A vida imita a arte

Os idos de março, fantasma shakespeariano

por Paulo B. C. Schettino* — publicado 09/04/2017 00h03, última modificação 06/04/2017 18h43
O que a literatura e o cinema nos ensinam sobre esse momento da história brasileira
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Estátua de Júlio César

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"César!  Cuidado com os idos de março!"

As literaturas épica e dramática, quando impressas em livros, são disseminadas e transformam  seus clássicos em fonte de referências para a produção eclética de outras literaturas delas derivadas, formando ao longo do eixo temporal aquilo que o francês Gérard Genette chamou de Palimpsesto.

Partes são reutilizadas pelos subsequentes autores, às vezes uma única palavra, frase, fato isolado, personagem, tema, quando não a narrativa inteira. Transformadas em formas tão diferentes, que por sua vez são alcunhadas simplesmente de homenagem, alusão, citação ou... plágio, no caso extremo.

Em nossa cultura ocidental, são recordistas, principalmente, a "Bíblia" judaico-cristã, os livros atribuídos ao grego Homero ( "A Ilíada" e "A Odisséia") e a literatura dramática atribuída ao inglês William Shakespeare. Suas partes, maiores ou menores, estão a vagar pelos meios de comunicação modernos (notadamente o cinema), formadores de imaginário de seus consumidores, que as repetem automaticamente de modo inconsciente, sem ao menos se dar conta de que reproduzem pensamento alheio que se escondem nos mais ocultos escaninhos de suas mentes.

Ao teatro e ao cinema cabe a responsabilidade primeira de repetir as expressões: "idos de março", "ovo da serpente", "cães de guerra", "honra", "virtude", "nobreza", "populacho", sem darmos conta que as absorvemos de uma fonte ou outra, mesmo se jamais tenhamos sido expostos ao texto dramático "Júlio César" de Shakespeare, seja a peça teatral ou uma das suas  inúmeras adaptações cinematográficas ou televisivas.

Estamos tão marcados pelos “idos de março” como sinônimo de sedição, traição, conjuração e pela lembrança dos “idos de março” brasileiros das décadas de 1950 e 1960 que a movimentação convulsionada pela Política e pelos políticos no Brasil, em 2015, nos obriga a “botar as barbas de molho” e não ignorar que “o cheiro do gelo”, antecipatório, como nos ensinou recentemente o pensador português Antônio Fidalgo, em suas andanças pelo Brasil.

Alguém muito arguto nos faz lembrar de Antonio Gramsci, quando este afirmava que “bobagens” ocorridas na Itália antes do surgimento do fascismo, semelhantes aos 'Gladiadores do Altar" no Brasil, de mais que hoje, foram descartadas por sua ridicularia.

Portanto, todo cuidado é pouco. Shakespeare nos ensina que a única saída é esmagar “o ovo da serpente” e nos assenhorar e escutar o brado do vidente: "Cuidado com os idos de Março".

* Assinante desde 2016

registrado em: Golpe, Júlio César