Uma aventura chamada bolsonarismo

O Messias salvador se esfarela em embates criados por ele mesmo

Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro

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Considero o dia 2 de dezembro de 2015 como o dia em que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, como o dia “D” da invasão da tropa direitista/golpista em direção à tomada do poder.

Tudo começou com um pedido do PSDB em 30 de dezembro de 2014 para que se procedesse auditoria para apurar a “lisura” na eleição, perdida pelo então candidato Aécio Neves. Ficou muito claro que o candidato derrotado não aceitou a voz das urnas. Setores poderosos engajados em sua campanha começaram então a se aglutinar, sempre em torno de uma reação ao fracasso de Aécio, e o que se viu adiante foi o uso de todos os expedientes possíveis para derrubar Dilma e o PT.

 

O professor Jessé Souza em seu livro “A Radiografia do Golpe” descreve de maneira espetacular uma timeline que esclarece ao leitor de que maneira uma manifestação de estudantes, empenhados na solução de um problema de transporte municipal, se transformou tempos depois em uma manifestação engajada politicamente e de abrangência nacional, chegando à patética e insólita presença de esposas de empresários batedoras de panelas em frente a Fiesp na Avenida Paulista.

Desvio da rota: tudo caminhava muito bem até maio de 2017, todo esse empenho das poderosas forças envolvidas na retomada do poder sofreu um golpe mortal em suas reais pretensões, ou seja, a bombástica divulgação das gravações do empresário Joesley Batista tornaram de imediato Aécio Neves uma opção politicamente inviável para a próxima eleição.

O PSDB viu desmoronar sua pretensão e começou uma incrível “bateção interna de cabeças”, mas o resultado foi que não havia um quadro para substituir Aécio Neves na empreitada e um espaço em branco se formou na disputa política no Brasil. Mas, como todos sabemos, espaços em branco não perduram.

Uma “reformada” e não menos poderosa aglutinação de forças foi redirecionada com o objetivo de eleger qualquer um, que de alguma forma defendesse seus interesses e ao mesmo tempo pudesse ser herdeiro do discurso anticorrupção e moralista implantado via grande mídia por anos na população brasileira. E isso foi feito.

Consequências: com a vitória de Bolsonaro muito se falou da derrota total da esquerda, mas será que foi assim mesmo? Na minha opinião, a maior derrota foi imposta à chamada “Direita Racional”, seus integrantes foram praticamente extintos ou relegados ao ostracismo.

 

Tanto que fica a questão: no momento, com quem se pode debater e manter um diálogo produtivo no primeiro escalão do governo? Certamente ninguém.

Mas vejo uma luz no fim do túnel, e não é o trem. Como dito anteriormente, consideraram eleger qualquer um, e foi exatamente o que aconteceu. Agora, efeitos colaterais têm se verificado nas atitudes ou falta delas por parte do recém eleito governo, um conjunto de “iluminados” divulgam medidas e voltam atrás com a facilidade de quem troca de meias.

Somos regados semanalmente por demonstrações de inépcia, bobagens, ignorâncias e questionamentos sem o menor sentido. Apoios e desafetos são jogados ao conhecimento público sem a menor preocupação com a justificativa ou com a racionalidade dos atos.

 

O que já se percebe é uma rápida desintegração da ilusão de “salvamento” da Pátria. O Messias salvador se esfarela em embates criados por ele mesmo.

Penso que veremos o surgimento de uma esquerda melhor e mais forte, mais ligada ao povo e as suas pretensões, tenham certeza que nossos dias serão melhores em prazo muito mais breve do que imaginávamos inicialmente.

É verdade que há um pequeno risco de rompimento total com o processo democrático, mas não acredito que irá se concretizar. Vamos aguardar para ver, sempre defendendo a democracia, o poder pelo voto, a liberdade de imprensa com responsabilidade, e, principalmente, os direitos individuais e justiça para todos sem viés ideológico, como eles adoram repetir.

 

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