Política

Lula presidente? Não

por Everaldo Chrispim da Silva* — publicado 12/03/2017 00h01, última modificação 09/03/2017 18h50
Caso o campo progressista queira de fato mudar o Brasil, o petista seria mais útil em outra função
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Lula discursa em evento sindical

Lula: melhor no Legislativo?


Espaço aberto para quem apoia o jornalismo transparente e crítico de CartaCapital.

Entenda as regras de envio de artigos em socio.cartacapital.com.br/duvidas

 

Antes de tudo, não sou cientista social. Sou apenas um brasileiro preocupado e desejoso de dividir preocupações. Entenda-se assim a minha sugestão sobre o papel do ex-presidente Lula.

A Operação Lava Jato serviu para mostrar aquilo que se sabia há muito tempo: existe uma corrupção desenfreada nos poderes no Brasil e o favorecimento de setores sociais que se julgam acima da sociedade é um tumor a ser extirpado até seus últimos tentáculos. É bem verdade que ela tem mostrado uma parte de tudo isso, pois, no fundo, sabemos que é muito maior, e que poucos escapam da sedução do corrupto, donde se pode depreender de que ela não irá tão longe quanto deveria.

Além disso, a Lava Jato não desnudou, mas foi capaz de sugerir o quanto o Poder Judiciário está envolvido na mesma lama. É impressionante a falta de pejo daqueles que se propõem a defender a lei, e que decidem para si, por exemplo, rendimentos muito superiores aos limites que a lei define para o funcionalismo público. Os homens da lei no Brasil burlam a lei brasileira. O problema não é pessoal. É do setor.

Os últimos acontecimentos mostraram também que o ensino formal, que cresceu muito na década passada, não é capaz de aumentar a consciência cívica dos cidadãos nem seu espirito de solidariedade. O povo brasileiro, na sua grande maioria, continua particularmente preconceituoso e facilmente manipulado. E isso, até mesmo para aqueles que ascenderam socialmente nas ultimas décadas.

Os acontecimentos políticos deixaram clara a urgência de uma transformação profunda do Estado, e a necessidade do fortalecimento dele como instituição. Não falo do governo, falo do Estado, que no Brasil é tão fraco, a ponto de cada chefete alojado na burocracia julgar-se dono dele, e dele se apropriar, sem o menor constrangimento, para o serviço dos seus interesses próprios – é um absurdo o numero de funcionários públicos que ficaram milionários – sejam deputados, senadores, juízes, promotores, governadores... 

Contudo, a transformação do Estado, no meu ponto de vista tão urgente, não passa pelo Executivo. De nada vale distribuir riqueza, aumentar rendas, favorecer desvalidos quando as elites política e econômica, a burocracia, e os privilegiados não são contidos pelo poder do Estado. 

De nada vale a “boa” intenção, a busca pela transformação social, ou apenas a manutenção da democracia, se existem “dignos” representantes do povo, alojados no congresso, e que não as desejam?

A mentira, a falsidade e a calúnia são apenas particularidades do momento. 

A história recente nos mostrou.

É preciso mudar as leis.

Precisamos, diante da falta de escrúpulos das nossas elites, de leis, até mesmo draconianas, que obriguem, de maneira inequívoca, ao seu respeito.

É uma atitude a ser tomada pelos progressistas. Não falo esquerda e direita, prefiro falar dos que pretendem a inclusão social, e daqueles que querem manter a exclusão. Daqueles que querem transformações sociais, e dos que não querem. Podemos chamá-los de progressistas e conservadores.

Penso que todas as forças progressistas no Brasil deveriam se juntar num grande movimento em direção ao Congresso, pois só o Congresso pode mudar o País.

Que elas se unam em torno de bandeiras muito próprias, inquestionáveis, claras e de absoluto interesse da sociedade, e que deixem claro, ao povo, os seus compromissos: Contra o foro privilegiado dos políticos, pela formação de órgãos externos para controle das atividades do Judiciário, a favor da reforma dos processos judiciários para impedir os retardamentos que levam a injustiça, pela formulação de critérios para indicações ao Judiciário, pela adequação do número de representantes nas câmaras, pelo fim das mordomias nos poderes (pensão e plano de saúde vitalícios apos 180 dias de mandato, para os deputados) e outras mais pertinentes.  

O Executivo jamais faz isso.

Um Lula candidato a deputado federal facilmente elegeria três ou quatro mais comprometidos com as mesmas bandeiras, uma Dilma Rousseff elegeria outro tanto, e assim talvez conseguíssemos formar um congresso capaz de mudar o País.

Se não conseguirmos formar um congresso comprometido com essas ideias transformadoras, é porque somos minorias e o povo quer a continuidade dos descalabros.

Paciência....

Lula presidente não.

Lula deputado.

* Médico e “sócio” desde 2010

registrado em: Lula, Lava Jato, Eleições 2018