada a pesquisas de alta tecnologia realizadas inicialmente pela Alemanha. Desde então esses termos passaram a ser utilizados de forma indistinta e ampla. Portanto, a quarta revolução industrial designa toda adoção de tecnologia que represente avanços e que rompa com os padrões e modelos estabelecidos, a exemplo da digitalização e da inteligência artificial.

Conforme estudo publicado pela Industriall Global Union, os conceitos abarcam a partir de empresas que utilizam internet para oferecer soluções personalizadas, prestadores de serviços indiretos por meio de plataformas até o uso das mais variadas formas de tecnologias, desde a impressão 3D, aos drones, robótica industrial avançada, entre outros, em combinação com o desenvolvimento nas áreas de engenharia, biotecnologia, nanotecnologia e microtecnologia, materiais avançados e mudanças radicais aplicadas em tecnologias energéticas e meio ambiente.

A inteligência artificial, por exemplo, representa um estágio em que as máquinas são capazes de comunicar-se entre si ao invés de se reportarem para um painel de controle operado por funcionários qualificados. Essas mudanças estão alterando profundamente os padrões de produção e consumo, mas também de nossa relação com a sustentabilidade da vida humana e da própria relação com o trabalho.

Até esse momento são os governos e empresas que têm protagonizado esse processo de mudanças. Centrado nos aspectos econômicos e tecnológicos eles vêm negligenciando os aspectos sociais. Análises que apontam para repercussões sociais, como o futuro do trabalho, os desafios para os sistemas de proteção social, efeitos ambientais e as desigualdades econômicas existentes estão relegados ao segundo plano.

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Por outro lado, as previsões a respeito de seus impactos no mercado de trabalho aparecem na literatura de forma bastante polarizada. As expectativas otimistas vislumbram possibilidades de ampliação da quantidade de trabalho com altos salários, por outro lado, os diagnósticos mais pessimistas preveem perdas de empregos entre 35% a 45%.

A OCDE estima que 9% dos empregos estarão em risco e de que 50% a 70% das tarefas serão automatizadas. Já a OIT, de acordo com estudo, sugere que 56% dos empregos correm risco de automatização nos próximos 20 anos. É muito difícil avançar em dados concretos porque são muitos os fatores que afetam ou podem afetar esse processo em transformação.

Por outro lado, as sociedades estão em constante mudança e sob ação dos sujeitos sociais em luta. Determinar o ritmo dessas mudanças e como afetarão o conjunto das economias desenvolvidas e não desenvolvidas faz parte da complexidade desse momento histórico em que estamos vivendo. É certo que historicamente o capital nunca prescindiu do trabalho, seja como ofertante de força de trabalho ou consumidor de seus produtos.

Os defensores de teses que, sob a justificativa das transformações nas formas de trabalho decorrentes das novas tecnologias da informação e da comunicação, profetizam a urgência de empregos mais flexíveis parecem não se incomodar com o grau de precariedade resultante dessas modalidades de contratação.

Seu ponto de partida é o mercado e todos são potencialmente consumidores. Nessa perspectiva, o trabalho deve se adaptar continuamente a essa lógica. No livro “Vida para consumo”, publicado em 2008, Bauman relata em uma passagem a experiência de Arlie Russel Hochschild no Vale do Silício nos Estados Unidos em que a preferência por empregados “flutuantes”, descomprometidos, flexíveis, “generalistas” e, em última instância, descartáveis, em vez de especializados e submetidos a um treinamento estritamente focalizado, foi o mais seminal de suas descobertas.

Segundo Bauman, o empregado ideal seria uma pessoa sem vínculos, compromissos ou ligações emocionais anteriores, e que evite estabelecê-los agora, ou seja, uma pessoa disposta a assumir qualquer tarefa que lhe apareça e preparada para se ajustar e refocalizar de imediato suas próprias inclinações, sendo suficientemente flexível para assumir novas prioridades e abandonar as adquiridas anteriormente.

Se é correto afirmar a subordinação crescente dos avanços tecnológicos aos interesses exclusivos do capital produtivo e financeiro como uma das características constitutivas dessa atual etapa do capitalismo, também é certo que se tratam de processos históricos e o desfecho depende da correlação de forças sociais em disputa.

Os avanços tecnológicos devem estar a serviço da sustentabilidade da vida, portanto, a pergunta que deve ser feita é como devemos atuar para que os benefícios, ao invés de serem apropriados pelo capital privado, estejam à disposição da produção bens públicos.  

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Nesse sentido, é necessário retomar a capacidade do Estado como impulsionador do desenvolvimento econômico, por meio de políticas de fomento à pesquisa e de construção de marcos regulatórios que estabeleçam as condições em que as pesquisas tecnológicas devem ser desenvolvidas e como devem ser apropriadas pela sociedade tendo como principal propósito o bem comum.

Nosso objetivo é de continuar defendendo empregos dignos e com qualidade para todas as pessoas. Se é certo que o mercado de trabalho passará por profundas transformações em que novas ocupações surgem e outras serão destruídas, é fundamental que os direitos sejam assegurados e que o acesso seja garantido eliminando todas as formas de segregação e discriminação.

No Brasil, atualmente, são mais de 13 milhões de pessoas desempregadas como resultado de uma política de austeridade fiscal e de subordinação ao rentismo, que condena milhões de pessoas à desocupação e aos trabalhos mais precários.

Não são as tecnologias que estão desempregando no Brasil de hoje, mas os equívocos da política econômica neoliberal. Isso afeta de forma mais contundente as mulheres e a população negra, maioria entre as pessoas desempregadas e nos trabalhos sem proteção social.

*Marilane Oliveira Teixeira é economista, doutora e pesquisadora do CESIT/IE-Unicamp, assessora sindical, membro do Fórum Permanente em Defesa dos Direitos dos Trabalhadores Ameaçados pela Terceirização e pesquisadora na área de relações de trabalho e gênero

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