Economia

Uma proposta de política industrial

por Nilton Nunes Toledo* — publicado 07/04/2017 00h01, última modificação 06/04/2017 10h18
A vocação agrícola e florestal do Brasil é uma vantagem competitiva. A partir dela, poderíamos produzir bens de maior valor agregado
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Árvore em plantação de soja

A agricultura seria a base da indústria

A leitura do artigo de Carlos Drummond na edição de CartaCapital de 5 de abril mostra uma realidade que me emocionou. Como professor da escola de engenharia de produção onde me formei e trabalhando na indústria, pratiquei com rigor o que me foi ensinado. Era a segunda turma do curso de engenharia de produção da Escola Politécnica da USP, criado pelo extraordinário Rui Aguiar da Silva Leme, PhD em Stanford.

Leme trouxe para o Brasil o curso “Industry Engineering”. Não pode usar o nome traduzido, pois a Faculdade de Engenharia Industrial oferecia um ótimo curso, mas que nada tinha a ver com o “Industry Engineering”. Ele teve então a felicidade de usar o nome de Engenharia de Produção. Deu certo.

Em 1962, a indústria nacional nascia, empurrada pela iniciativa de Juscelino Kubistcheck. Como as importações eram dificultada pela legislação protecionista, precisamos desenvolver os componentes que iriam ser usados nas montadoras recém-instaladas. Nacionalizei muitos produtos, entre eles carburadores, bombas de gasolina e componentes injetados em alumínio.

O País implantou notáveis empresas de sucesso, que produziam componentes para nossas montadoras e até exportavam, como Metal Leve, Cofap, Mecânica Pesada, Getofles, Almac e muitas outras, que criminosamente foram vendidas ou faliram.

Participei, como gerente de projetos, do desenvolvimento do primeiro computador digital feito no Brasil, em 1973, na Escola Politécnica, onde montei uma fábrica de circuitos impressos com furos metalizados. Esse projeto preparou um grande série de profissionais na área de eletrônica digital, inclusive empreendedores que montaram indústrias do gênero. Lembro-me de duas importantes: a de monitores para computadores pessoais e a indústria de fontes para produtos eletrônicos. A lei da informática, apesar de criticada, criou oportunidades. Terminado o projeto do minicomputador digital, ele passou a ser fabricado pela estatal Cobra.

Posso afirmar que não existia uma política industrial oficial, além de programas de incentivo, como o GEIA para a indústria automobilística. Assim a indústria se implantava com sucesso. A queda começou no governo Fernando Henrique Cardoso, que fixou uma taxa de câmbio suicida para a indústria nacional, aliada à ”abertura dos portos” do governo Fernando Collor.

O cenário descrito sucintamente me motivou a buscar uma solução para implantar uma indústria forte e com bases fundamentadas nos conceitos da maior produtividade e sem ameaças externas. Para isso, montei um grupo de trabalho com quatro dos meus ex-alunos e um consultor italiano especialista em planejamento estratégico: Luciano Grillo.  Era o início da década de 1980, seguida de um período dramático de uma crise provocada pelo petróleo em alta e a perspectiva da falta dele.

Na montagem do planejamento estratégico para estabelecermos um negócio próprio, necessitamos de uma visão nacional e daí surgiu as perguntas que se seguem:

Qual a vocação nacional? Quais recursos estão disponíveis? Qual a cultura existente que pode contribuir? Que mercados internacionais são compatíveis com os recursos disponíveis? Outras perguntas sugiram e a busca se aprofundou.

Vou colocar aqui as resposta que hoje podem ser usadas para definir uma política industrial.

  1. A vocação nacional é agrícola e florestal
  2. Os recursos principais: terras agriculturáveis em abundância, minerais para muitas aplicações, energia hidrelétrica em potencial,
  3. A cultura mais difundida é a agrícola e florestal.
  4. O mercado internacional é carente em minérios e alimentos. 

Vocação agrícola 

O único país do mundo capaz de produzir duas safras por ano é o Brasil. Isso nos coloca em vantagem competitiva para a produção industrial de alimentos e a política industrial a ser estabelecida é exportar produtos manufaturados com matéria-prima provenientes da agricultura.

Em vez de vender ao exterior soja, exportar óleo, farelo, ração para animais e outros manufaturados.

No lugar de exportar café, vender café solúvel e outros derivados (a Alemanha é o maior exportador de produtos de café sem produzir o grão).

A produção de uva no vale do São Francisco chega a cinco safras em dois anos. Exportar vinho e sucos de uva. Incentivar sua indústria

O milho pode gerar muitos produtos exportáveis. A mandioca outros tantos. Cevada, centeio, arroz e sorgo, igualmente.

Incentivar o álcool e açúcar.

Incentivar a indústria de móveis, carvão vegetal e subprodutos, papel. No Brasil, obtém-se madeira em cinco anos. Em outros países, 20 anos.

Biomassas em geral, como serragem de madeira, casca de arroz e capim podem ser industrializadas, obtendo carvão, biodiesel com as oleaginosas.

Hoje bastante explorada, a carne pode ser aperfeiçoada e otimizada com melhor qualidade e melhor remuneração para os criadores de gado, cabras, carneiros, frangos, perus, porcos.

Nosso potencial é enorme para usar as palmeiras do dendê do babaçu e outras palmeiras abundante no País e não exploradas para a produção de óleo (não se faz um sabonete de qualidade sem óleo de coco). 

Disponibilidade de recursos 

Dados colhidos naquela época sobre o uso das terras. Em milhões de hectares, o gado usa 240 de pastos, oleaginosas e outras de safras anuais, 40, cana, 8, eucaliptos e pinos, 7, terras ociosas e abandonadas, 100. Não precisa desmatar. 

Em vez de exportar minério, produzir o metal. A siderurgia pode usar carvão vegetal em vez de importar carvão mineral, obtendo um aço verde de melhor qualidade e incentivando a produção de biomassa que absorve carbono do ar, exportar o ferro e seus derivados como trilhos, perfis, chapas etc.

Explorar os minerais não-ferrosos, cuja obtenção se destaca com uso de energia elétrica. Para isso, incentivar a construção de usinas hidrelétricas exclusivas para a produção dos metais, como faz a Votorantin. Existe grande potencial de correntes de água que permite construção das PCH dedicadas a eletrodeposição.

Investir na produção de medicamentos e cosméticos oriundos de plantas medicinais hoje exportadas.

Mesmo sem uma quantificação dos benefícios de uma política industrial aqui proposta, é possível visualizar o caminho que atende as premissas colocadas: vocação nacional, autossuficiência em insumos, tecnologia disponível e própria, proteção à concorrência internacional, alta produtividade e mercado internacional.

* Sócio desde 2007